   O prisioneiro

   rico Verssimo

   Maio findava, haviam j comeado a soprar as mones de sudoeste, mas naquele entardecer mormacento fizera-se uma sbita calmaria em toda a regio. Era como se
a abbada celeste, emborcada como uma ventosa sobre a terra, tivesse sugado quase todo o ar de um largo tracto de plancie, montanha e mar. E a velha cidade imperial,
de to ilustres palcios, templos e tumbas, ali plantada sobre ambas as margens do rio, parecia um organismo vivo, palpitante e intumescido, a sufocar  mngua de 
oxignio.
   Fazia um calor ardente de febre. A luz do Sol tingia de um amarelo de maleita a atmosfera hmida e morta, em que havia algo de vagamente decomposto. Dos fossos 
atufados de lotos que cercavam a cidadela murada, por entre enxames de mosquitos desprendia-se uma fragrncia adocicada, de mistura com um bafio de lodo.
   Pinheiros perfilavam-se plcidos no jardim do Palcio da Harmonia Perfeita. Na esplanada do Museu alongavam-se cada vez mais sobre as lajes as sombras das esttuas 
de pedra de mandarins d'antanho.  frente de um pagode, no ponto em que na manh daquele mesmo dia uma estudante budista de dezassete anos se suicidara, ateando 
fogo s vestes ensopadas de gasolina, ficara sobre o pavimento uma ndoa escura e gordurosa.
   O trfego, que comeara a engrossar depois das cinco horas, atingia agora a sua densidade mxima. Milhares de automveis, bicicletas, motonetas e velotxis rodavam, 
num desconcerto de buzinas, pelas ruas e avenidas daquela antiga capital provinciana, alma e crebro de uma nao dividida. Os veculos de duas rodas deslizavam 
sinuosos, com uma graa gil e fcil de peixes num aqurio pululante. Nas caladas, muitas delas orladas de rvores - jasmins-manga, palmeiras, mangueiras, coqueiros 
e mangostes -, caminhavam homens e mulheres em geral de pequeno porte, epidermes acobreadas, faces de malares salientes, olhos oblquos. Tinham um ar quase equvoco 
e uma certa leveza delgada de figurinhas de papel. Os homens, em sua maioria vestidos  ocidental, estavam em mangas de camisa e com as cabeas descobertas, mas 
viam-se tambm entre eles outros nativos metidos em seus pijamas de um preto ruo ou de cores indefinidas, os olhos meio escondidos sob os chapus cnicos de palha 
de bambu.
   Todo aquele ir e vir de criaturas humanas e veculos sobre as pedras e o asfalto ainda quentes da soalheira do dia, os contrastes de luz e sombra, a nvoa de 
azulado leite que a fumaa de gasolina e leo queimados deixava no ar variolado pelas tachas escarlates e estticas das flores dos flamboyants e pelas manchas mveis 
e vaporosas dos ao dais das mulheres, em tons de pastel - tudo isso produzia no observador esfumadas sensaes de cor e volume, mais que percepes ntidas de desenho, 
de sorte que algumas daquelas ruas sugeriam pinturas impressionistas que tivessem ganho animao e voz.
   Juncos, sampanas e outras embarcaes pequenas coalhavam as guas, umas em movimento, outras atracadas em pencas ao longo de ambas as margens do rio, formando 
aldeamentos fluviais. Do ponto de observao do piloto do helicptero militar que em dado momento sobrevoou a cidade, de volta de uma misso de reconhecimento, os 
veculos que em linha dupla atravessavam a ponte grande, lembravam vermes a rastejarem disciplinados dentro das carcaas de monstros antediluvianos.
   Um incidente ocorrido ao p das muralhas da cidadela, perto do Porto Imperial, interrompeu o trfego por alguns minutos. Suspeitando de um vendedor de frutas. 
um polcia derribara com um pontap o seu balaio, e entre as mangas e roms que rolaram pela calada, descobrira uma meia dzia de explosivos plsticos. O fruteiro 
rompeu a correr cidadela a dentro, mas foi logo subjugado por outro guarda. Populares assistiram  cena aparentemente apticos e neutros.
    frente do mercado central, uma velha que tentava atravessar a rua, equilibrando sobre o ombro uma vara de cada uma de cujas extremidades pendia um cesto contendo 
gansos, foi atropelada por uma motocicleta e atirada ao solo. As aves, de ps amarrados, romperam a voejar, grasnando assustadas por entre os veculos, enquanto 
a mulher se deixava ficar estendida na sarjeta, chorando mansinho.         
   Nas vrzeas e arrozais que cercavam a cidade, estendendo-se at  cordilheira, a oeste, e at ao mar, a leste, os camponeses comeavam a recolher-se s suas palhoas, 
onde, encerrados com seus familiares, enfrentariam os azares da noite. A essa hora j se sabia na cidade e arredores que guerrilheiros comunistas, vindos das montanhas 
 hora da sesta, haviam atacado de surpresa uma aldeia situada a poucos quilmetros ao sul da zona desmilitarizada, matando e ferindo muitos dos seus habitantes, 
pilhando e incendiando as suas choupanas. Tropas do exrcito regular do Sul, ajudadas pelos seus aliados brancos de alm-mar, tinham sido levadas em helicpteros 
para o lugar onde se presumia estivesse o inimigo, mas este se havia sumido por completo.
   Um ancio, envolto em sua toga cerimonial de seda preta e acompanhado de seu primognito, saiu do grande templo aonde tinha ido queimar incenso e prosternar-se 
diante do altar de seus ancestrais. Parou  porta, ficou por alguns instantes a contemplar os muros da Cidade Proibida, e depois ergueu os olhos para o cu. Seus 
lbios chegaram a mover-se como se ele fosse dizer alguma coisa; mas permaneceu calado. O moo baixou a cabea, respeitando o silncio do velho. Sabia o quanto doam 
no esprito e na carne daquele confucionista devoto as violncias que dilaceravam a sua terra e a sua gente. Como se no bastasse aquela guerra fratricida entre 
Norte e Sul, irrompera fazia pouco, insuflada pelos bonzos, outra revolta contra o novo Governo. O velho presenciara demonstraes populares nas ruas de sua cidade: 
por trs de barricadas feitas com mesas, cadeiras e at altares domsticos, centenas de estudantes tinham enfrentado as tropas da Polcia e do Exrcito. Pagodes 
transformaram-se em praas de guerra. Soldados do Governo haviam feito fogo contra o povo... Na Capital do pas, no extremo sul, um sacerdote budista dos mais representativos, 
como sinal de protesto contra os desmandos do Governo, fazia a greve da fome. Os suicdios rituais continuavam: havia poucas horas, o ancio tivera nas mos farrapos 
carbonizados do vestido da menina que se imolara aquela manh, consumindo-se numa labareda.
   Meneou tristemente a cabea e, sempre em silncio e seguido pelo filho, continuou o seu caminho, atravessando o jardim do templo, por entre grifos de pedra.
   Naquele mesmo instante, sob o toldo fechado de uma sampana atracada  margem esquerda do rio, um guerrilheiro comunista, cuja cabea tinha sido posta a prmio 
pelo Governo do Sul, mas que entrava e saa inclume da cidade, onde contava com centenas de parentes, amigos e cmplices, conversava em voz baixa com dois rapazes, 
dando-lhes instrues. Sua voz era um crepitar de palha. Tinha estendida a seus ps uma planta rstica da cidade. Os dois moos escutavam o lder com grave ateno, 
e as pupilas de ambos reflectiam a imagem daquele homem franzino, de idade indefinida, rosto emaciado e anguloso, e olhar autoritrio. De quando em quando sacudiam 
a cabea num assentimento. O terceiro irmo estava de sentinela, na proa da embarcao. olhando furtivamente de um lado para outro, enquanto uma rapariga, acocorada 
na popa, olhava fixamente para a panela de ferro em que fervia o arroz, sobre um fogo de gravetos.
   A poucos quilmetros dali, sentado sobre os calcanhares, no meio de um arrozal, um campons idoso, de rosto enrugado e cor de ocre, fumava e sorria para a armadilha 
de bambu onde acabava de cair a pomba-rola que no dia seguinte lhe ia servir de chamariz para as outras pombas que pretendia apanhar. Imaginou-se a caminho do mercado 
da cidade. Venderia as aves por um bom preo: dinheiro para comprar fumo e sal... sim, e azeite para a lmpada. Seus lbios, de um vermelho pardacento, abriram-se 
num sorriso sem dentes. E o velho ficou a contemplar por trs da fumaa: do cachimbo a brasa do sol, que descia para as bandas da cordilheira.
   Havia pouco mais de uma semana, o coronel branco escrevera  sua filha adolescente - da qual o separavam milhares de milhas de terra e mar - uma carta em que, 
entre outras histrias isentas de qualquer resduo sangrento, lhe contara que nos jardins do edifcio onde se instalara como governador militar provisrio da cidade, 
"florescem orqudeas e metralhadoras, lrios aquticos e baionetas". E agora,  janela de seu gabinete de trabalho, naquele fim de tarde viscoso e opressivo, seguia 
com o olhar amortecido de fadiga os vultos dos soldados de sua polcia militar, que se moviam como perdigueiros por entre as rvores e arbustos daquela selva em 
miniatura,  cata de algum terrorista que porventura ali se houvesse infiltrado. Essa operao se repetia muitas vezes durante o dia e a noite. O inimigo era esquivo, 
ardiloso e dotado de uma tenacidade de mosca e de uma capacidade de pulga ou piolho para insinuar-se, despercebido, pelos menores interstcios. Como o camaleo, 
podia tornar-se invisvel em qualquer terreno. E nunca se sabia como, quando e com que armas ia atacar.
   O casaro, noutros tempos sede da Administrao Militar do pas europeu que por vrios anos ocupara aquela pennsula do sudeste da sia, estava rodeado por um 
muro de trs metros, sobre o qual fora recentemente erguida uma tela de arame grosso, da mesma altura, para proteger o recinto contra granadas.
   O coronel passou o leno j hmido de suor pelo rosto e pelo pescoo, e comeou a escrever mentalmente uma carta. "Filha querida: Entardece, e de minha janela 
veio o disco avermelhado do Sol descendo sobre as montanhas... Mas que tolice! O Sol no  um disco e o Sol no se move em relao  Terra. Um soldado profissional 
no se deve entregar a metforas poticas. Tem de ser antes de tudo um lgico. Mas qual! Que fora pode ter o pensamento lgico numa terra em que predomina o pensamento 
mgico?"
   Ficou por algum tempo a escutar o rolar surdo do trfego. Depois olhou para as muralhas que cercavam o jardim e sentiu um apagado mal-estar. Continuou a carta 
imaginria: "Quando menino teu pai sonhava ser um dia comandante de submarino, mas um teste psicolgico cortou-lhe os planos, provando que ele  um claustrfobo, 
isto , uma dessas pessoas que no suportam os ambientes fechados. Tive ento de optar pelo corpo de fuzileiros navais, que vocs moas acham to destemido e romntico. 
E aqui estou eu agora encerrado como um monge neste claustro cercado de altos muros. E faz quarenta e oito horas que praticamente no abandono esta sala e a minha 
mesa de trabalho, onde se empilham papis e problemas... eu que tanto detesto a burocracia! Uma dura misso de combate seria mil vezes prefervel a esta responsabilidade 
de governar, ainda que por poucos dias, uma cidade asitica agitada por lutas internas, tudo isso perigosamente em face de um inimigo comum que no nos d trgua." 
Soltou um suspiro de impacincia consigo mesmo. Como poderia escrever uma carta nesses termos a uma criana de quinze anos para quem uma guerra devia ser apenas 
uma srie de episdios herico-romanescos de televiso e cinema?
   Voltou-se e mediu com o olhar aquela sala mobilada s pressas, numa improvisao pragmtica: a ampla mesa de trabalho munida de trs telefones, o arquivo de ao, 
verde-oliva como seu uniforme, meia dzia de cadeiras singelas sem conforto nem histria... As lices do grande ventilador giravam e zumbiam, sem contudo conseguirem 
atenuar o calor ambiente, pois o ar que deslocavam era grosso e morno. O tapete de linleo lembrava ao coronel o da cozinha de sua casa na ptria distante. (A imagem 
aborrecida de sua mulher cruzou-lhe a mente.) Uma das paredes estava coberta de mapas daquela regio, do territrio inimigo e dos pases vizinhos supostamente neutros 
naquela guerra. A nica pea daquele gabinete que parecia ter conotaes humanas era um div de estofo desbotado e seboso, possivelmente relquia - achava o comandante 
- de uma administrao de funcionrios epicuristas que sabiam entremear o trabalho quotidiano de interldios erticos.
   Ouvia-se, meio abafado pelas grossas paredes, o matraquear de mquinas de escrever vindo das salas contguas. Apesar de saber que naquele momento cerca de oitenta 
pessoas trabalhavam naquele edifcio, todas ao alcance de um chamado seu, o coronel se sentia to solitrio e perdido no tempo e no espao como se o tivessem abandonado 
num planeta deserto, distante da Terra mil anos-luz.
   Teve de sbito a sensao de estar encerrado a afogar-se num boio cheio de leo quente. (Para o menino que lia As Mil e Uma Noites, o Oriente era um pouco Morgiana, 
a serva de Ali Bab, despejando azeite escaldante nos odres em que se escondiam os ladres.) Suava abundantemente. Sentia o bluso do uniforme colado ao trax, como 
se entre a sua pele e a fazenda houvesse uma camada de goma-arbica. No dormira um minuto sequer naquelas ltimas vinte e quatro horas. Sentia um vcuo no crnio 
e os globos oculares lhe doam, como que machucados. Bebericando caf preto e forte, sem acar, e fumando cigarro sobre cigarro, passara em claro toda a noite anterior, 
dirigindo dali de seu gabinete, pelo telefone e pela rdio, as operaes de seus soldados que davam batidas em lugares suspeitos, procurando localizar e apreender 
o grande contrabando de bombas plsticas que seus informantes lhe garantiam ter entrado na cidade no dia anterior. E at aquele momento nada se encontrara, a no 
ser uma pequena quantidade de granadas de mo e explosivos de fabricao domstica, escondidos em cestos de frutas de vendedores de rua, em pores suburbanos e numa 
que outra sampana. No exasperante!
   Havia dois dias, uma bomba explodira no saguo do Hotel Continental, o mais importante da cidade, matando oito pessoas e ferindo vinte e cinco. Poucas horas mais 
tarde, um plstico detonara no recinto do Cinema Delta, fazendo ainda mais vtimas, pois os que no haviam sido mortos ou mutilados pela exploso, tinham sido espezinhados 
quando em pnico procuravam fugir da sala.
   O general lhe confiara a custdia daquela cidade durante o perodo de negociaes entre o Governo do Sul e os bonzos. A revolta budista cessara praticamente com 
a rendio da cidade vizinha, seu ltimo reduto. Agora o resto dependia de conversaes ao redor de uma mesa. Mas enquanto no se chegasse a um acordo definitivo 
de paz, cabia a ele a responsabilidade de manter a ordem naquela regio. O motivo que seu comandante invocara para lhe entregar aquela misso era o de que ele compreendia 
a mentalidade oriental. Ridculo! Sentia-se naquele posto como um touro em loja de porcelanas...
   Despejou num copo de papel um pouco do ch frio temperado com sumo de limo que havia num jarro bojudo em cima da mesa. Levou-o  boca, bebeu dele com avidez, 
fazendo propositalmente o lquido escorrer-lhe ao longo da pele ardida do queixo, do pescoo e do peito. E o tnue cheiro de papel encerado do copo transportou-o 
 infncia... Uma tarde, no saguo de um cinema... Ele devia ter uns doze anos... ou treze? Ps um nquel na fenda de um vendedor automtico de refrescos gelados... 
Via-se apertando o boto sob a palavra cereja... lembrava-se at do formado das letras... Depois comprara um cone de papel com pipocas recendentes a gordura vegetal... 
Porque lhe vinham  lembrana imagens desse dia e no das centenas de outros em que, em vrias idades, bebera de copos de papel? Decerto era porque naquela tarde 
ele se escondera no lavatrio do cinema, fechara-se num cubculo, sentara-se completamente vestido no vaso sanitrio e ali fumara o seu primeiro cigarro, trmulo 
de medo e gozo (ou nusea?) com uma dolorosa conscincia de pecado, pensando no pai, pastor protestante, e no fogo do Inferno com que ele vivia a amea-lo.         
   O coronel tomou um novo gole de ch. O cheiro de papel encerado dessa vez projectou-o num outro dia do passado... Tinha vinte e poucos anos e estava no piquenique 
em que conhecera a moa que dali a um ano viria a ser sua esposa...
   Era Abril e as forstias e os cornisos estavam floridos. Ambos beberam um brinde ao futuro: limonada em copos de papel. Eram metodistas e repudiavam o lcool. 
Ela tinha um riso primaveril e uma graa de salgueiro. O coronel amassou entre as mos o copo de papel e atirou-o num mpeto agressivo dentro da cesta de arame, 
ao p da mesa. Passara o dia evitando pensar no seu caso domstico.
   Esfregou as faces com a palma da mo e sentiu a aspereza da barba de doze horas. "No vais te barbear, querido? No esqueas que hoje vamos jantar na casa do 
coadjutor." Detestava o tom sacarino da voz da mulher. Educada num dos melhores colgios para moas do pas, ela costumava pronunciar as palavras de maneira excessivamente 
correcta e com entonao declamatria, como se estivesse sempre num palco. (Espectculo de amadores, naturalmente.) Por outro lado seus cuidados maternais para com 
ele o irritavam. Tinham quase a mesma idade, mas ela havia envelhecido prematuramente: seus cabelos estavam j completamente grisalhos e a pele do pescoo era um 
calendrio inexorvel. A filha lhes chegara um tanto tardiamente, o que para os trs podia ser muito bom ou muito mau... Marido e mulher sempre haviam dormido em 
camas separadas, e fazia agora mais de dois anos que no mantinham relaes carnais. Ela parecia achar aquilo no s muito cmodo mas tambm muito natural, "Seria 
ridculo, corao, que na nossa idade, ns..." Ele, porm, que na vizinhana dos cinquenta anos se sentia to viril como aos trinta, passara a viver uma frustrao 
que o deixava num desassossego irritado. Cessara de desejar o corpo da esposa. Aquela pobreza de ancas e seios, que na juventude lhe haviam dado um esquisito ar 
de adolescente (pajem, lamo, gazela) agora a tornavam assexuada (tbua, poste, bruxa de pano). E  medida em que o tempo passava ele a via portar-se cada vez mais 
como uma me com relao a ele - e me de filho nico! As expresses "meu filhinho" ou mesmo o tratamento de "papai", que ela empregava habitualmente, causavam-lhe 
um certo mal-estar, uma espcie de vergonha, como se ambos vivessem em incesto. Mais de uma vez perdera a pacincia com a mulher e lhe dissera palavras rudes ou 
sarcsticas, A criatura rompera a choramingar e isso provocara nele um sentimento de culpa que acabara por agravar-lhe a exasperao, "Tu me tratas como se eu fosse 
um dos teus soldados. O Exrcito te deformou, meu pobre querido!" O coronel reconhecia e deplorava a prpria intolerncia. Talvez sua filha fosse a nica pessoa 
no mundo com quem jamais perdera a pacincia: era com ela que gastava suas relutantes reservas de ternura e benevolncia.
   Tornou a aproximar-se da janela. Olhou o mostrador do relgio-pulseira, num gesto automtico, sem chegar a tomar conscincia da hora que os ponteiros indicavam. 
Agora ocupava-lhe a mente, com uma nitidez perturbadora, a imagem da outra. A coisa acontecera de um modo que o levava a acreditar na fatalidade. Tinham-se conhecido 
numa festa na casa de amigos comuns, fazia pouco mais de dois anos. Fora ela quem o convidara para danar. Sua mo pousara quente e provocante no seu pescoo, puxando 
seu rosto para junto do dela. Os corpos de ambos uniram-se como duas metades que finalmente se encontram e completam. Era uma fmea dotada de um irresistvel magnetismo 
animal, em tudo o oposto de sua esposa: clida e opulenta de curvas e carnes, slida sem ser gorda, descuidada, natural e livre no falar (tom, vocabulrio, assunto, 
sintaxe) e, acima de tudo, capaz de soltar uma risada no meio de um salo cheio de gente, fosse onde fosse, uma dessas risadas que do a impresso de vir das profundezas 
do ser, das entranhas, do tero, do sexo - vibrantes, orgsticas, quase csmicas. Era divorciada e tinha trs filhos, que viviam ora com ela ora com o ex-marido. 
Trabalhava numa casa de decorao interior e tinha trinta e dois anos. Tornaram-se amantes na semana seguinte. Passaram a encontrar-se em motis. Ou ento metiam-se 
no carro dele ou no dela e iam-se para os subrbios. E ele entrou ento no jardim das Delcias, o den depois do pecado original e antes da expulso. E o que havia 
de mais excitante nas relaes entre ambos era que, diferentes do primeiro homem e da primeira mulher, eles no se amavam num tacteante estado de inocncia, mas 
aproveitavam a experincia de milnios de prtica sexual. Ele se sentia rejuvenescer ao calor da paixo do corpo e do esprito daquela mulher extraordinria, que 
em tudo era a negao do mundo puritano em que ele nascera e fora criado, e do qual s a vida da caserna conseguira afast-lo um pouco, e assim mesmo de maneira 
superficial.
   A lembrana dos momentos que passava com a amante tornava-lhe mais difcil suportar a presena da esposa legtima. Ademais, comeava a sentir-se como um traidor 
perante a filha, como se a tivesse abandonado para adoptar os filhos da outra, um rapaz e duas meninas que via com alguma frequncia, e que lhe davam um tratamento 
de tio. Desagradava-o profundamente aquela duplicidade de vida. Detestava a hipocrisia: no era homem de duas caras. E ao cabo de certo tempo a imagem do pai, um 
bispo metodista muito respeitado na sua comunidade, comeou a persegui-lo como a encarnao mesma de sua culpa. Por outro lado, a amante insistia com ele para que 
pedisse divrcio  esposa e fosse viver com ela. Era-lhe tambm desagradvel ter de fazer as coisas s escondidas. "Se eu me pude divorciar, porque voc no h-de 
poder tambm?" Ele explicava que no queria traumatizar a filha, que estava numa idade difcil e que vivia numa grande dependncia sentimental tanto dele como da 
me. Na realidade - bem sabia - a pessoa que tinha nas mos a chave de seu crcere, era o pai.
   E assim se foi passando o tempo, numa espcie de alternao de paraso, inferno e, talvez mais frequentemente, purgatrio. E o pior - reflectia agora o coronel, 
olhando mas sem ver o trecho de jardim que a janela enquadrava - o pior eram as manhs de domingo em que, seguindo velho hbito, ele e a esposa iam juntos ao culto 
divino na igreja da parquia, e rezavam juntos, juntos cantavam salmos e escutavam sermes. O cheiro de verniz dos bancos do templo mesclava-se com o perfume de 
cravo que se exalava do corpo da me de sua filha. E ela cantava os hinos com seu trmulo soprano, miniatural e grotescamente opertico, movendo a cabea como um 
passarinho e, nos trechos mais agudos da melodia, erguendo-se um pouco na ponta dos ps, sempre a sorrir inefavelmente, numa espcie de fervor religioso pr-fabricado. 
E a todas essas ele se sentia ridculo, farisaico, desprezvel. E o resultado de tudo aquilo fora uma lcera gstrica. O mdico que consultara, no tardara a ir 
ao fundo do problema. "De pouco ou nada adiantar a dieta ou o remdio que lhe vou prescrever, se o senhor, coronel, no arrancar o mal pela raiz..." Era um homem 
retaco, meio encolhido, que respirava forte e costumava mirar os outros obliquamente com os olhos midos e vivos, sob sobrancelhas hspidas. "Divrcio? E a minha 
filha, doutor? E a minha mulher, de quem no tenho a menor queixa, e que talvez no suporte o golpe moral?" O homenzinho encolhera os ombros, murmurando: "Esses 
problemas eu no posso resolver. Talvez um analista..." Ele, um oficial do Exrcito de quase cinquenta anos deitar-se num div e romper a falar como uma comadre, 
contando a um estranho os seus problemas mais recnditos? Repeliu, indignado, a sugesto, como se o mdico lhe houvesse feito uma proposta indecorosa.
   Um dia em que estava particularmente agitado, forrou-se de coragem e foi  casa do pai. Fechou-se com ele numa sala e contou-lhe tudo, sentindo estranhamente 
que no fazia aquilo para pedir-lhe perdo ou conselho, nem mesmo para aliviar-se do peso de um segredo. Era um puro acto de agresso. No fundo talvez o que ele 
queria mesmo era escandalizar aquele moralista austero, como se de certo modo ele fosse o culpado de todo aquele embrulho sentimental e moral que o atormentava. 
O velho escutou-o num silncio atnito, as mos agarrando com fora os braos na poltrona em que estava sentado. Depois de abundantes e iradas citaes bblicas, 
balbuciou: "Que decepo! O meu filho, o meu nico filho, de quem tanto eu me orgulhava... cometendo adultrio com uma... uma..." Calou-se, e quando tornou a falar 
foi no tom de um profeta antigo: "Pois se queres matar de desgosto teu pai e tua me, vai e pede divrcio  limpa e digna mulher que recebeste como esposa legitima 
perante Deus e o mundo. Ser um belo espectculo! J ouo as murmuraes... O filho do bispo metodista separou-se da esposa legtima para casar-se com uma divorciada 
com quem vive em pecado h mais de um ano. Um belo exemplo para a comunidade! j pensaste na tua filha? Que vai ser dela? J... j..." Tornou a cair em silncio. 
E por fim, como estava habituado a fazer sempre que a mulher ou os paroquianos o contrariavam,, recorreu ao seu apocalipse particular e simulou um dos seus famosos 
ataques cardacos. Comeou a respirar de boca aberta, como sufocado, espalmou a mo sobre o peito... O farsante! Sua face continuava com a rosada cor natural... 
E ento o filho resolvera, como um bom jogador de pquer, "pagar para ver". Continuara imvel. O pai tirara de uma caixinha de metal dourado uma pastilha de trinitrina 
e pusera-a debaixo da lngua. Aquela era a tragicomdia que o velho costumava encenar quando queria sensibilizar a mulher, que havia mais de meio sculo o servia 
como uma criada e lhe aturava as impertinncias. Era egocntrico e tirnico. O que lhe importava acima de tudo era manter a sua Imagem na comunidade.
   Vendo que o filho no corria ao telefone para chamar o mdico nem fazia qualquer gesto de socorro, o velho balbuciara, sentido: "Pouco se te d que teu pai morra. 
O que te importa so as fomes da tua carne mortal. Pois ento vai! Mas no esperes a minha aprovao, a minha bno para a loucura que pensas cometer. Lembra-te 
de Deus Nosso Senhor, que tudo v e tudo sabe e julga..."
   O comandante agora olhava fixamente para a copa de uma mangueira. No jardim as sombras se acentuavam. Algum soltou uma exclamao na lngua daquela terra, e 
a palavra subiu no ar como um pssaro extico.
   Naquela tarde remota - lembrou-se ainda o coronel - ao deixar a casa paterna, exacerbado mas nem por isso sentindo menos o peso de sua culpa, ele fora directamente 
para os braos da amante. E tivera com ela a sua mais furiosa hora de amor.
   Desde que chegara ao teatro de operaes, havia meses, ele mantivera a castidade, o que lhe era fcil quando saa em misses de combate. Ouvira dizer que nas 
Penitencirias era costume deitar cnfora no alimento dos prisioneiros, como um anafrodisaco. Sua cnfora agora eram o trabalho e as preocupaes daquele comando. 
Mantinha assim a castidade do corpo; a do esprito, essa no era possvel controlar: com frequncia tinha sonhos erticos com a amante. Repelia com repugnncia a 
ideia de dormir com as nativas. Havia nas faces daquelas mulheres algo de bicho, que talvez estivesse nos olhos enviesedos, uma certa "expresso" que tantas vezes 
ele observara nos zoolgicos, nos focinhos das coras. Temia, por outro lado, as doenas contagiosas. Lembrava-se do caso de um de seus oficiais que costumava ir 
para a cama com uma prostituta nativa e que acabou descobrindo horrorizado que ela era leprosa. A criatura, certa noite, divertia-se com um orgulho inocente a mostrar 
ao oficial branco como podia queimar os dedos na chama de uma vela sem sentir a menor dor...
   O coronel meteu a mo dentro do jarro de ch e apanhou o ltimo cubo de gelo que ali havia, j quase reduzido a uma lmina, e passou-o pelas faces. Depois, mais 
uma vez desafiando o pai, que reprovava tanto o uso do lcool como o do tabaco, tirou um cigarro do mao que estava sobre a mesa e levou-o  boca. Sentiu-o hmido 
e flcido. Acendeu-o, e o clique do isqueiro e o cheiro de gasolina trouxeram-lhe  mente aquela derradeira noite... Ele e a mulher amada dentro de um automvel, 
numa esplanada  beira do rio... Diziam-se adeus, pois no dia seguinte ele embarcaria para o alm-mar, para a guerra. Haviam a princpio permanecido num longo silncio, 
de mos dadas. Depois ele accionara o isqueiro para acender o cigarro que ela tinha entre os lbios, apagado e possivelmente esquecido. E a pequena chama iluminara 
por um instante aquela face querida, a boca de sugestivo desenho. Mal ela inalara a primeira fumaa, ele j a beijava com tal aodamento que queimara o prprio rosto 
na brasa do cigarro. Ela soprara para dentro de sua boca uma baforada de fumaa e aquilo lhe incendiara as entranhas. E ento amaram-se sobre o banco traseiro do 
carro. Depois, numa saciedade lnguida e triste, tinham ficado num novo silncio a seguir com o olhar um navio de turismo que passava iluminado pelo meio do rio.
   O coronel comeou a andar de um lado para outro  frente de sua mesa de trabalho. Fosse como fosse - reflectia - o seu problema, se no estava resolvido, tivera 
pelo menos a sua soluo transferida para mais tarde ou para nunca mais. Talvez um daqueles raquticos guerrilheiros comunistas pudesse servir de instrumento da 
Providncia e liquidar o assunto com uma bala. Postou-se junto da janela e olhou para as copas das rvores. Naquele mesmo instante no era impossvel que um inimigo 
estivesse ali encarrapitado em algum galho, apontando para ele a carabina ou preparando uma granada para atirar dentro do gabinete, pela janela. Diabo! Aqueles pensamentos 
mrbidos e at certo ponto covardes eram indignos de um militar. A obrigao do soldado  sobreviver para levar a cabo o aniquilamento completo do adversrio. O 
calor e a falta de sono, a canseira de corpo e de esprito deviam ser responsveis por aquelas ideias absurdas.
   Foi naquele instante que um dos telefones tilintou. O coronel apanhou o fone, ouviu o que o seu ajudante-de-ordens lhe comunicava, e respondeu: "Diga ao major 
que entre."
   O major entrou. Teria escassamente quarenta anos, era de estatura mdia e de uma corpulncia adiposa. Uma pronunciada exoftalmia dava-lhe ao rosto polpudo e sanguneo 
uma expresso que, por uma razo que no conseguia determinar, o coronel achava pornogrfica. Os lbios grossos e vermelhos, em contraste com os do seu superior 
hierrquico, que mais pareciam um talho de navalha, sugeriam sensualidade. Sua bonomia era proverbial entre os camaradas de armas, que lhe disputavam a alegre companhia. 
O major amava os prazeres da mesa e os da cama, e parecia pouco importar-lhe que os outros soubessem disso ou no.
   Fez uma continncia sem nenhum garbo, exactamente o gesto que se podia esperar de um homem balofo. O coronel mirou-o com uma ponta de m vontade. Um militar - 
reflectiu - no tinha o direito de deixar-se engordar daquela maneira indecorosa. Comeava a notar no outro os primeiros sinais dessa desagregao que acaba fatalmente 
por destruir o corpo e o esprito de todo o branco que fica muito tempo exposto ao clima fsico e moral dos trpicos. Sentiu o mpeto de gritar: "Perfile-se sempre 
que fizer continncia! Encolha a barriga! Abotoe o bluso! No basta ser um soldado.  preciso tambm parecer." Conteve-se, como que engolindo essas palavras, seixos 
que lhe ficaram a pesar no estmago.
   O major largou o peso do corpo numa cadeira, deixando escapar um suspiro de alvio, e ficou num -vontade de vaqueiro entre vaqueiros. O coronel no gostou que 
ele se tivesse sentado sem primeiro ter sido convidado, mas nada disse.
   - Alguma novidade? - perguntou.
   O outro abriu a pasta de plstico negro que trazia debaixo do brao, tirou de dentro dela duas folhas de papel e colocou-as sobre a mesa.
   - Aqui est o meu relatrio - disse. - Como ver, nada descobrimos de palpvel no caso do contrabando de explosivos...
   Tinha uma voz oval e grave, que parecia vir-lhe do ventre numa sucesso de arrotos.
   O comandante lanou um olhar rpido e neutro para os papis, mas no os tocou.
   - E a investigao sobre as exploses no hotel e no cinema?
   - No temos ainda nenhuma pista.
   O coronel fez um gesto de impacincia e sentou-se  mesa. Havia meses que tinha o major sob suas ordens e ainda no formara um juzo seguro a seu respeito. No 
sabia sequer se gostava ou no do tipo. O bigodinho ralo que ele ostentava sob o nariz flico, debruando a boca de aspecto repulsivamente vaginal, parecia-lhe absurdo 
e desnecessrio, alm de obsceno. Reconhecia, com alguma relutncia, que o major possua qualidades positivas. Era inteligente e astuto, tinha bravura pessoal e 
cultivava a virtude da pacincia com esprito quase oriental. Poucos brancos conheciam como ele os meandros da poltica daquele pas, as conspiraes, contraconspiraes, 
artimanhas, qualidades e defeitos daqueles generais nativos que viviam a entredevorar-se na busca do poder. Tinha excelente memria e falava sofrivelmente bem a 
lngua dos nativos. Mas apesar de tudo isso...
   - Nestes ltimos dois dias interrogmos mais de duzentas pessoas sem resultado positivo - informou o major, tirando do bolso do bluso o cachimbo e comeando 
a ench-lo de fumo. - Ningum sabe de nada. Ningum conhece ningum.        
    O comandante esmagou o cigarro contra o fundo do cinzeiro e exclamou:
   - A maldita ambiguidade asitica!
   O outro acendeu o cachimbo. Inalou a fumaa e soltou-a no ar com visvel delcia, os olhos entrefechados.
   - Ora - sorriu -, ns, os ocidentais, sabemos tambm ser ambguos quando isso nos convm.
   O coronel olhou de vis para o interlocutor. As ideias do major s vezes lhe pareciam to perigosas como certos frutos daquela parte do mundo, cuja doura e madureza 
estavam sempre  beira da deteriorao.
   - O que me exaspera nesses nativos, major,  uma certa qualidade... a a a... como  que vou dizer?... amorfa. Por mais cristo que procure ser, no encontro para 
descrev-los seno smiles zoolgicos. Moluscos, lombrigas, sanguessugas... Veja como se reproduzem. s vezes tenho a impresso de que com este clima miservel, 
este calor pegajoso, estamos todos boiando num caldo de cultura onde pulam micrbios e protozorios... e que acabaremos irremediavelmente contaminados.
   O major encolheu os ombros.
   - J pensou, coronel, na ideia que essa gente deve fazer de ns? Com que bicho nos compararo? Talvez com um drago que masca chicle, toma sorvete de baunilha 
e defeca bombas incendirias gelatinosas...
   Tirou o cachimbo da boca por um instante. Entre fascinado e enojado, o comandante fixou o olhar nos lbios hmidos do outro, que prosseguiu:
   - Antes de mais nada esta gente tem uma noo muito arraigada de famlia, de cl... S remotamente  que pensa em termos de nao... O resultado do inqurito 
no me surpreendeu. Tenho a impresso de que neste pas todos so primos chegados ou remotos, parentes de sangue ou honorrios... amigos, compadres, correligionrios... 
que sei eu! A verdade  que se ajudam mutuamente e dificilmente se denunciam. As excepes contam-se nos dedos da mo... Ora, eu procuro compreender este povo, que 
na minha opinio est muito mais perto que ns das fontes essenciais da vida.
   Tornou a prender o cachimbo entre os dentes grados e abaulados, de uma cor de marfim antigo que parecia garantir-lhes a autenticidade. O coronel estava agora 
de p, em posio de sentido, lutando contra o torpor que lhe quebrantava o corpo e embaciava as ideias. Tinha ambas as mos encostadas nas ndegas retesas: os dedos 
da esquerda segurando o pulso da direita.
   - O que o senhor est dizendo, major,  lirismo da pior espcie. J li fantasias como essa sobre a felicidade do homem primitivo, telrico, etc... etc... etc... 
No aceito a ideia de que sejamos drages destruidores e sanguinrios. Na minha opinio, nosso pas tem no mundo uma misso civilizadora.  isso que me d esperana 
e fora para lutar. Est ao nosso alcance salvar da misria, da doena e da ignorncia este e outros pases do mundo igualmente subdesenvolvidos. Veja bem, em meio 
desta guerra traioeira estamos construindo escolas, hospitais, ambulatrios... Ensinamos tcnicas agrcolas aos camponeses. Depois de aniquilado o invasor comunista, 
entregaremos esta nao ao seu prprio destino. - Calou-se, sentindo que no estava muito certo de acreditar nas coisas que dizia. Mas, fosse como fosse, queria 
contradizer o interlocutor. Continuou: - Por outro lado, no creio que o senhor tenha verdadeira admirao por esses nativos que vivem a invocar os espritos de 
seus ancestrais, essa sub-raa que acredita em feiticeiros, mdiuns e astrlogos. Fiquei sabendo que existe nesta Provncia uma seita religiosa que adora Deus na 
forma de um olho...
   O major sorriu.         
   - Ns tambm adoramos deuses estranhos.
   O coronel fez um gesto que traa o seu agastamento.
   - Bom! - exclamou. - Voltemos ao que nos interessa.  graas a essa relutncia em denunciar os bandidos que certos chefes de guerrilhas conseguem entrar e sair 
da cidade impunemente, chegam a passar as noites com suas famlias, sob nossos narizes. O senhor sabe muito bem disso.
   O outro sacudiu a cabea num mudo assentimento.        
    - E o coronel no ignora como  que o inimigo trata os que colaboram connosco...
   Se sabia! Um quadro de horror iluminou-se em sua mente. A coisa se passara havia pouco mais de quatro meses. Visitara uma aldeia do Sul recm-destruda pelos 
guerrilheiros comunistas. As cinzas das cabanas incendiadas estavam ainda quentes quando ele l chegara. Segundo o relato do nico sobrevivente do massacre, famlias 
inteiras haviam sido queimadas vivas dentro de suas palhoas. Dera-se, porm, aos maiorais da povoao um "tratamento especial". Tinham sido primeiro castrados e 
depois decapitados, e seus rgos genitais pendurados nos galhos de uma rvore. Moscas enxameavam ao redor dos cadveres, cujo fedor ptrido empestava o ar. Numa 
das extremidades de uma lana de bambu, enfiada no nus de um dos corpos, estava presa uma tabuleta com algumas palavras escritas na lngua da terra: "Este  o fim 
que espera todos os que colaboram com os imperialistas brancos e seus lacaios."
   Depois de um curto silncio o major tornou a falar.
   - Na Capital do pas a situao  pior do que aqui. Existe l uma administrao clandestina de facto, um Governo fantasma que funciona paralelamente com o oficial. 
Fui informado de que o inimigo conta com seiscentas caixas postais, e que seu servio de comunicaes  muito mais eficiente que o nosso. Seus espies esto plantados 
em lugares estratgicos. como a central telefnica. Cada vendedor ambulante, cada dono de quiosque ou mercearia pode ser um agente secreto ou informante eventual... 
Nunca se sabe quem est connosco ou contra ns.
   Sorriu como quem vai contar uma piada.         
   - H poucos dias, um menino de seus sete ou oito anos entrou num caf e, com o ar mais natural do mundo, colocou um pacote em cima de uma mesa e em seguida saiu, 
a correr. Quando os que estavam l dentro tiveram a intuio do que ia acontecer e procuraram safar-se, era tarde... O pacote, que continha uma pequena bomba, explodiu, 
ferindo umas trs ou quatro pessoas.
   No silncio que ento se fez, o coronel por alguns segundos teve conscincia apenas do calor sufocante, agravado pela humidade, que aumentava com o cair da tarde, 
e de seu corpo dolorido e lavado de suor. Pensava nas horas que estavam por vir... Ansiava por uma ducha fria, pelo contacto de roupas limpas e pela sua cama no 
quarto do hotel onde estava hospedado, e cuja temperatura um aparelho condicionador de ar tornava suportvel.
   O major, sempre com o cachimbo entre os dentes, esfregava com o leno o cachao ndio. E o comandante, voltado agora para ele, preparava-se para encerrar aquela 
entrevista com um "muito bem, estamos entendidos..." - quando o outro de novo tomou a palavra.
   - Tenho uma histria (no sei se o coronel a conhece) que ilustra de maneira bastante dramtica a capacidade de resistncia e tambm de agressividade de nossos 
inimigos... O caso se passou logo que aqui cheguei, cheio de iluses e virgindades, convencido, apesar de toda a preparao especial a que fui submetido, de que 
estvamos envolvidos numa guerra ortodoxa. Eu comandava uma operao de limpeza. Liquidmos alguns focos de resistncia isolados e por fim chegmos ao ltimo, que 
respondeu por algum tempo ao nosso fogo mas acabou emudecendo, porque todos os seus guerrilheiros foram mortos.- Soltou uma risadinha de garganta. - Todos, menos 
um. Vimos erguer-se de dentro de um buraco primeiro um pau com um farrapo branco na ponta e depois o vulto do guerrilheiro que o empunhava. Era amarelo e enfezado, 
pouco mais que um menino. Estava descalo, sem camisa, as vergonhas cobertas por uma espcie de tanga de pano preto. Gritei-lhe que desse cinco passos  frente, 
de braos erguidos. O homenzinho obedeceu. Por precauo ordenei-lhe que tirasse as calas. Ele se acocorou, livrou-se da tanga, tornou a erguer-se e l ficou completamente 
nu, de braos para o ar... No tinha nenhuma arma de fogo ou faca visvel. Mesmo assim dois de meus soldados aproximaram-se com cautela, de metralhadora em punho... 
Estavam a trs passos dele quando vi um claro seguido de uma exploso. Os meus dois homens caram feridos, e o nativo ficou em frangalhos...
   O major fez uma pausa teatral.         
   - Mais tarde, examinando-lhe o cadver, descobrimos o que havia acontecido. O guerrilheiro tinha escondida entre as coxas, debaixo dos escrotos, uma granada de 
mo da qual retirara o pino...
   - Fanticos! - exclamou o coronel. - Um dia assisti involuntria mente a um desses... aaa... suicdios rituais. Eu estava numa calada, no centro da cidade, quando 
vi um bonzo sentar-se no meio da rua, com as pernas cruzadas, derramar sobre a cabea e o corpo o contedo de uma lata de gasolina e acender um fsforo... Foi tudo 
to rpido, que no pude sequer fazer um movimento para impedir a consumao da loucura. O sacerdote ardeu como uma tocha, sem soltar um ai. Depois ficou l cado 
sobre o asfalto, como uma escultura de madeira carbonizada. Esta manh matou-se de idntica maneira uma estudante budista, uma criana... Quem  que pode compreender 
esses brbaros? 
   O major acomodou melhor as ndegas na cadeira e disse:
   - Isso me faz lembrar uma das cenas mais impressionantes da minha infncia. Na minha cidade natal, um dia uns dez ou doze brancos pegaram um negro, amarraram-lhe 
braos e pernas e o jogaram numa fogueira cuidadosamente preparada num terreno baldio. Eu, que vinha voltando do colgio, assisti  cena, entre horrorizado e fascinado 
- talvez motivado por essa curiosidade inocentemente perversa da criana. Ora, o negro, que no era bonzo nem queria suicidar-se ritualmente, soltava urros de desespero 
e dor. Quando a polcia apareceu, com um atraso muito suspeito, o preto j estava morto, horrivelmente queimado. Lembro-me de que algum me explicou que o homem 
de cor fora castigado por ter "atacado sexualmente" (jamais esqueci a expresso) uma mulher branca. Eu devia ter uns nove ou dez anos... Outra frase ligada a esse 
episdio que me ficou gravada na memria, foi a que o dono de um bar das vizinhanas pronunciou rindo para uma senhora que, como ele, assistira  imolao. "j reparou 
como  desagradvel o cheiro de carne de bode assada?" E sabe de uma coisa? Desde esse dia passei a Ter repugnncia por carne de carneiro... at hoje.
   - Com que propsito o senhor me conta toda essa histria?
   - Por analogia, mera analogia.
   O comandante olhou para o seu subordinado - num silncio meio hostil. Depois, como para desviar a conversa dos problemas da sua prpria terra, murmurou:
   - A populao deste pas parece feita de um outro estofo...
   - Nem todos, coronel. Entre os nativos existe muita gente que se porta  melhor maneira ocidental, quero dizer, com esprito pragmtico. Refiro-me aos polticos 
e militares que engordam  custa da misria deste povo e... porque no dizer?... da nossa "generosidade" de aliados. Enriquecem explorando o mercado negro, a prostituio 
e o trfico de entorpecentes. Entre eles h alguns que ostentam at estrelas de general, pessoas aparentemente respeitveis para as quais tanto eu como o senhor 
fazemos continncia...
   - Sejamos realistas, major. Esta  a hora de combater e no de discutir problemas de tica. Bons ou maus, esses homens so nossos aliados.
   - Desgraadamente.
   - Devo inferir que o senhor preferia que estivssemos ajudando o outro lado?
   - Est claro que no. No creio que o comunismo seja necessariamente a alternativa...
   - Alm do mais, como soldados no nos compete criticar as decises de nosso Governo, mas lutar, isso sim, lutar da melhor maneira possvel para ganhar esta guerra.
   O major fitou no outro os olhos exorbitados.
   - jamais imaginei - reflectiu - que essa flor pudesse vicejar no solo da minha terra: o militar perfeito, o homem para quem a farda se transformou numa segunda 
pele natural.
   - Ganhar a guerra? - perguntou, embora achando que seria mais prudente encerrar ali a discusso. O farisasmo daquele coronel calvinista era uma capa vermelha 
capaz de assanhar at o manso touro que modorrava dentro dele. - Para qu?
   - O senhor sabe muito bem qual  a resposta. Para deter a marcha do comunismo e instaurar a democracia nesta parte da sia.
   - Eu quisera que o problema fosse simples assim... - resmungou o major. - No creio que esta guerra represente uma pura confrontao entre comunismo e democracia.
   - Repito que, como soldados, nos compete apenas lutar at  vitria final! - exclamou o comandante com a veemncia de quem d uma ordem.
   O homem gordo remexeu-se na cadeira, fazendo-se a si mesmo vrias perguntas. Que bicho estaria roendo as entranhas daquela criatura? O calor? O peso da responsabilidade 
de governar uma cidade enigmtica minada de inimigos? A canseira, a falta de sono? Ali estava um indivduo contrado fsica e psicologicamente.
   Por algum tempo ficou a examinar o outro. O coronel era alto e de uma magreza atltica e elstica de quadris estreitos e ombros largos. Os cabelos, de um curioso 
louro-esverdeado e cortados rentes ao crnio, iam muito bem com o tom do uniforme, e eram na cor parentes prximos dos olhos metlicos, de ris pontilhadas de ouro 
- o que lhe dava um vago ar de felino. Seus traos, principalmente a testa, o nariz e a linha dos maxilares, eram vigorosos. A fraqueza daquele rosto estava na boca, 
de lbios demasiado finos e descorados.
   - No me interprete mal, major. No pense que gosto desta guerra em que, bem ou mal, estamos envolvidos.  demasiadamente fluida e informe para o meu temperamento.
   Pousou por um instante a longa mo sobre a nuca. Depois prosseguiu:
   - s vezes chego a sentir at uma certa nostalgia da outra guerra, a grande. - Ficou um instante a olhar para o tecto, como a falar sozinho, num transe. - Servi 
na frica.  evidente que o deserto era um inferno durante o dia, e o sol s vezes quase nos levava  loucura... Aqueles ventos quentes pareciam soprados pela boca 
do Inferno, e a areia que levantavam era uma lixa que raspava os nossos nervos. Mas as noites eram frescas, frias mesmo, e caam como um blsamo sobre nossas canseiras 
e queimaduras. Podamos ver as estrelas no cu limpo. E no havia l essa maldita vegetao tropical, nem mosquitos, nem lama... E, acima de tudo (isso era o mais 
importante!), podamos ver a cara do inimigo. Era tanque contra tanque, homem contra homem, quase como nas lias entre cavalheiros da antiguidade. A natureza mesma 
do terreno no permitia a emboscada. No entanto aqui estamos atolados numa guerra traioeira, a prestaes, quase impessoal, em que combatemos ratazanas que vivem 
em cavernas e galerias subterrneas... Ser alvejado e no poder s vezes responder ao fogo  uma coisa que me pe furioso.  uma guerra to suja, esta, que nem sequer 
inspirou ainda uma cano.         
   Por um momento o major ouviu apenas o rudo da voz do outro, pois estava pensando em sua casa. Como o "seu problema" parecia ridculo visto daquela distncia 
no tempo e no espao! Que pensaria o bravo guerreiro se ele lhe contasse a sua histria, as suas dificuldades, o seu draminha domstico? Poderia fazer isso em poucos 
minutos, sem modular a voz, sem teatralizar nada... "Sabe de uma coisa, coronel?" - imaginou-se a dizer - "s vezes chego a pensar que esta campanha srdida, langanhenta 
e absurda,  menos irritante do que a que tive de sustentar em minha prpria casa antes de vir para c. Porqu? Ora... este homem gordo e aparentemente plcido que 
vossa excelncia tem diante dos olhos foi psicologicamente castrado por uma me egosta e dominadora que conseguiu arruinar o seu casamento. Sim, minha mulher pediu 
divrcio porque no podia aturar as intrigas e a presena da sogra um minuto mais. j imaginou o que  uma dama de sessenta e trs anos, viva e motivada pela conscincia 
de que nada  suficientemente bom para o seu filhinho nico e querido? Recusei o divrcio. No s porque sou catlico (mau catlico, por sinal) mas tambm porque 
afinal de contas amava e ainda amo a minha mulher e os nossos filhos, que ela levou consigo. Sim, porque a separao se efectivou. No dia em que minha esposa abandonou 
a casa, "mame" proclamou intimamente feriado nacional. Quis depois que eu processasse a "outra" por abandono de domiclio, e exigisse para mim a custdia das crianas. 
Neguei-me. A velha por fim se conformou. Porque o que ela queria mesmo era ficar com o filhinho. Palavra, coronel, houve uma hora em que tive medo de odiar minha 
prpria me. (E no estou certo de que no a odeie... ) Achei mais fcil odiar-me a mim mesmo. Como vingana (contra quem, no sei ao certo) passei a chafurdar. 
Mulheres, lcool, comidas, tudo em exagero. Corri o risco de ser desligado do Exrcito. Depois... me mandaram para c. No foi uma soluo, reconheo, mas uma trgua. 
E aqui estou. Minha extremosa me usou de toda a sua influncia de viva de um senador para evitar que enviassem o seu filhinho para a "guerra suja", embora ache, 
como tantas outras mes, quando se trata dos filhos alheios, que  aqui que esto as fronteiras da democracia que nossos bravos rapazes devem defender a qualquer 
preo. Pronto, coronel! Agora me conte a sua histria."
   O comandante apontou para a janela e disse:
   - j pensou, major, que neste exacto momento, a despeito de toda nossa vigilncia,  possvel que um desses magricelas comedores de arroz esteja escondido, empoleirado 
numa dessas rvores, e com um tiro possa matar o meu melhor oficial?
   Uma expresso gaiata animou o rosto do major.         
   - Coronel, no creio que por "meu melhor oficial" o senhor tenha querido referir-se a mim. Longe disso! Mas j pensei, sim. Algum um dia me alvejou do alto de 
um pagode. Errou o alvo por milmetros... Meu anjo-da-guarda sorriu... E agora estou casualmente na linha de mira do seu guerrilheiro hipottico.
   Como se no tivesse ouvido a observao humorstica, o coronel contou:
   - Um dia destes vi um de nossos fuzileiros, um rapago louro de quase dois metros de altura, com uma cara de guerreiro nrdico, ao lado de um bandoleiro comunista, 
um rato amarelo e raqutico, um sub-homem. O contraste era ridculo. E dizer-se que esses macacos ousam enfrentar a maior potncia militar e econmica que o mundo 
j conheceu!
   - No entanto - murmurou o major, pachorrento - devemos reconhecer honestamente que no estamos ganhando a guerra...
   - Ora, nossos reveses e dificuldades so apenas temporrios. Dem-nos mais tropas, avies, helicpteros, carros de assalto... e havemos de liquidar o inimigo. 
E que nos seja principalmente permitido atacar o foco da infeco, esmagar a cabea do drago. Temos de cortar o mal pela raiz. E a raiz est aqui!
   Aproximou-se de um dos mapas e encostou o indicador num ponto. Era a Capital da parte norte daquele pas dividido.
   - Derrotar o inimigo com estes aliados que temos? - perguntou o major, erguendo-se e batendo o bojo do cachimbo contra a sola de uma das botas, por cima da cesta 
de papis. - O senhor sabe, excepo feita a algumas unidades de elite, as tropas nacionais lutam mal, sem coragem, convico ou competncia. E ainda por cima so 
desonestas. Roubam e maltratam os habitantes das aldeias amigas que so confiadas  sua guarda.
   Estava agora ao lado de seu superior, olhando tambm para o mapa, em que a rota de municiamento era representada por uma linha vermelha, longa e sinuosa.
   - H muito que estou certo de que teremos de fazer este servio sozinhos - disse o coronel, fazendo com as mos um gesto que abrangia no s o mapa daquele pas 
como os das naes vizinhas. - Nossas munies so trazidas para c em grandes navios ou avies, com abundncia e na maior segurana.  fantstico pensar que cada 
dois tiros de morteiro que o inimigo dispara contra ns depende de um homem dessa incrvel linha de municiadores que, s centenas ou milhares, vm do Norte e, muitos 
deles descalos e seminus, percorrem mais de mil quilmetros de terreno acidentado... montanhas, selvas, pantanais, abismos... Como as formigas, cada um desses sujeitinhos 
parece capaz de carregar um peso maior que o do prprio corpo... Trazem as suas raes de arroz, bebem a gua que encontram pelo caminho, pura ou impura... s vezes 
so mordidos por cobras, escorpies, aranhas... atacados por feras... ou se esvaem em disenterias sangrentas... isso para no falar no fogo eventual de nossos avies... 
Essa marcha trgica dura trs meses! No  espantoso? Muitos morrem no caminho. Mas a maioria entrega a carga. - Voltou-se para o major. - Agora, me diga, que  
que move essa gente?
   - Talvez o amor  sua terra. Ou o dio ao branco.
   - Ser que no compreendem que podemos e queremos ajud-los?
   - No estou muito certo de que eles desejem a espcie de salvao que lhes oferecemos...
   - Voc fala como um desses polticos chamados "liberais" que no aprovam nossa interveno nesta guerra.
   - s vezes penso que no devia ter seguido a carreira das armas, que talvez me tivesse sido melhor entrar na poltica como meu pai, e como meu av antes dele. 
Se isso tivesse acontecido, possivelmente eu seria hoje um desses senadores do Sul, com um chapelo de vaqueiro na cabea, e estaria no Congresso, fazendo discursos 
pomposos e vazios...
   O coronel voltou a cabea.         
   - O que no compreendo, major,  como no fim de um dia pesado e mormacento como este o senhor ainda possa conservar o seu bom humor.
   O major pensou na me. Ouviu com a memria sua voz bem-educada mas cida. "Sua mulher gasta de mais. Vestidos, jias, sapatos. Um carro novo de dois em dois anos. 
Um militar no  um milionrio. Reaja, meu filho. O que perde voc  esse excesso de condescendncia."
   Naquele momento entrou um dos ajudantes-de-ordens do coronel.
   - Deseja alguma coisa, comandante?
   - Nada, obrigado. Diga ao pessoal que pode ir. Ficarei ainda mais alguns minutos. Os papis esto todos assinados. Estarei no meu hotel das oito em diante. Se 
surgir alguma emergncia, pode me chamar.
   - Perfeitamente, senhor.
   O ajudante-de-ordens apanhou os papis de cima da mesa e, antes de retirar-se, acendeu a lmpada.
   O major piscou. A esposa acendera a luz. Fazia algum tempo que ele estava deitado ao lado dela, no quarto em penumbra, tentando excit-la para o acto do amor. 
Ela se encolhia, negando-se. Alegara a velha desculpa: enxaqueca. Mas ele conhecia a verdadeira razo da recusa. E agora, a lmpada acesa, ela estava sentada na 
cama, de braos cruzados. Mesmo sem um pingo de pintura no rosto, era uma mulher atraente... "Por favor..." - murmurou ele, pousando a mo no joelho dela. Ela encolheu 
as pernas, enlaou-as com ambos os braos, pousou o queixo entre os joelhos e ali ficou, como entrincheirada. "No insistas por favor. No podemos continuar a farsa. 
Tua me conseguiu te transformar por completo. Pensas que no sinto a mudana?" - "Tolice, meu bem. Eu ainda te quero como no primeiro dia."
   "Seria mais exacto se dissesses que me desejas. Ou ser que no conheces a outra espcie de amor... o que no se alimenta s... dessas coisas?"
   "No me digas que consideras sujo o amor fsico."
   "Se me buscas levado unicamente por um impulso animal, acho."
   "Mas eu te amo!"
   "Tu amas a tua me. E que se pode esperar de uma me que conserva intacto o quarto de solteiro de seu filho casado h dez anos, na esperana ainda de que ele 
volte um dia para casa?"
   As imagens do passado apagaram-se. O major agora prestava ateno s palavras do homem que tinha a seu lado, e que dizia:         
   -... por exemplo, essas contendas religiosas... s vezes passo pela frente das runas do Centro Cultural e meu sangue ferve... Voc ainda no estava aqui. Foi 
h trs anos, durante a primeira revolta dos budistas. Uma multido de fanticos enfurecidos atacou e incendiou o Centro, destruindo no s vidas humanas como tambm 
os dez mil e tantos livros que nosso Governo havia doado  sua biblioteca. Isso tem algum sentido?
   - Bom, talvez como catlico eu esteja em melhores condies que o senhor para compreender essa gente e seus motivos, mesmo os absurdos e aparentemente inexplicveis...
   O coronel dardejou para o major um olhar quase rancoroso.        
   - Porque o catlico haver de compreender melhor os Asiticos? Por ser mais arejado que o protestante? Embora considere de mau gosto discutir assuntos religiosos, 
devo dizer que a minoria catlica deste pas pode ser tudo, menos tolerante.
   - De acordo.
   - O arcebispo desta cidade  o membro mais velho da famlia  qual pertencia o falecido Presidente. Foi ele um dos responsveis indirectos pela revolta budista. 
Aprovou e apoiou as arbitrariedades e a intolerncia religiosa de seu augusto parente, que invadiu templos e pagodes e prendeu bonzos. Chegou a proibir qualquer 
comemorao no dia do aniversrio de Buda...
   - E o nosso Governo at certo ponto tomou o partido dos budistas, dando aos generais deste pas a luz verde que eles esperavam para depor seu Presidente.
   - Para dep-lo sim, mas no para assassin-lo.
   - Seja como for, de que serviu o sacrifcio desse homem e a mudana de Governo? Depois disso, sete ou oito gabinetes foram constitudos e derrubados. E tivemos 
agora essa outra revolta budista, mais sria que a primeira, quase causando entre as foras do Sul uma subdiviso que s poderia servir aos comunistas...
   O coronel apanhou o jarro, levou-o  boca e bebeu o ch, j morno, que nele restava. - Tudo isso  uma confuso dos diabos!
   - Bom, coronel, o pior j passou. E dentro de um par de dias o senhor delegar a um general nativo a ingrata tarefa de preservar a paz e a ordem nesta cidade...
   - Sim, mas que me diz dessas exploses? Meu orgulho de militar e de homem exige que, com a cidade, eu entregue s autoridades do Sul os bandidos que plantaram 
as bombas!
   - O senhor parece sentir esses actos de terrorismo como um ataque  sua pessoa, no?
   O coronel fitou nele o duro olhar esverdeado.         
   - Sem dvida, major, sem a menor dvida!
   A luz do poente dava  fachada do Htel du Vieux Monde, ali no centro da cidade,  margem direita do rio, umas tintas alaranjadas, laminando de ouro as vidraas 
de suas janelas. Era um prdio cor de osso, de aspecto um tanto pesado. Tinha seis andares e uma porte cochre com um fronto grego,  entrada principal. O tempo 
e a intemprie haviam reduzido a uma plida tonalidade de jade as venezianas, outrora vivamente verdes, de suas duzentas e cinquenta janelas. Na sacada central, 
no segundo piso, haviam j tremulado as bandeiras de trs naes conquistadoras. Agora uma quarta, a dos aliados de alm-mar, ali estava, to enrolada, murcha e 
imvel no ar estagnado, que parecia a meio pau, como em homenagem a algum morto ilustre.
   O saguo, no rs-do-cho, era amplo, bem fenestrado, e decorado de maneira to incaracterstica e neutra, que poltronas, sofs, mesas, consolos, tapetes e quadros 
pareciam sumir-se mimticamente no ambiente. Avultavam, porm, aqui e ali, as grandes escarradeiras e cinzeiros de lato, e folhagens que cresciam com agressiva 
exuberncia em potes de barro, aos cantos. A planta que mais despertava a curiosidade dos estrangeiros, como um smbolo daquela terra misteriosa e brbara, era a 
que, quando no escuro, luzia com uma verde fosforescncia fantasmal.
   Pendentes do tecto por longas hastes, quatro grandes ventiladores de tipo antigo, desses dotados de ps semelhantes a hlices de aeroplano, moviam-se sonolentos. 
O hotel era servido por quatro elevadores, pequenas gaiolas de ferro negro trabalhado  melhor maneira da belle poque, e que subiam e desciam, macios mas ronceiros. 
Comeava ali no saguo a grande escadaria de mrmore que levava ao primeiro andar, onde ficavam as salas de visita, o salo de festas e o bar. Entre 1910 e 1930 
ali costumava reunir-se  tardinha e  noite a escassa colnia europeia da cidade, numa busca de convvio e divertimento, isolada que vivia da sociedade local, exclusivista, 
impenetrvel e olmpica, em que havia descendentes de antigos imperadores a mandarins. Naqueles sales jogava-se, danava-se, nasciam e espalhavam-se potins. Sob 
aqueles tectos comeara muito namoro que mais tarde, nos prprios quartos do hotel, se fazia adultrio. Uma dessas salas era famosa por conter a reproduo em tamanho 
natural do quadro A Coroao, de David, que ainda l estava, j a pedir restaurao, pois durante a Guerra de Independncia, em 1954, uma bala perdida perfurara 
a testa da imagem do Imperador. Estava situado tambm nesse segundo andar o bar apainelado de nogueira, cuja especialidade, muito apreciada nos primeiros anos do 
sculo, era uma bebida conhecida pelo nome de arco-ris, e que consistia de vrias camadas de licor, cada qual de cor diferente, e que o verdadeiro "conhecedor" 
devia beber, uma a uma, sem mistur-las. Nas noites de sbado, durante muitos anos, no salo de festas, um trio de homens desbotados e tristes, com jeito de nufragos 
- piano, violino e violoncelo -, tocava melodias de peras e operetas.
   Havia menos de um ano o Exrcito da potncia aliada de alm-mar requisitara ao Governo local o Htel du Vieux Monde para nele instalar seus oficiais solteiros 
e os casados que para ali tinham vindo sem suas esposas. O prdio, agora conhecido pela sigla A. O. S., era administrado por oficiais da Independncia do Exrcito 
estrangeiro. O maitre e o chef europeus haviam sido conservados, bem como grande nmero de camareiros e camareiras nativos, depois de submetidos a rigorosa investigao. 
Uma das primeiras iniciativas da administrao militar foi a de colocar, no foyer, vendedores automticos de cigarros, bebidas no-alcolicas e goma-de-mascar. Dizia-se 
que em breve o edifcio seria dotado de uma instalao de ar condicionado.
    porta principal, guardas armados exigiam de quem entrava, mesmo dos militares, seus papis de identidade. E os civis eram sempre cuidadosamente revistados.
   Naquele fim de dia o porteiro do turno da noite como de costume entrou no hotel poucos segundos antes das sete horas. Depois de trocar algumas palavras com o 
colega que ia render, postou-se atrs do balco da portaria.
   Era um nativo de idade avanada, baixo, seco e encurvado. Tinha a cabea completamente raspada e o pergaminho da pele to esticado sobre a ossatura do rosto, 
que parecia uma mmia viva, no fundo de cujas rbitas se houvessem enxertado os olhos lustrosos e limpos de um homem de trinta anos. Seus lbios, de um vermelho-arroxeado 
de carne em processo de putrefaco, abriam-se com uma regularidade automtica toda vez que um homem branco por ele passava ou lhe dirigia a palavra. Mesureiro e 
servial, era muito popular entre os oficiais estrangeiros. "Vov, onde se come bem nesta terra?" E l estava o porteiro com o dedo nodoso a correr sobre uma planta 
da cidade, mostrando onde ficavam os restaurantes que podia recomendar. "Escuta aqui, meu velho, onde  que vou encontrar uma rapariga bonita e limpa que queira 
consolar por uma noite um soldado solitrio?" E o porteiro, mostrando a dentadura que se lhe movia, mal-ajustada, na boca quase informe, tirava do bolso a sua cadernetinha 
de capa vermelha, punha-se a folhe-la, e ia recitando os nmeros de telefone com a descrio da rapariga correspondente a cada endereo. Trocava os erres pelos 
eles e sua voz tinha o diapaso de uma cornetinha de brinquedo. Entendia e falava,  sua maneira, pelo menos dois idiomas estrangeiros, alm de conhecer bem vrios 
dialectos de sua prpria terra. Cultivava a Astrologia e a Geomancia, e dizia-se senhor de qualidades medinicas excepcionais. Era frequentemente chamado  cabeceira 
de doentes moribundos: acendia um feixe de hastes de incenso, caa em transe e esperava que os espritos de seus ancestrais lhe inspirassem a medicao salvadora.
   O porteiro nocturno comeou a manusear os cartes que o colega havia posto sobre o balco. Eram as fichas dos oficiais que deviam deixar o hotel nas prximas 
vinte e quatro horas.
   Ele comeava a conhecer pouco a pouco, distinguindo uns dos outros, aqueles soldados estrangeiros, embora achasse que todos eles tinham mais ou menos a mesma 
cara. Via o ocupante do quarto nmero 314 ali no saguo, sentado numa poltrona, lendo um jornal. O ruivo que metia uma moeda na fenda da mquina de cigarros? O capito 
do 330.
   Ah! Agora entrava o coronel, os guardas  porta perfilavam-se e faziam-lhe continncia. O porteiro apanhou a chave do apartamento do comandante e entregou-a, 
sorrindo, ao militar, que a apanhou distrado.
   - Posso servi-lo em alguma coisa, meu coronel?
   O outro sacudiu negativamente a cabea e encaminhou-se para o elevador. O nativo seguiu-o com o olhar. O homem branco lhe parecia cada vez mais desfigurado: os 
vincos do rosto se lhe haviam acentuado naqueles ltimos dias. Alguma doena do corpo ou do esprito decerto o devorava aos poucos.
   Tornou a apanhar as fichas. Deteve-se a examinar a do tenente do 435. Trinta anos. Guerra psicolgica. Diferente de todos os outros: pele trigueira, cabelos escuros 
e lisos. Sangue africano? Provavelmente. Seu jeito retrado e o modo como os companheiros o tratavam parecia sugerir isso. Tudo indicava que o tenente era outro 
que chegava ao extremo de sua capacidade de resistncia. Fosse como fosse, seu tempo de servio havia terminado e ele estava vivo e inteiro... pelo menos de corpo. 
Dentro de pouco mais de vinte e quatro horas estaria em sua terra natal com a famlia. Era melhor voltar para casa sentado vivo num avio de passageiros do que morto 
dentro de um caixo coberto pela bandeira da ptria. Rapaz de sorte!
   Virou e revirou a ficha do tenente, leu e releu a data de seu nascimento, franziu a testa, cerrou os olhos e por alguns segundos concentrou-se em clculos astrolgicos. 
O 435 tinha nascido no ano do bfalo... Mau, mau. "O dia de amanh no lhe ser nada auspicioso" - murmurou para si mesmo. Seria um risco enorme para o tenente fazer 
uma viagem area transcontinental. Devia adverti-lo do perigo?
   Ficou em dvida, batendo distrado com o carto na unha do polegar da mo esquerda. Depois deixou cair a ficha sobre o balco e aproximou-se do barmetro, que 
se achava junto da porta do refeitrio. A coluna de mercrio estava quase a passar do nmero 38.
   O tenente do 435 olhava obsessivamente para o ventilador que pendia do centro do tecto de seu quarto, mas aquelas ps, que giravam num ritmo regular e hipntico, 
nada mais eram que um reflexo em suas pupilas imveis, sombra de uma sombra na sua mente, onde agora uma rapariga sentada no meio de um jardim ardia como uma tocha.
   Fazia algum tempo que estava deitado em sua cama, completamente despido, tentando vencer o torpor que o colava aos lenis molhados no s do suor de seu prprio 
corpo como tambm da humidade que descia com a noite e entrava pela janela com os rudos da rua. Precisava levantar-se, tomar um banho, vestir-se... Tinha convidado 
sua amiga, a professora, para jantar. "No Oiseau de Paradis, s sete e meia" - haviam combinado. Depois ele iria despedir-se de K. na casa de rendez-vouz onde, durante 
aqueles ltimos seis meses.. costumava passar uma hora com ela, duas vezes por semana. No entanto ali estava paralisado, como nesses pesadelos em que o pensamento 
se conserva lcido - talvez lcido de mais, a ponto de doer como um estilete gelado nos miolos - mas o corpo recusa obedecer s ordens do crebro. Tinha a mo esquerda 
espalmada sobre o peito, e entre a pele de ambos sentia formar-se uma camada viscosa de suor. Quis ergu-la para ver a hora no relgio-pulseira, mas o brao permaneceu 
inerte, como se pertencesse a outra pessoa. Sentia ao longo dos dedos, por entre as costelas, o pulsar acelerado do corao. Que se passava com ele? Estaria doente? 
O mdico que lhe fizera um exame geral na vspera, assegurara que tudo estava perfeitamente bem. Electrocardiograma excelente. Auscultao torcica satisfatria. 
Reflexos normais... No entanto agora sentia o corpo mais que nunca, principalmente a cabea e o peito, que subia e descia ao ritmo de uma respirao curta e penosa. 
Devia ser o calor, a baixa presso baromtrica, a humidade... Claro, tambm passara o dia pensando na cena de horror que presenciara aquela manh. Cerrou os olhos 
e viu contra a escura prpura das plpebras a estudante budista envolta numa labareda. Aquela imagem lhe voltava com frequncia  mente. Era como se a cada minuto 
a rapariga repetisse dentro dele o brutal sacrifcio.
   Sara de manh cedo para comprar na rua do mercado presentes para a mulher e o filho... e tambm um pequeno anel com uma turquesa para K. Adquirira para o seu 
menino (como ele ia gostar!) um chapu cnico como os que os nativos usavam: podia-se ver contra a luz um poema escrito a nanquim num pequeno pedao de papel metido 
entre duas camadas de bambu. Para a mulher comprara, alm de uma estatueta de terracota, umas calas compridas de seda e um ao-dai azul... Os pacotes que continham 
os presentes para a famlia pesavam-lhe nas mos, mas o pequeno estojo que trazia num dos bolsos do bluso, com o anel, pesava-lhe na conscincia como um remorso. 
Era intil tentar iludir-se. Ele amava K. e isso lhe dava uma certa vergonha. Ela era uma prostituta como centenas de outras que se entregavam a vrios homens por 
noite e "pertenciam" a um proxeneta que as explorava como se elas fossem mquinas. De qualquer modo, no ia ser fcil dizer-lhe adeus, separar-se dela para sempre.
   Perdido nesses pensamentos, entrara na cidadela. Queria ver pela derradeira vez os seus jardins. Ficara por um instante parado diante do pagode de fachada coberta 
de ladrilhos escarlates, apreciando a sua esbelta graa que de certo modo lhe lembrava a figura de K. Foi ento que ouviu um riso de mulher e viu uma estudante sair 
do templo. Era pouco mais que uma menina. Por cima das calas compridas de seda negra, vestia uma tnica branca de gaze, aberta dos lados, da cintura para baixo. 
Os cabelos longos e negros caam-lhe sobre os ombros. Que trazia ela nas mos? Talvez uma bolsa com livros... No. Uma lata. Caminhou at ao centro do passeio, sentou-se 
no cho  maneira oriental, abriu a lata, ergueu-a sobre a cabea e despejou todo o seu contedo lquido sobre os cabelos, os ombros, o torso, os braos e as pernas. 
Ele achou estranho o cerimonial. E quando de sbito compreendeu o que ia acontecer, era tarde de mais. A estudante havia j riscado um fsforo e de seu corpo brotou 
uma labareda, acompanhada de uma exploso opaca, e ela comeou a arder como uma boneca de pano. Ele ficara paralisado de surpresa e horror, querendo mas no podendo 
desviar o olhar daquela tocha humana.
   O tenente conseguiu mover o brao, trazer o pulso  altura dos olhos. No pde, entretanto, ver com clareza a posio dos ponteiros do relgio. Tinha nove anos. 
Era uma noite quente de Agosto. A mariposa esvoaava ao redor da chama da vela. O menino teve a intuio do que ia acontecer, passou-lhe rpida pela cabea a ideia 
de salvar o insecto, mas seus braos no fizeram o gesto coerente com essa inteno. Porqu? De certo modo ele queria ver o espectculo. Olhava siderado para a mariposa, 
desejava que ela se aproximasse mais e mais da chama, e quando isso aconteceu e o insecto se incendiou e caiu ao p do castial, ele sentiu um estranho gozo, que 
era a um tempo dor, pena e remorso.
   O tenente cruzou os braos sobre o peito e ficou a rememorar e analisar, com um prazer que ele prprio achava masoquista, a cena da manh. Poderia ou no ter 
impedido o suicdio? Estava a umas escassas vinte jardas da menina. Talvez lhe tivesse sido possvel intervir... Agora parecia lembrar-se de que o cheiro de gasolina 
lhe chegara s narinas dois ou trs segundos antes da estudante riscar o fsforo... (Ou tudo isso era apenas uma perversidade da memria, para lhe agravar o sentimento 
de culpa?) Mas no seria ele um relapso em matria de egosmo e traies? Era possvel e quase provvel que tivera um conhecimento preconsciente da tragdia.
   Descruzou os braos e soltou um suspiro, impaciente consigo mesmo. As coisas no se tinham passado assim. No havia por que ficar ali a recriminar-se. Rebolcou-se 
na cama, tratou de esquecer a suicida, pensar na mulher, no filho, em K., na sua viagem de volta para casa. Buscou imagens domsticas. Em vo! Lembrava-se agora, 
nauseado, do cheiro de carne assada que se esparzia no ar enquanto o fogo consumia a moa. Havia-se formado ao redor da suicida um crculo de curiosos, homens, mulheres 
e at crianas. Ele sentira, mais que vira, indiferena (ou resignao?) na atitude dos circunstantes. Uma fumaa escura subia do corpo meio carbonizado. O pagode 
tranquilo entre as rvores. O Sol no horizonte, como um enorme fruto vermelho. Os hibiscos floridos. Como era possvel beleza e horror, vida e morte, harmonizarem-se 
assim no mesmo quadro?
   Tornou a mudar de posio na cama. Sentiu o cheiro acre do prprio corpo. A cabea lhe doa agora com mais intensidade. Se ao menos pudesse descobrir um pretexto 
para cancelar aquele jantar... Admirava a professora. Era uma mulher inteligente e corajosa, que mantinha na cidade, por conta prpria, um internato para meninas 
rfs. Revelava ter muitas e boas leituras. Gostava de estar com ela, mas naquele dia no se sentia disposto a conversar com ningum. Nem. talvez consigo mesmo. 
Com K era diferente, pois um no falava a lngua do outro...
   Havia passado a tarde inteira tentando, mas sem conseguir, arrumar as malas. Desde a vspera oprimia-o a premonio de que seriam inteis aqueles preparativos 
porque nas prximas horas ia acontecer-lhe alguma coisa que o impediria de embarcar... No entanto estava satisfeito por haver terminado seu tempo de servio, queria 
livrar-se o quanto antes daquela terra demonaca que lhe atacava os nervos, daquele clima quente e viscoso e, acima de tudo, daquela guerra cruel. Sentia-se sujo, 
por dentro e por fora, sujo das violncias e morticnios que presenciara. s vezes, durante dias, andara com a podrido dos cadveres como que entranhada nas roupas, 
na pele e, pior ainda, na memria,
   De novo imaginou-se diante do pagode, olhando para a mariposa suicida. A menina e o insecto - o ao-dai, as asas - tinham encenado, cada qual  sua maneira, uma 
breve dana macabra. Recordava-se agora (ou estaria fantasiando?) que a estudante sorria enquanto derramava gasolina sobre o delicado corpo, e que continuara a sorrir 
at ao momento de riscar o fsforo, como se tudo aquilo fosse apenas um jogo pueril.
   Pensou num dia em que fora chamado para estabelecer contactos humanos com a populao de uma aldeia que durante semanas estivera em poder do inimigo. Competia-lhe 
reunir os chefes locais, parlamentar com eles, por meio de intrpretes, e convenc-los a colaborar com o Governo do Sul. A caminho dessa povoao o jipe que o conduzia 
fora alvejado por guerrilheiros comunistas atocaiados em rvores, e seus tripulantes obrigados a abandonar o veculo s pressas para procurar abrigo, enquanto seus 
companheiros liquidavam um a um os atiradores solitrios.
   O sargento branco que comandava a operao de limpeza, dissera que havia ainda alguns "macacos amarelos" escondidos numa caverna prxima, e que a soluo mais 
prtica e segura para faz-los vir para fora era "chamusc-los" com um lana-chamas. O tenente lembrava-se dos homens esquelticos e lvidos que tinham sado a correr 
e a urrar da boca da caverna, com os corpos incendiados, e se atiravam no cho, rolavam na relva, tentando apagar o fogo que lhes devorava as carnes...
   E agora ele tinha em mente essas tochas vivas, o pagode vermelho, as rvores, o Sol como uma queimadura no cu, a estudante budista, a mariposa... e de sbito 
era menino e espiava, por uma fresta de janela, o jardim de sua casa, onde ardia sobre a relva uma grande cruz de fogo. Vultos brancos com altos capuzes cnicos 
moviam-se como espectros por entre as rvores. Seu corao batia descompassado. Tinha ouvido falar naquela sociedade secreta que perseguia os homens de cor. Conhecia 
histrias de arrepiar. Costumavam despir os negros, besuntar-lhes os corpos de alcatro e depois faz-los rolar sobre um monte de penas de aves. Sabia de outros 
casos ainda mais terrveis: linchamentos, torturas, enforcamentos... A cruz de fogo no jardim... "Venha, meu filho, no  nada. Estamos acostumados a essas coisas." 
Ele se deixara levar pela mo, trmulo. "Eles vo queimar a nossa casa, mame?" Ela sorria, triste. "No. S querem nos assustar. Venha dormir. Reze e pea a Deus 
que no permita que esses homens nos odeiem tanto."
   Mais tarde ele compreendera o sentido da cruz de fogo. Era uma advertncia, um sinal de protesto, porque naquela casa vivia uma mulher branca casada com um homem 
de cor. Sim, essa era a dura realidade. Sua me era branca pura e seu pai, um negro. O casal provocava escndalo aonde quer que fosse. Os brancos no suportavam 
aquela situao. E os pretos nunca chegaram a aceitar completamente em seu meio aquela mulher de pele clara e olhos azuis. Era por isso que eles viviam duplamente 
segregados a mudar-se de uma cidade para outra, como ciganos...
   Agora o tenente tinha no pensamento a figura nocturna do pai: um homem grande e triste, de olhar doce, voz penugenta, alto mas de costas um pouco encurvadas. 
Era um grande estudioso da Bblia. s vezes o pastor da congregao negra convidava-o para falar na Escola Dominical. Marceneiro de profisso, parecia trabalhar 
a madeira com amor. Sua oficina recendia a uma mescla de serragem e suor humano. E como era repulsivo aquele cheiro!
   O tenente limpou o suor do rosto com a ponta do lenol. Devia ter catorze anos quando descobrira que no s se envergonhava do pai como tambm no o amava como 
devia. Mesmo agora, passados tantos anos, no, lograva evocar com ternura os tempos em que, nos domingos, ele e o velho saam a andar pelo meio de um parque. Lembrava-se 
de certa manh de Outubro. O Outono tinha incendiado as folhas dos bordos, e os esquilos, activos, faziam provises de nozes para o Inverno... Seu pai lhe ia ensinando 
o nome popular e o cientfico dos pssaros e plantas que encontravam pelo caminho. A lembrana mais ntida que lhe ficara daqueles passeios, entretanto, fora a sua 
sensao de constrangimento, que vinha da simples presena a seu lado daquele corpo grande e escuro, o contacto daquela mo preta, de palmas rosadas... Sentia uma 
fria vergonha quando pensava em que sua me, uma mulher branca, uma professora, se havia casado com aquele homem de cor e dormia a seu lado, na mesma cama... j 
adolescente, muitas vezes ficara a pensar naquela estranha unio. Sabia que a me no s tivera de romper com sua famlia - que se opusera indignadamente ao casamento 
- como tambm com todos os seus amigos, o seu passado, em suma, com o mundo dos brancos. Mas o que ele, filho, no compreendia muito claro era a natureza daquela 
poderosa paixo. Reconhecia que o pai no era um homem feio. Dizia-se que tinha bons conhecimentos gerais e era um excelente marceneiro. Mas o que devia ter havido 
da parte de sua me - reconhecia ele, s vezes, com relutncia - era uma incontida atraco carnal por aquele homem de pele parda, e isso a diminua a seus olhos, 
como se ela fosse uma espcie de prostituta. Reagia contra essa ideia perturbadora, mas nem por isso conseguia acomodar-se  situao, que sempre fora para ele uma 
ferida crnica aberta, um foco infeccioso... Porque queria desesperadamente ser branco! Podia passar por branco! Tinha a pele morena, herdara as feies delicadas 
da me. Muitas vezes ficava diante do espelho, angustiado, temendo descobrir na cara algum trao negride.         
   Tornou a remexer-se na cama. Nos seus pensamentos a estudante de novo ergueu a lata acima da cabea, como a derramar leo perfumado sobre os cabelos. Sim, tinha 
sido uma dana ritual. Talvez ele no tivesse mesmo querido saber o que ela ia fazer... Podia ter salvo a rapariga. Correr para ela, arrebatar-lhe das mos a lata 
de gasolina... Pensando melhor, lembrava-se agora de que ela trazia duas latas. Primeiro esvaziou uma, depois a outra... Sim, eram duas! Se eram duas, ele teria 
tido mais tempo para compreender o que ia acontecer. (Mas a rapariga talvez recusasse a sua salvao.) Outras pessoas andavam pelas proximidades. Algumas delas pelo 
menos deviam ter percebido o que se passava, e nenhuma fez o menor gesto de interferncia. Porque foi que a criatura se imolou? Um acto de protesto contra o Governo? 
Mas que pode uma menina de dezassete anos entender de poltica? Um ser humano que faz uma coisa daquelas estar no seu juzo perfeito? Mas quem  que est no seu 
juzo perfeito? Estarei eu?
   Fosse como fosse, agora de nada servia fazer-se essas perguntas. E de novo o tenente olhou fixamente para as ps do ventilador... as rodas de um vapor cujo apito 
tocava velhas melodias do Sul... Era na pequena cidade  beira do grande rio, no ar o odor de melao e gua. Eles viviam no gueto negro. O barco aproximava-se do 
trapiche de madeira, ia atracar. A moa de vestido azul debruada na amurada olhou para ele e gritou: "Voc a, menino! Tome." Atirou-lhe um nquel que caiu sobre 
as pranchas do trapiche sobre o qual se amontoavam balas de algodo, e l ficou luzindo ao sol da manh. Ele, porm, dominou o impulso de correr para apanhar o dinheiro 
(pipocas, pralinas, sorvetes). Os viajantes brancos costumavam atirar nqueis sobre o cais para verem os meninos negros atracarem-se aos gritos, na disputa das moedas. 
Mas ele no queria ser negro, ele no era negro. Sua me era branca e tinha os cabelos claros, como a moa de azul. "Voc! Pegue o nquel!  seu!" No havia nenhum 
outro menino nos arredores. Ele voltou a face para outro lado, as orelhas em fogo, comeou a assobiar, disfarando, e se foi... Ficou depois espiando o navio que 
se afastava do cais e se ia, rio em fora, a mancha azul ainda junto da amurada.
   Do alto da colina do cemitrio onde seu pai estava enterrado, avistava-se o rio por entre os troncos dos sicmoros e das magnlias. O tenente pensava agora na 
pequena sepultura, imagem ligada a factos e sentimentos que queria esquecer para sempre. Pulou da cama, como galvanizado, e ps-se a caminhar de um lado para outro, 
procurando fugir do prprio passado.
   Intil! Intil! Jamais poderia esquecer que tinha trado e negado o pai muitas vezes. Era uma ignomnia - reconhecia ele. E seus pensamentos o levaram a um dos 
dias mais dramticos de sua adolescncia. Espalhara-se pela manh a notcia, confirmada pelos jornais da tarde, que um negro havia assaltado, roubado e ferido um 
branco, sem que a polcia tivesse conseguido ainda captur-lo. Ento vrios grupos de brancos armados de porretes e soqueiras haviam sado pelas ruas do bairro negro 
numa expedio punitiva indiscriminada. Ele teria uns dezassete anos e caminhava cabisbaixo numa calada, ao lado do pai, quando viu surgir-lhes pela frente trs 
homens brancos de grande estatura. Ouviu-se uma voz: "Agarra o negro!" Ele fez meia volta e deitou a correr em pnico deixando o pai para trs. Sentiu uma pedra 
passar-lhe rente  orelha... Fez alto  primeira esquina, voltou a cabea e verificou, aliviado, que ningum o seguia. Mas avistou os trs desconhecidos esbordoando 
e espezinhando seu pai que, cado no cho, encolhia-se e protegia a cabea com as mos... 
   Mesmo agora, s de pensar nesse seu acto de covardia o tenente sentia um mal-estar quase to intenso como o que o atormentara naquela tarde do passado, em que 
andara a vaguear sem rumo pelos arredores da cidade. S ao anoitecer, quando a paz voltara ao bairro negro, graas  interveno da polcia,  que decidiu voltar 
para casa. Sem coragem de entrar, ficou a rondar pelas vizinhanas, mas o vento frio, mais forte que sua vergonha, impeliu sua mo que bateu na porta paterna. Ao 
v-lo, a me soltou uma exclamao e rompeu a chorar. "Meu filho! Meu filho!" Imaginava que o tivessem linchado. Apalpava-lhe o corpo, fazia-lhe perguntas aflitas. 
No estava ferido? Onde tinha passado todas aquelas horas? Estava com fome? Ah! Que geladas, as suas faces! Ele tentara resmungar uma explicao, mas no conseguira 
sequer mover os lbios para formar a menor palavra. "V ver seu pai. Hoje de tarde uns homens malvados quase o mataram a bordoadas e pontaps. V dizer-lhe uma palavrinha 
e volte depressa para tomar uma tigela de sopa quente." Ele entrara a medo no quarto do casal.
   O pai estava deitado na cama, no escuro, como um grande urso preto a lamber em silncio As suas feridas. "Meu filho, estvamos apreensivos..." Sua voz doa. Ele 
se aproximou da cama, bendizendo a escurido que lhe tornava aquele encontro menos penoso. O cheiro do pai, suor e febre, envolveu-o. Sentiu a mo spera do velho 
apertar a sua. Ouviu-o sussurrar: "Sua me no sabe que voc estava comigo quando aqueles homens me atacaram. No lhe diga nada... Promete?"
   Aquela noite ele no conseguira dormir. Ficara sob as cobertas, de olhos abertos, escutando os gemidos e suspiros do pai, que vinham do quarto contguo. Devia 
ser j madrugada quando ouviu o pobre homem dizer: " Deus, d-me foras para suportar esta humilhao." Depois, a voz da me. "Dorme, meu amor, dorme." Silncio 
breve. "Foi um erro termos casado um com o outro. Eu s tenho trazido desconforto e vergonha para a tua vida." - "Tolice! Tu sabes o quanto te quero. No h-de ser 
nada. Depois do que aconteceu, acho que no podemos continuar aqui... Vamos embora para outra cidade qualquer. O mundo  grande." O marido soltou um suspiro: "Santo 
Deus, outra vez?" E desatou a chorar em grandes soluos. Depois queixou-se: "O meu filho no me ama. Envergonha-se de mim. Mas eu no o censuro.  duro ser negro 
neste pas... em qualquer parte do mundo." Novo silncio. Depois, a voz fosca do velho: "Seria melhor que aqueles homens me tivessem matado, palavra de honra!" - 
"No digas tamanha blasfmia!" - "Quando eu morrer vocs dois podero viver normalmente como seres humanos..." - "Vamos, dorme, tu precisas de sono. Deus  grande. 
E Ele sabe o que faz." Pequena pausa. Outra vez a voz de feltro: "Eu s vezes duvido..."
   O tenente apanhou a garrafa metlica que estava sobre a pequena mesa-de-cabeceira e tomou um largo sorvo d'gua. Depois encaminhou-se para o quarto de banho.
   Parou  porta, como subitamente paralisado. Aquele dia... A me estava na escola primria onde leccionava. A casa, silenciosa. Ele se encaminhara para o quarto 
de banho, abrira a porta e encontrara l dentro o pai, enforcado pelo suspensrio amarrado a uma trave do tecto, balouando-se de leve como um enorme boneco de pano, 
a lngua de fora, os beios arroxeados, a cara cinzenta, os olhos exorbitados... Tudo escureceu em torno, suas pernas afrouxaram-se e ele tombou sem sentidos.
   O tenente postou-se debaixo do ralo do chuveiro e abriu a torneira. A gua estava morna. Sentiu que continuava a transpirar, mesmo sob a ducha. Ensaboou-se, fez 
espuma com abundncia e esfregou-se com vigor, principalmente nas axilas. Mal terminou de enxugar-se, sentiu o suor de novo a correr-lhe pelo corpo. Diante do espelho, 
passou debaixo dos braos o basto de desodorizante. Tinha horror  ideia de que o cheiro de seu corpo pudesse denunciar a sua origem racial.
   O aroma do sabonete ficara no ar, doce e evocativo. Evocativo... de qu? Magnlias em flor no cemitrio, no dia em que sepultaram seu pai... Os homens pretos 
vestidos de preto em torno da cova. A terra parda. O cu azul. O pastor, sua voz cheia e grave- " Deus, perdoa e recebe no Teu seio a este pobre pecador que no 
teve a coragem suficiente para suportar as vicissitudes e maldades deste mundo. Oremos, irmos!"
   O tenente contemplava-se no espelho, e descobria algo do pai no prprio rosto. A expresso dos olhos? A boca? Quando o cortejo se dispersara, a me lhe dera a 
mo e ambos dirigiram-se para o porto do cemitrio. Ela enxugava com o leno as lgrimas silenciosas. Ele caminhava perdido em seus pensamentos confusos. Quase 
pisara distrado numa rosa amarela cada no cho. Sons alegres no ar. Um outro cortejo fnebre entrava no cemitrio. Fnebre? Um jazz-band vinha  frente, comandado 
por um negro reluzente vestido de branco, a requebrar-se, risonho, com um estandarte tricolor nas mos. Pistons, trombones, clarinetes, pratos, bombo, tambores! 
Os instrumentos de metal chispavam ao sol, tocando uma vibrante marcha triunfal. Pareciam desafiar a morte. As prprias pessoas que carregavam o caixo moviam-se 
ao ritmo da msica, danavam. Os parentes do defunto erguiam para o cu as caras transfiguradas de feroz exultao. E o cortejo fazia evolues coreogrficas por 
entre as sepulturas. Ento ele sentiu como nunca a alegria de estar vivo. Era como se estivesse saindo de um prolongado pesadelo. Um pensamento se lhe formou na 
mente: Agora que "ele" est morto, ns dois poderemos viver como brancos. Ns somos brancos!
   O tenente voltou para o quarto de dormir e comeou a vestir-se lentamente. Lembranas havia que eram lceras incurveis da memria.
   Olhou o relgio. Tinha ainda vinte minutos pela frente, chegaria ao restaurante  hora marcada. Seu olhar nesse momento pousou no papel que estava em cima da 
escrivaninha. Apanhou-o, sentou-se, acendeu a lmpada. Era a carta que recebera de sua mulher, no dia anterior. Releu-a. Meu querido: No imaginas como estamos contentes, 
nosso filho, eu e todos os nossos amigos, por saber que dentro de mais uma semana estars em casa, connosco, e para ficar! Este ltimo ano foi para mim de grande 
agonia, e eu te confesso agora que meu pessimismo me levava a esperar todos os dias uma daquelas terrveis "cartas" em que o Presidente lamenta comunicar, etc... 
Tu sabes. Mas essencial  que ests vivo, vivo! E...
   O tenente saltou por cima de vrias linhas, procurando o trecho que mais o sensibilizara naquela carta: Quero contar-te uma coisa que aconteceu a nosso filho, 
mas desde j te asseguro que no foi nada realmente grave do ponto de vista fsico. Como vais encontr-lo com a cabea envolta em ataduras, no quero que te alarmes. 
Como sabes, nosso menino entrou este ano para uma escola recm-integrada e h dois dias uns brancos adultos, pais e mes de alunos que no aprovam a integrao, 
esperaram as crianas negras  sada das aulas para vai-las e apedrej-las. Uma pedra atingiu nosso filho na cabea, mas te juro que foi coisa leve, apenas um talho 
que no necessitou mais de dois pontos. Naturalmente toda essa histria  deplorvel, e se te escrevo agora  porque, se esperasse para te contar tudo verbalmente, 
estou certa de que romperia o pranto e no poderia falar...
   O tenente rasgou o papel com raiva e atirou seus pedacinhos no cesto, ao p da mesa.
   Quando, minutos mais tarde, j no saguo do hotel, aproximou-se do porteiro da noite para lhe entregar a chave do quarto, estranhou que, o homenzinho no lhe 
sorrisse, como de costume.
   - Ali! O senhor tenente!... - exclamou o velhote, que tinha na mo um quadriltero de cartolina. - Estou vendo... a sua ficha... - Falava stacatto, soltando as 
palavras como em rajadas de durao irregular. - Nascido... ano do bfalo... muito interessante!
   O tenente deps a chave sobre o balco e ia encaminhar-se para a porta quando a mmia tornou a falar.
   - Um conselho... o senhor tenente permite?... um conselho... Amanh... dia do ms lunar no-auspicioso para o senhor oficial... At meia-noite ... hoje, sim... 
muito bom. Mas amanh... muitos perigos... talvez desgraas... talvez.
   - Amanh vou embarcar de volta para a minha terra, vov - murmurou o oficial, com a inexplicvel sensao de que estava contando uma mentira.
   - No devia... dia no-auspicioso... Volte para o hotel... meia-noite... deite-se quieto... ps virados direco sul... Muito quieto... Dia no-auspicioso, amanh...
   O tenente olhava para o porteiro. Sua cabea repelia a advertncia, mas seu peito a recebia em cheio.
   - Est bem... - murmurou, para encerrar o assunto.
   Meteu a mo no bolso das calas, encontrou uma moeda de vinte e cinco centavos, colocou-a furtivamente sobre o balco, como a pagar uma consulta que o degradasse.
   O porteiro lanou um olhar enviesado para a moeda, mas no agradeceu.
   O tenente caminhou para a porta do hotel, sentindo no peito as palavras do nativo como uma tatuagem de mau agouro.
   Depois da caminhada, curta mas mesmo assim penosa do hotel ao restaurante, atravs da atmosfera pesada e hmida das ruas, o tenente sentia agora, graas ao ar 
condicionado uma promessa de bem-estar, ali no interior de L'Oiseau de Paradis.
   Sentados a uma mesa, num dos cantos do salo, ele e a sua convidada bebiam martinis, enquanto esperavam os pratos que haviam encomendado. Sentia-se curiosamente 
embaraado. A professora andava geralmente vestida de um modo to pouco feminino, era to destituda de coquetismo, que nas ocasies anteriores em que a encontrara, 
ele sempre lhe dirigira a palavra como a uma pessoa de seu sexo ou, mais precisamente, a um ser sem sexo determinado. Vira-a pela primeira vez, havia poucos meses, 
numa das aldeias que os aliados do Sul haviam acabado de tomar ao inimigo. Ele fora mandado para l com seu grupo, a fim de doutrinar os camponeses, reorganizar 
a vida da comunidade, convenc-los da necessidade de deixarem-se examinar por mdicos, permitirem que seus filhos fossem vacinados e aprenderem a usar sabo e a 
ferver a gua antes de beb-la. A professora havia sido designada para tomar conta das crianas e servir tambm como intrprete, pois falava correntemente a lngua 
dos nativos. Descera de um jipe metida num uniforme militar verde-oliva, coberta de poeira da estrada, os cabelos atochados dentro de um chapu masculino de pano, 
o bluso com escuras manchas de suor  altura das axilas, um cigarro aceso enfiado num canto da boca. (Parece um sargento - pensara ele.)
   Agora quem tinha diante de si era uma mulher, a carnao tostada de sol realada por um elegante vestido escuro de noite, o rosto pintado discretamente. Pela 
primeira vez o tenente percebia (e isso o constrangia um pouco) que aquela professora quarentona no era destituda de encanto sexual. Sua face, de uma nitidez vigorosa, 
quase metlica, lembrava uma efgie de moeda antiga. Sua voz, ele no sabia bem porqu, tinha um sabor de fruta madura e meio machucada. E s agora ele percebia 
a beleza daqueles olhos lmpidos, cor de violeta, que se harmonizavam to bem com o castanho bronzeado dos cabelos.
   Ela tirou da bolsa um cigarro, prendeu-o entre os lbios e aproximou-lhe a ponta da chama da vela encarnada que estava sobre a mesa. Foi ento que pela primeira 
vez ele atentou nas mos dela, expressivas como uma face humana, fortes sem serem grosseiras.
   Ela o encarou por algum tempo em silncio como a analis-lo, e ele sentiu uma leve perturbao. Para disfarar, olhou em torno. O salo estava decorado em tons 
de vermelho (segundo uma crendice asitica, a cor auspiciosa), as paredes recobertas de um brocado em tons de clarete com pagodes e rvores bordados a fio dourado.
   As luzes e reflexos avermelhados daquele interior em penumbra levaram o tenente de volta ao menino que visitara um dia com sua me o museu de Cincia e indstria, 
em uma das grandes cidades de seu pas. Tinham descido ao simulacro de uma mina de carvo em tamanho natural, sombria e fechada como aquele recinto. Lembrava-se 
do rosto da doce companheira, tocado de um reflexo de incndio. Sentia um grande, confortvel prazer no fundo do qual existia um elemento de medo, como um sorvete 
no mago de um bolo quente. E enquanto o elevador descia s "entranhas da terra" ele procurava o contacto fresco e tranquilizador da mo de sua me.
   Na "mina" ouvia-se uma voz, provinda de um disco, explicando como trabalhavam aqueles bonecos automticos que representavam os mineiros nas galerias subterrneas, 
extraindo carvo e mandando-o depois para o elevador em vagonetas, sobre os trilhos, ao longo das galerias. No restaurante, alm do murmrio das vozes das poucas 
pessoas que ali estavam, andava no ar uma melodia acariciante, em surdina - tudo to sedativo, que ele sentia que sua dor de cabea se atenuava aos poucos. Apanhou 
o seu copo e passou-o devagarinho pela testa, para gozar-lhe o contacto gelado.
   - Gosto deste lugar - murmurou.         
   Ela tambm olhou em torno, e ao erguer os olhos para as lanternas do tecto, sua testa se pregueou de rugas, e ele lhe notou a frouxido incipiente da pele, principalmente 
sob os maxilares. Mesmo assim no a achou mais velha ou menos atraente. E felicitou-se por ter vindo.
   - Eu gostava mais deste lugar - disse ela - como era antes, quando no havia nenhuma msica. Apenas o silncio... e vozes abafadas... e as batidas dos talheres 
nos pratos. Vocs, quero dizer, os seus compatriotas, inventaram, industrializaram e transmitiram ao mundo esse hbito de viver contra um doce fundo musical, tornando 
tudo de certo modo parecido com o cinema, isto , com uma fico. - Soltou uma baforada de fumaa, tomou um gole de martini. - Quando visitei o seu pas... (j lhe 
contei, creio, que passei um ano numa universidade do Oeste, fazendo conferncias... no contei?) pois quando estive na sua terra, tenente, fiquei sabendo que essas 
melodias que a gente ouve nos escritrios, lojas, hospitais, salas de espera de consultrios e cinemas, so gravadas em fitas magnticas por uma firma que as distribui 
entre seus "assinantes" e de tempos em tempos substitui os carretis usados por outros com "nova carga". Contaram-me que as msicas so escolhidas pelo seu valor... 
digamos, opiativo, isto , tm de ser suaves e capazes de se tornarem parte do silncio... numa espcie de mimetismo sonoro. Recusa-se toda a melodia que possa excitar 
o ouvinte ou faz-lo pensar. Ora, isso me parece o resultado de uma maneira demasiado pragmtica de encarar a msica, que para mim  a mais alta forma de expresso 
artstica. - Tornou a olhar em torno e depois concluiu: - Pois , tenente, eu preferia que isto aqui continuasse quieto como... como um templo.
   O tenente gostava da maneira como aquela estrangeira falava a lngua dele, com fluncia, riqueza de vocabulrio mas com um acentuado sotaque, cheio de erres rascantes 
e molhados. Como ela conservasse a entonao de sua lngua materna, ele tinha a esquisita impresso de estar ouvindo uma melodia conhecida sua mas tocada em tom 
diferente daquele a que estava habituado.
   - Para seus compatriotas, comer  uma espcie de ritual, quase uma religio - disse.
   Ela sorriu.
   - Olhe, uma coisa eu lhe posso garantir. Ns comemos com prazer, mas vocs, que no fundo so uns incurveis puritanos, acham que comer  uma espcie de pecado 
da carne. No  de bom-gosto discutir comida. Seus compatriotas comem por motivos pragmticos, porque necessitam de uma certa quantidade de calorias, vitaminas e 
sais minerais. E no fundo nos desprezam (e h um pouco de inveja nesse desprezo) porque perdemos muito tempo  mesa... e tambm na cama, com os outros prazeres da 
carne.        
   Ele fez um gesto largo, j meio inebriado pelo coquetel.
   - Ah! Mas voc exagera tudo!
   - E por falar em exagero, se deixarmos de lado o barbarismo nazi, ter havido neste sculo guerra mais "exagerada" e absurda do que esta em que vocs se meteram 
e que no podero ganhar... e no querem perder?
   - Bom, como soldado... - comeou ele, mas ela o interrompeu:
   - Sei que voc no  um soldado profissional e sim um civil fardado. Se me disser que aprova todo este genocdio insensato, eu no acreditarei na sua sinceridade.
   Ele a mirou nos olhos.
   - Nunca imaginei que voc tambm no gostasse de ns.
   - Quem lhe disse isso? Minha tendncia natural  gostar das pessoas, dos pases, das coisas... embora tenha algumas razes pessoais para olhar a vida com certas 
reservas. Mas h em seus compatriotas uma coisa que s vezes me exaspera. ...  uma espcie de candura, uma perigosa inocncia juvenil misturada com um... um moralismo 
farisaico...
   Ele pregueou os lbios numa expresso de dvida. Bebeu outro gole de aperitivo. Ela prosseguiu:
   - Na minha opinio, vocs se transformaram, talvez sem perceber, em modernos Inquisidores que a ferro e a fogo querem impor aos hereges a sua Salvao e o seu 
Cu.
   - Refere-se a esta guerra?         
   - Sim, e tambm a essa espcie de paz que seu pas oferece aos chamados povos subdesenvolvidos, uma paz policiada, colonial, digamos, romana... Na minha opinio, 
no caso deste conflito, vocs podem ser comparados com um Bom Samaritano desastrado que fere e at mesmo mata a pessoa que pretende socorrer... 
   Ele a escutava sorrindo. Sentia que sua suave embriaguez o tornava imune quela espcie de agresso.
   - Veja bem... - insistiu ela, amassando a ponta do cigarro contra o fundo do cinzeiro, onde estava pintado um morcego escarlate, outro smbolo nacional de boa 
fortuna. - De acordo com a teologia poltica de seu Governo, tenente, este pas asitico corria e corre o perigo mortal de sucumbir ao Diabo Vermelho. E aqui esto 
vocs como modernos samaritanos armados dos engenhos mais terrveis de destruio... e me parece que o que mais lhes importa no  deitar azeite e vinho nas feridas 
do assaltado, como na parbola bblica, mas sim esmagar o assaltante, mesmo ao preo da vida da vitima...
   O tenente encolheu de leve os ombros, tirou a azeitona de dentro do copo, meteu-a na boca e ps-se a mastig-la.
   - No discutirei nosso direito de estar e continuar aqui - disse -, mas j que estamos, no nos podemos deixar matar e vencer... Enfrentamos um inimigo fantstico 
que est em toda a parte, ao nosso redor, e ao mesmo tempo... no est em parte nenhuma. Atacam  noite e somem-se durante o dia. Conhece o estratagema que esto 
usando ultimamente para se esconderem?  incrvel... Envolvem suas armas e munies em plsticos e praticamente se enterram no lodo dos banhados, riachos e arrozais 
e ali ficam durante horas, s vezes um dia inteiro, respirando apenas por um canudo de palha ou um canio... Toda esta regio, como sabe, est cheia de cavernas, 
dessas que serviram aos nativos h doze anos na guerra de libertao, e l eles se refugiam como toupeiras, ratos, tatus... Um dia entrei num desses esconderijos 
subterrneos a cuja entrada eles s vezes semeiam vboras vivas... Encontrmos l dentro armas e munies, um aparelho transmissor de rdio, mapas da regio e quase 
uma tonelada de arroz... Sim, e lanas de bambu com as pontas envenenadas!...  um inimigo imprevisvel, ardiloso e implacvel. E voc bem sabe o castigo que infligem 
aos prprios compatriotas que colaboram connosco...
   Ela sacudiu a cabea afirmativamente.         
   - Conheo de sobra todas essas feias histrias - murmurou. - Mas voltemos ao salvacionismo de vocs, os representantes da decantada civilizao ocidental...
   - Eu nunca afirmei isso.
   - Mas boa parte da imprensa e da opinio pblica de seu pas parece pensar assim... Vocs esto fazendo uma guerra de terra arrasada, uma guerra total. jogam 
bombas de fsforo nos matagais para descobrir o inimigo que ali se esconde. Ora, essas armas qumicas destroem tambm as rvores frutferas, as colheitas, o gado, 
os bichos domsticos e, por assim dizer, traumatizam a prpria terra. E pior que isso so essas bombas de napalm, que s vezes arrasam aldeias inteiras, queimando 
seres humanos inermes e, esses sim, verdadeiramente inocentes, pois alguns nem chegam a compreender direito o que se est passando... Claro, estou raciocinando como 
um msero civil, um vil pacifista. O panorama visto com os olhos e a mentalidade de um militar,  diferente. A coisa se reduz a estratgia, tctica, balstica, logstica, 
geopoltica... e sei mais qu! Mas eu no posso deixar de pensar em termos de vidas humanas.
   Ele mirava a professora, surpreendido de sua paixo.
   As narinas dela palpitavam. Um pouco inclinada para a frente, ela falava como um anjo acusador. E o tenente sentia que os gestos daquelas mos to ntegras tornavam 
tudo quanto ela dizia mais srio, veemente e verdadeiro.
   - Voc fala - retorquiu ele - como se fssemos assassinos. Acha ento que os comunistas tm algum respeito pela vida humana?
   -  evidente que no. Saiba que detesto qualquer totalitarismo, seja qual for seu disfarce ou pseudnimo. Mas o que me alarma, tenente,  que,  fora de combater 
os comunistas, vocs acabaram por imitar-lhes a linguagem, o mtodo de aco e at a moralidade...         
   Depois de curta pausa - durante a qual ele no encontrou nada para dizer - ela prosseguiu:
   - Escute, meu amigo, escute. Voc espera que uma pessoa como eu, que no  membro da "nao eleita", possa olhar toda essa matana, essa destruio insana com 
a mentalidade de um geopoltico ou colocada no famoso "ponto de vista histrico"? Ns pensamos na nossa prpria pele, nossos nervos, nossas vsceras, nossos medos. 
No podemos esquecer nossas vidas e as vidas dos que nos cercam, amigos ou estranhos. Tenho visto com os meus prprios olhos o que acontece s vtimas de certas 
armas qumicas de vocs. Elas se retorcem na pior das agonias, vomitam o prprio estmago... (Perdoe-me, este no  o lugar apropriado para falar nestas coisas.) 
Alguns ficam cegos. Agora eu me pergunto: vocs se portariam da mesma maneira se estivessem numa guerra ortodoxa, contra um pas de brancos? Ser que o facto de 
matar "ratos asiticos", sub-homens, justifica o uso de armas qumicas? Claro, um estrategista pode considerar esses nativos meras cobaias... - Calou-se por um instante, 
acendeu outro cigarro e acrescentou: - Ainda a semana passada ajudei a cuidar de um menino de sete anos cujo corpo era uma horrvel chaga. Tinha sido napalmeado. 
Eis aqui um neologismo que me causa arrepios... Napalmear. - Sorriu, amarga. - Algum historiador ou fillogo sentado  sua mesa, na sua biblioteca climatizada e 
neutra, dir que as guerras tm o seu lado positivo: aceleram o progresso e criam a oportunidade de enriquecer a lngua com neologismos.
   Calou-se por um instante e ficou a beber o que restava em seu copo. O tenente agora comeava a sentir de novo o calor. Uma baga de suor escorreu-lhe ao longo 
do dorso. E de sbito ficou triste. Pensou em K. Dentro de pouco mais de uma hora t-la-ia nos braos pela ltima vez. Pela cabea passou-lhe a imagem da suicida 
da manh.
   - Em suma, tenente - disse a professora com um meio sorriso -, pode ser que, sabendo que os budistas e os confucionistas no tm inferno, vocs resolveram trazer-lhes 
ao domiclio uma amostra do inferno cristo...
   O oficial hesitou antes de formular a pergunta que se lhe formara na mente. Temia ofender a professora. Por fim decidiu-se:
   - Seus compatriotas teriam sido melhores que ns, quando ocuparam esta terra?
   - Est claro que no! Fomos pssimos colonizadores. Egostas, orgulhosos, gananciosos e. sem escrpulos. Trouxemos para c, entre outras coisas ms, um dos smbolos 
de nossa decantada civilizao: a guilhotina... Nos ltimos anos de ocupao, havia neste territrio mais cadeias que escolas. Nossa derrota definitiva em 1954 no 
s era de se esperar como tambm de se desejar, em nome da decncia humana...
   Naquele exacto momento o tenente avistou um fuzileiro-naval, preto retinto, que entrava alegre na sala, trazendo pelo brao uma rapariga nativa e sentava-se com 
ela a uma mesa. Ficou vagamente apreensivo quando viu o maitre aproximar-se do recm-chegado. Imaginou o que ia segredar-lhe ao ouvido: "Sinto muito, cavalheiro, 
mas neste restaurante no atendemos gente de cor." Mas l estava o maitre inclinado, solcito, sobre o fregus, a anotar no seu canhenho o que ele lhe pedia.
   De novo concentrou a ateno no que a amiga lhe dizia.
   -... durante dois mil anos a pennsula foi ocupada pelo ento chamado Celeste Imprio. Ora, este povo sabe suportar e esperar com coragem e pacincia. Parece 
pensar em termos no de sculos, mas de eternidade. Finalmente os invasores foram embora e mais tarde entramos ns e aqui permanecemos quase cem anos... Houve um 
interldio durante a Segunda Grande Guerra, quando estas terras foram ocupadas por aqueles outros asiticos, eficientes e obstinados, que alternam curvaturas corteses 
com brutalidades...
   - E agora - completou ele - todos estes pases da pennsula esto ameaados de cair sob o domnio dos comunistas. Fale com franqueza, acha isso uma soluo?
   -  bvio que no, meu caro. Mas h um facto elementar que o seu Governo parece no ter percebido claramente. O comunismo desta gente  a forma superficial que 
toma o seu nacionalismo. O que eles ainda querem  viver a sua vida sob governo prprio e com liberdade.
   - Mas acredita que este povo esteja suficientemente maduro para a liberdade?
   - No se trata de estar ou no maduro. Todo ser humano tem um direito natural  liberdade. E, afinal de contas, quem  que vai decidir no mundo que povo est 
ou no maduro, quem tem ou no direito  liberdade? Vocs? Porqu? Porque so fortes econmica e militarmente? Ou porque so os representantes da vontade divina 
na Terra?
   Olhando para o morcego escarlate do cinzeiro, o tenente disse:
   - C no meu entender, esta gente supersticiosa e ignorante no poder jamais ter uma verdadeira democracia. Recusa os mdicos e remdios que lhe oferecemos, prefere 
recorrer aos seus feiticeiros. Vive a invocar o esprito de seus antepassados, dos quais espera a soluo sobrenatural para todos os seus males, tanto os do corpo 
como o do esprito. Acredita piamente em mdiuns, geomantes e astrlogos...
   - Olhe, quando estive no seu pas, tenente, li uma vez numa revista de estatstica que l vocs gastam anualmente dezenas de milhes com cartomantes, videntes, 
quiromantes, numerologistas e astrlogos...
   Ele sorriu. Era a primeira vez que discutiam assuntos daquela natureza, pois nos encontros anteriores haviam tratado de problemas prticos relacionados com crianas 
e escolas, instalaes sanitrias, tcnicas de ensino audiovisuais, etc...
   O garon trouxe os pratos. Deps sobre a mesa uma tigela de cermica com uma salada de alface e tomates, que a professora comeou a misturar: azeite, vinagre, 
pimenta-do-reino - tudo com mos geis e hbeis, cujos movimentos o tenente acompanhava fascinado. Agora comeava a sentir curiosidade de saber alguma coisa do passado 
daquela criatura singular. Viva? Divorciada? Solteira?
   O maitre trouxe pessoalmente o vinho. E quando o garon ps  frente da professora o prato de vitela que ela pedira, o cheiro de carne assada entrou pelas narinas 
do tenente e pintou-lhe na mente a imagem da estudante em chamas. Foi com dificuldade quase dolorosa que conseguiu deglutir um pedao de tomate. (Estava  mesa, 
em sua casa, tinha doze anos... o pai apontava para o prato fundo de madeira, e dizia: "A alface, meu filho,  da famlia das chicorceas, e esta que estamos comendo 
agora  do tipo conhecido como sativa. Agora o tomate, cujo nome latino  lycopersicon esculentum,  originrio da Amrica do Sul." Ele olhou para a me e esperou 
que a professora fizesse um aceno de cabea para pr o selo de autenticidade no que o marceneiro acabava de dizer.)
   - Est certo de que no vai comer mais nada, tenente?
   - Certssimo, obrigado. - Esteve a pique de lhe contar de como naquela manh havia sentido cheiro de carne humana assada. Mas continuou calado.
   Foi nesse momento que avistou um homenzinho que lhe produziu no corpo inteiro essa sensao desagradvel que nos inspiram os rpteis ou os moluscos. Vestia uma 
camisa desportiva de cores chamativas. Era o proxeneta "proprietrio" de K. junto da porta, olhava em torno, esfregando as mos e procurando um lugar. O maitre aproximou-se 
dele, obsequioso, e dirigiu-o para uma mesa central. E o tenente lembrou-se desagradavelmente do embaraoso dilogo que mantivera com o cften, havia meses: "Senhor 
oficial, ficar com a menina exclusivamente para seu uso? Impraticvel! Multiplique por trs o seu soldo e o total ser ainda insuficiente para pagar o que eu lhe 
exigiria por esse monoplio. Aquela flor  das propriedades mais valiosas que possuo... Muito procurada. At por gente graduada, importantssima. Perdoe-me, senhor 
oficial, mas sou obrigado a dizer-lhe no." Agora l estava o repelente tipo sentado  mesa, esfregando sempre as mos, com aquele seu permanente sorriso imbecil 
na face redonda e gorducha, cuja pele, de um moreno rosado e cetinoso, lembrava a de um rato recm-nascido. O nativo inclinou a cabea, numa saudao, mas o tenente 
fingiu que no tinha percebido nada, baixou os olhos e ficou a remexer com o garfo a sua salada, inapetente.
   -  surpreendente - disse a professora - a falta de habilidade com que vocs escolhem os seus aliados.
   - Mas no acha que muitas vezes so os outros que nos escolhem? Tome o presente caso. Viemos para c primeiro como conselheiros militares e tcnicos a convite 
do Governo Nacional. Mais tarde como aliados combatentes, tambm porque fomos convidados.
   - Tenente, no creio que o senhor seja ingnuo como quer dar a entender. O seu pas est cometendo erros semelhantes em muitos outros lugares do mundo, isto , 
protegendo sempre o lado errado. Mas no entremos nesse assunto agora.
   - No lhe parece que o facto de nossos rapazes estarem aqui correndo todos os riscos e durezas significa algo de positivo?  um sinal de que acreditam em princpios. 
O outro dia eu vi, no me contaram, eu vi um dos nossos soldados arriscar a prpria pele para salvar uma criana nativa recm-nascida que havia sido deixada dentro 
de uma choupana em chamas. Sofreu queimaduras de primeiro grau mas salvou o beb.
   -  possvel que os seus bravos fuzileiros acreditem sinceramente em que esto com a causa da justia e da democracia. A lavagem de crebro entre os comunistas 
 drstica, violenta, impiedosa. Mas a lavagem de crebro nos pases capitalistas tem sido suave, lenta e imperceptvel. Comeou h mais de um sculo e condicionou 
a maneira de pensar e sentir de suas populaes, preparando-as at para coonestar o "genocdio justificado", a aceitar as "guerras santas". Mata-se em nome de Deus, 
em nome da Ptria e em nome da Democracia, essa deusa de mil faces cuja fisionomia verdadeira ningum nunca viu.
   Ele quis protestar, mas ela no lhe deu trgua:         
   - Admiro os soldados de vocs, claro que admiro, porque no? S belos espcimes humanos. Lutam com uma bravura e uma dedicao que me comoveriam se no me exasperassem 
na sua estpida gratuidade... Considerando que foram criados a leite gordo, no meio de todo conforto, numa sociedade de padro altssimo que induz ao comodismo e 
ao hedonismo... considerando tudo isso, acho fabulosa a capacidade de coragem e eficincia militar desses rapazes. Mas no esquea, tenente, que os nazistas eram 
tambm guerreiros valentes e eficazes.
   - Voc est a de novo a nos comparar com os nazistas!  uma injustia.
   - Sim, ... Mas pense no que lhe vou dizer, tenente. Se uma bala h-de um dia me matar, pouco importa saber agora se ela vai ser disparada por um srdido nazi 
ou por um desses eugnicos fuzileiros que choram quando pensam na torta de mas que s suas mames sabem fazer. Pouco se me d que meu assassino seja um comunista, 
um liberal, um democrata, um anarquista ou um budista... O facto  que estarei irremediavelmente morta, liquidada... - (Neste ponto acrescentou em sua prpria lngua 
um particpio passado metafrico e cmico, que o tenente entendeu, entre chocado e divertido.)
   - Quer dizer, ento, que para voc no existem princpios? - perguntou ele.
   -  evidente que existem. E para mim o princpio bsico  o de que no aceito nenhum sistema social, econmico e poltico que no tenha como centro a pessoa humana, 
seu bem-estar, sua liberdade e sua dignidade. O diabo  que estamos tambm numa guerra de metforas, pseudnimos e eufemismos. Muitos soldados de seu pas podem 
mesmo achar sinceramente que aqui esto matando, morrendo e sofrendo durezas na defesa da Democracia e da segurana fsica e espiritual da ptria... Mas ser que 
preciso lembrar-lhe, tenente, da existncia dos "grupos de elite" que tm os olhos, os interesses e os planos voltados para as riquezas minerais e vegetais desta 
regio? Bauxita, ferro, tungstnio, resinas, leos, sisal, arroz, ch...
   O tenente fez um gesto largo que traduzia o seu desalento.
   - Sejamos honestos - continuou a professora. - Nem os pases capitalistas nem os comunistas esto fundamentalmente interessados na paz. O que buscam mesmo  a 
prpria hegemonia militar nesse perigoso jogo pelo domnio mundial. O que querem, acima de tudo,  reforar suas zonas de segurana, ampliar seus mercados, conquistar 
mais fontes de riqueza e de matrias-primas. Para isso precisam de soldados, de armas e de slogans.  nesse ponto que entra em cena a propaganda guerreira servida 
pela subverso da semntica.
   - Voc acha ento que a guerra contra o nazismo no foi justa e necessria?
   - No plano superficial e imediato, foi uma "operao policial" em grande escala, dramaticamente urgente, indiscutivelmente justificvel, contra um pas que, hipnotizado 
por um lder paranico, havia sido tomado de uma espcie de amok colectivo e queria a qualquer preo conquistar e escravizar o resto do mundo. Mas faa um exame 
mais profundo das origens do nazismo e da pavorosa guerra que ele desencadeou e voc encontrar ainda a velha luta dos interesses e rivalidades entre naes e grupos 
econmicos e financeiros. As potncias capitalistas encorajaram e at armaram os nazistas na esperana de que eles atacassem e aniquilassem a ptria do comunismo.
   - Voc no acredita ento na possibilidade de uma paz definitiva?
   - No, enquanto a Engrenagem que a est continuar funcionando. E fique sabendo tambm, meu amigo, que desejo apaixonadamente a paz, sim, mas no a paz de um 
cemitrio atmico.
   Ela comia com um apetite que ele invejava mais com a cabea do que com o estmago. O negro soltou uma risada, o tenente franziu a testa. No se lembrava de jamais 
ter ouvido de seu pai uma gargalhada franca. Era um homem que vivia na sua escura surdina. E agora, olhando para as mos da professora, ele descobria nelas - quase 
a contragosto- um certo parentesco plstico com as mos paternas, que possuam tambm uma grande beleza de estrutura. Muitas vezes ficara entretido a observar como 
ele torneava ou esculpia a madeira. Fazia aquilo com amor, e seus dedos tinham um certo ritmo, uma secreta msica.
   De novo olhou irresistivelmente para o proxeneta, que agora com a cara quase metida numa tigela, comia arroz com pauzinhos, com tanta sofreguido, que seus chupes 
eram ouvidos em toda a sala.
   Por alguns instantes o tenente ficou a pensar no que iria acontecer dentro de uma hora no quarto onde K o esperava. Imaginou-a a despir-se lentamente, a tirar 
os brincos, sorrindo sempre. Apalpou o bolso onde guardava o estojo com o anel. A voz da professora chegava-lhe aos ouvidos como um conjunto de sons com cujo sentido 
ele no atinava. Quando lhe prestou ateno, ela dizia:         
   -... ouviu falar no escndalo do pio em que est metida a esposa de um conhecido general do Governo do Sul? Bom,  claro que a coisa toda foi abafada... E por 
falar em pio, aqui, nesta terra, o pio do povo no  o comunismo, mas  o pio mesmo.  uma gente to infeliz, sempre sob a pata do conquistador,  um povo to 
miservel, que no  de admirar que procure consolo num entorpecente. Agora me explique, tenente, porque  que no seu pas, onde h riqueza, conforto, diverses, 
oportunidades de sucesso, a quantidade de toxicmanos cresce fantasticamente de ano para ano?
   Ele a encarou com certa dureza:
   - No sei. Vocs que sabem sempre tudo melhor que os outros, vocs que so o creme da cultura humana  que devem encontrar resposta para isso... e para o resto. 
- Ela soltou uma risada. O negro da outra mesa voltou a cabea. O proxeneta sorriu, como se estivesse participando do dilogo.
   - Tenente, vejo que o insultei!
   Ele j estava arrependido do que havia dito.         
   - Perdo. Fui rude.
   - Qual! Tenho pele de rinoceronte. De outra maneira no teria sobrevivido aqui. Mas falemos deste povo que sentimentalmente tanto me interessa. De certo modo 
 o meu povo. Vou morrer e ser enterrada aqui, meus ossos adubaro um pedao desta terra. Espero que de meu peito cresa uma palmeira. No. Um flamboyant. Ou uma 
romeira. Enfim, uma rvore de fruta ou flor que possa um dia inspirar algum. Talvez um poeta de seu pas, cansado de computadores electrnicos, um dia venha a sentar-se 
 sombra dessa rvore para escrever um poema s roms eternas. No, tenente, talvez seja efeito do vinho, mas no acho que o mundo esteja perdido. Tenho esperana, 
meu amigo, muita esperana. Conheo muito, bem os aspectos positivos de sua terra e de seu povo. Mais vinho, tenente?
   Ele no respondeu. O lcool lhe subira  cabea e ele no queria estar embriagado quando se encontrasse com K. A professora tornou a encher o prprio clice, 
bebeu um gole e depois disse:
   - Se levarmos em conta o estado crnico de infelicidade, fome e doena em que vive esta nao, acho que esses homenzinhos e mulherzinhas com peso de jquei, tanto 
os do Norte como os do Sul, formam um grupo humano da mais alta qualidade... Sua inferioridade ser apenas circunstancial e no essencial.
   - Ah, no tenho a menor dvida a esse respeito. Espero que no imagine que eu seja racista - acrescentou ele, numa espcie de sondagem, pois desejava saber se 
ela tinha ou no conscincia de que estava na companhia de um mulato. Concluiu que, se sabia, no deixava transparecer nada.
   No silncio que se seguiu, ouviu-se a voz do fuzileiro negro e o riso de boneca de sua companheira.
   - Ouviu falar alguma vez em Karl von Clausewitz? - perguntou a professora.
   O tenente limitou-se a franzir a testa numa dvida, e ela continuou:
   - Foi um general prussiano que escreveu sobre estratgia militar em meados do sculo passado. Era partidrio da guerra total: achava que o inimigo devia ser atacado 
de todas as maneiras possveis... no s o seu exrcito como tambm a sua populao civil, o seu territrio, propriedades, etc... Foi ele quem afirmou que a guerra 
 a continuao da poltica. Pois eu tenho uma correco a fazer (perdoe-me a presuno) nessa frase famosa. Acho que a guerra  a continuao do comrcio entre 
as naes. A diplomacia, instrumento da poltica exterior,  apenas uma frgil e formal ponte de papel estendida sobre o estreito rio dos interregnos de paz. s 
vezes  tambm espionagem. Outras, o minuete que precede a hecatombe...
   O tenente quedou-se um instante pensativo, recordando em snteses relampagueantes alguns dos horrores que presenciara durante aquele ltimo ano.
   - Est bem... - murmurou por fim. - Mas qual  a soluo?
   Ela encolheu os ombros.
   - No sculo passado, Nietzsche matou Deus e, conforme algum depois escreveu ironicamente, no fim da histria, Deus matou Nietzsche. Agora, em nossos dias, Deus 
parece estar novamente correndo srio perigo de vida...
   - Se a Tecnologia conseguir assassinar Deus - interrompeu-a ele - a Humanidade no sobreviver por muito tempo ao "funeral" de seu Criador.
   Calou-se. Partiu um pedao de po e engoliu-o com tanta dificuldade que sua casca lhe arranhou a garganta. O cften continuava a sorrir de longe para ele. A professora 
retomou a palavra:
   - A ideia da existncia de Deus no tem impedido que os homens, atravs de milnios, se tenham matado em guerras brutais. O importante, me parece, no  temer 
a Deus mas amarem-se os homens uns aos outros... ou pelo menos no se odiarem tanto, a ponto de recorrerem  violncia para resolver problemas de coexistncia.
   Ela tornou a acender um cigarro. O tenente notou que havia dentro do cinzeiro trs tocos consumidos pela metade. A professora soltou uma baforada de fumaa.
   E ento o oficial, que nunca fumara em toda a sua vida, lembrou-se das prdicas de seu pastor sobre os males do fumo. Como menino e adolescente, sempre associara 
sarro de cigarro com prostitutas, negras de beios e faces pintados, ostentando vestidos espalhafatosos.
   Uns quatro ou cinco soldados sem mulheres entraram na sala, falando em voz alta, vindos talvez de algum dos bares da cidade. A professora voltou a cabea, atrada 
pelas vozes. Um dos rapazes piscou-lhe o olho e fez-lhe uma saudao efusiva. Ela sorriu. Depois, passada a iluminao do sorriso, a face de novo sria, disse ao 
amigo:
   - Os homens sempre se imaginaram criados  imagem de Deus e portadores pelo menos de uma partcula divina.
   - Nessa iluso pelo menos fui educado.
   - Catlico ou protestante?         
   - Baptista.         
   - Ah!... Mas... como dizia, os homens se julgavam incumbidos de uma misso. Era como se tivessem guardado em alguma parte recndita de seu ser, um livro fechado 
e lacrado contendo as instrues de Deus, cujo texto completo ningum parecia conhecer de primeira mo. Um dia, digamos... agora, neste nosso sculo alucinado, resolveram 
abrir o livro e verificaram que continha apenas pginas em branco. Assim, no sabendo ao certo o que Deus quer, decidiram tomar seus destinos nas prprias mos. 
E comearam a fazer-se perguntas perturbadoras. Valia a pena ser bom? A tica teria um valor absoluto? Mais grave ainda: teriam os homens capacidade para salvar-se? 
Se Deus estava morto... ou permanecia escondido e omisso... quem seria o juiz Supremo? Assim; tenente, parece termos perdido nossa tbua de valores morais, no sabemos 
distinguir o bem do mal, o moralmente certo do moralmente errado. Fala-se hoje at numa "tica de situao"... que no fundo bem pode ser uma espcie de conveniente 
carta branca.        - Mas assinada por quem?        
   - No caso desta guerra, meu amigo, pelo seu Departamento de Defesa.        
   Ele riu. O garon aproximou-se com o cardpio, para que escolhessem a sobremesa. Ambos pediram gelados de baunilha e chocolate.
   Por alguns minutos ficaram a falar de coisas triviais: o calor, um filme que ela vira havia meses, as flores de seu jardim.        
   - Voc no comeu nada - observou ela, olhando para o prato do tenente, onde a salada jazia quase intocada.        
   - Estou sem fome nenhuma.        
   - Preocupado?        
   - Um pouco.        
   - Alguma coisa que me possa contar?
   - No quero entrar em assuntos pessoais.
   - Seja pessoal, por favor! H tempo que estou para lhe fazer uma pergunta de natureza ntima mas... no ousei.        
   - Faa. No importar muito o que conversemos esta noite. Acho que no nos veremos nunca mais.        
   - Bom. Porque  que vive nesta terra? Isto  um inferno e no entanto voc continua aqui. Se acha que no pode ou no deve responder, aceitarei o seu silncio, 
e vamos falar de outra coisa.        
   Notou que a amiga hesitava por um instante.        
   - Quer mesmo ouvir a minha histria? - Jogou o cigarro no cinzeiro e imediatamente acendeu outro. - Vou cont-la em poucas palavras: Meus pais casaram-se na terra 
deles e vieram para c. Foi aqui que nasci e cresci. Meu velho tinha uma plantao de ch nos arredores da cidade. Era um belo homem que lia muito, gostava de pintar 
e se entendia  maravilha com os nativos, que gostavam dele. Minha me era uma brava dona de casa, e os trs ramos felizes juntos. Eu tinha treze anos quando comeou 
a Segunda Guerra Mundial e dezoito quando a pennsula foi invadida por aqueles homenzinhos industriosos e eficientes que adoram o seu imperador. Bom, tenente, para 
resumir a histria, fomos postos os trs num campo de concentrao. Minha me morreu de disenteria e os invasores encontraram um pretexto para liquidar meu pai. 
- Fez uma pausa, encarou o tenente, numa expresso quase de desafio e, em voz mais baixa, acrescentou: - Fui violada por no sei quantos daqueles soldados repulsivos 
de cabelos negros e lustrosos, que se revezavam sobre o meu corpo e exprimiam o seu prazer sugando o ar com rudo. Foi horrvel. Eu quis morrer, fiquei  beira da 
loucura... Mas no se apiade de mim, tenente. Tudo isso se passou h mais de vinte anos. Estou viva.
   Ele estava contristado, no sabia para onde olhar. Ela continuou:
   - Bom, o pessoal da Cruz Vermelha conseguiu salvar o que restava de mim e me ps a bordo de um navio, rumo da ptria de meus pais, que no fim de contas era e 
 a minha... Fui viver com um tio paterno.
   O tenente mexia-se na cadeira, brincava com uma colher, pigarreava, de olhos baixos.
   - Vejo que est chocado, meu amigo. Por favor, no leve o meu caso demasiadamente a srio nem me considere cnica. Quem sabe se o que o escandaliza no  o caso 
em si e sim o facto de eu t-lo verbalizado to cruamente? Acho que no fundo temos mais medo s palavras do que s coisas que elas representam, e isso nos tem levado 
a equvocos tremendos. Pense bem, a sombra da rosa no  mais bela que a rosa. A sombra do bandido no  mais perigosa ou cruel que o prprio bandido. Na minha opinio 
(permita-me uma metfora) as palavras so as sombras das coisas, das pessoas, dos factos e das ideias que representam. A fidelidade da sombra com relao ao seu 
objecto... quero dizer: o tamanho, a forma, a intensidade, depende da posio do foco de luz, isto , o temperamento da pessoa e sua maior ou menor habilidade no 
uso da linguagem. Falei claro?
   Ele sacudiu a cabea afirmativamente.         
   - Agora deixe-me contar o resto. Eu era uma moa religiosa, uma catlica que costumava comungar pelo menos uma vez por semana... Quando me levaram para a casa 
de meu tio, descobri apavorada que estava grvida. Pode imaginar a minha situao? Devia deixar vir ao mundo um filho de ningum, concebido no momento mais traumatizante 
da minha vida, um ser que talvez eu jamais pudesse amar? Passei uma semana no inferno e, depois de uma terrvel luta de conscincia, decidi recorrer ao aborto, contra 
o conselho de meu padre confessor. Repito que me era insuportvel a ideia de ter um filho de um daqueles brutos. s vezes, nos meus piores momentos de confuso, 
eu imaginava, loucamente, que a criana era filha de todos eles, e que por isso seria um monstro de muitas cabeas. Procurei ento um mdico e, matei o feto...
   O proxeneta sorria como se estivesse ouvindo a histria e divertindo-se com ela. O tenente teve um mpeto de apanhar a garrafa de vinho e atir-la na cabea daquele 
sujeito odioso.
   - Mas  evidente - continuou a professora - que meus problemas no terminaram a. No tive nenhuma complicao de ordem fisiolgica, tudo correu bem. Mas pense 
na situao de uma catlica que comete um pecado desses... e que teme confessar-se, no por querer esconder o seu crime, mas por estar certa de que no poderia sinceramente 
dizer ao sacerdote que se arrependia dele. Fez uma pausa, meio ofegante. - Porque essa era a verdade, tenente. No me arrependia do que tinha feito, logo o padre 
no me poderia dar a absolvio. E sem essa absolvio era intil comungar. Assim, eu mesma me condenei  excomunho e isso para mim foi uma espcie de agonia crnica. 
Nessa poca me submeti a um prolongado tratamento psiquitrico que resultou na minha perda gradual do sentimento religioso, o que entretanto no me livrou at hoje 
de Deus. Restabelecida, fiz um curso universitrio. Estudei muitas matrias, sem saber ao certo o que queria. Meu tio morreu, e como no tinha mulher nem filhos, 
deixou-me como sua herdeira universal: imveis muito valorizados, aplices, algum dinheiro...
   - Mas porque voltou?         
   Ela sorriu, encolheu os ombros de leve.         
   - Dizem que o criminoso acaba sempre voltando ao lugar do crime. Mas eu lhe asseguro que s vezes a vtima tambm volta. Mas... falando srio, por mais absurdo 
que parea, senti uma certa nostalgia desta terra, desta gente e at mesmo deste clima. Na ptria de origem de meus pais eu me sentia como uma pea solta num mecanismo 
complicado. E, depois, no queria correr o risco de ser pelo resto da vida uma dessas almas penadas que vagueiam  noite pelos cafs e bulevares... Em 1950 voltei 
para c. No consegui reaver a plantao da famlia, mas as autoridades lembravam-se de meu Pai, permitiram que eu abrisse e mantivesse esse orfanato para meninas, 
que hoje  o centro de minha vida. E esta guerra, creio, tornou mais importante ainda o meu trabalho.
   O tenente mirou-a longamente, num misto de simpatia e admirao, mas concluindo que ter piedade daquela mulher to afirmada seria um insulto para ela.
   - E a sua vida... no  muito solitria?         
   - No. Tenho o meu trabalho. As minhas leituras. E as crianas.
   - Mas no tem amigos adultos?
   - Sim, mas no muitos nem ntimos.
   - Outra pessoa qualquer em seu lugar odiaria o gnero humano para sempre.
   Ela sorriu.
   - Para sempre? j mediu bem o tamanho dessa ideia? - Apagou no cinzeiro o quinto cigarro. - Houve uma poca em que cheguei a sentir repulsa por mim mesma, como 
se eu tivesse sido a culpada de tudo... Como  que me vou explicar? Como se me tivesse oferecido queles vorazes soldadinhos do imperador... - Calou-se, encarou 
o amigo e, ao cabo de alguns segundos, prosseguiu: - Bom, terminei minha histria. Agora conte a sua. Porque  que veio para c, se no  um militar profissional?
   Ele baixou a cabea, ficou a olhar para a bolinha de miolo de po que fazia rodar entre os dedos, como se ela fosse o cerne mesmo de seu problema.
   - Porque sou um covarde.         
   - Vamos, tenente, um covarde no vai para a guerra: foge dela.
   - Mas eu fugi da outra guerra.         
   - Que outra guerra?
   - No percebeu ainda que sou negro?         
   - A ideia nunca me passou pela cabea.         
   - E isso lhe faz alguma diferena?         
   - Porque havia de fazer?         
   - Na minha cidade natal uma mulher branca que fosse vista com um homem de cor num lugar pblico, teria complicaes sociais...
   - Ah! Compreendo, voc se refere  guerra racial. Mesmo assim no vejo porque sua vinda para c possa ter sido uma soluo...
   - No foi uma soluo, mas uma trgua. Um adiamento...
   - Em termos precisos, qual  mesmo o seu problema?
   - O da opo: unir-me aos que lutam pelos direitos civis do homem de cor dentro da lei, com as armas da persuaso... ou aos que pregam o uso violento do Poder 
Negro. No h neutralidade possvel. Quem no toma uma posio conscientemente, acaba sendo arrastado para um lado ou para outro.
   - Voc no me parece do tipo violento. Porque no colabora com o primeiro grupo?
   Ele hesitou antes de responder. Devia dizer tudo? Diabo! Fosse como fosse, no veria nunca mais aquela mulher.
   - O ponto crucial de meu problema  que eu no quero ser negro. No me sinto negro a no ser quando uma palavra ou um acto discriminatrio de um branco me lembra 
disso. Sei que poderia passar por branco em qualquer pas latino-americano... Mais ainda: no estimo a minha gente, no gosto do... do seu cheiro, dos seus traos 
fisionmicos, do seu jeito de falar... Envergonho-me do sangue que me corre nas veias.  duro ter que admitir tudo isso, mas  o que sinto, o que sou. No creio 
que o problema negro jamais tenha soluo no meu pas. As leis de integrao so apenas... palavras, palavras, palavras.
   O dio, o desprezo ou a repugnncia que os brancos sentem pelos negros  uma... uma doena herdada,, uma espcie de cncer com vrias metstases, e inopervel. 
E a violncia, por outro lado, s pode agravar a situao dos pretos... e dos brancos, tambm.
   A professora manteve-se em silncio, esperando que ele continuasse.
   - Eu estava desempregado, tenho um curso de Psicologia Aplicada, ofereceram-me esta comisso no Exrcito. Aceitei. Submeti-me a um treinamento especial... e vim 
para c.
   Sem erguer os olhos, e sempre em voz baixa, ele prosseguiu:
   - Minha me era branca. Meu pai, preto. Pouco antes de vir para este restaurante, estive recordando cenas de meu passado que ainda me perturbam.
   Resumiu a histria de sua infncia: seu apego  me, mesclado de um sentimento de vergonha e ressentimento por ela se ter casado com um negro; sua incapacidade 
de amar o pai...
   Recordou com pormenores a tarde em que fugira, covarde, deixando o velho nas mos dos brancos que o haviam atacado em plena rua. Sentia uma espcie de prazer 
doloroso e ao mesmo tempo inebriante em abrir-se, confessar-se e mesmo humilhar-se diante de outra pessoa. Era a primeira vez em toda a sua vida que fazia isso.
   - Eu lhe disse que sou baptista, fui criado nessa religio, mas s vezes invejo os catlicos por eles terem o recurso da confisso. De vez em quando  bom aliviar 
o peito... Para mim a absolvio no seria to importante como a catarse. No basta a gente confessar-se a si mesma. Ou ao vento...
   O garon aproximou-se e ficou ao lado da mesa, a esperar ordens.
   - Traga duas demi-tasses - pediu a professora, sem consultar o amigo.
   - Depois daquela noite terrvel que passou em casa gemendo as suas feridas, meu pai se matou. Fui eu quem o encontrou enforcado no quarto de banho. Quando dei 
com aquela viso, perdi os sentidos. Eu gostaria de poder dizer que desmaiei de dor, pela perda de um ser que eu amava. Mas devo ser honesto e reconhecer que foi 
o susto, o choque da surpresa e o pavor daquela coisa toda que me fez desfalecer e cair... Lembro-me de que quando recobrei os sentidos e pude me levantar, estonteado, 
de pernas bambas, o corpo de meu pai estava estendido no seu leito, metido na sua fatiota escura de domingo. Uma curiosidade mrbida me levou at perto daquela cama 
de casal que sempre fora um objecto enorme e terrvel na minha conscincia, pois nela minha me, uma mulher branca, dormia com um negro... Um leno cobria a cara 
de meu pai. Fiquei imaginando coisas. Sua pele devia estar cinzenta e no mais parda. Continuaria de fora a lngua arroxeada? E os olhos... teriam sido empurrados 
pelo doutor para dentro das rbitas? - O tenente estendeu a mo, cobriu com ela por um instante a mo da amiga. - Perdoe-me por eu lhe estar contando estas coisas 
desagradveis. Mas preciso desabafar com algum...
   - Fale, homem, fale - disse ela, e a expresso de seus olhos o encorajaram.
   - Pois l estava eu, junto do cadver do marido da minha me, pensando aquelas coisas todas, incapaz de um sentimento de simpatia humana, de amor... ou, pelo 
menos, de compaixo. j imaginou a crueldade de que  capaz um adolescente? Pior ainda: lembro-me de que estava ansioso por ver o velho dentro de um caixo, a caminho 
do cemitrio. Pensava j em mandar fumigar a casa, vender as roupas dele, fazer desaparecer por completo o cheiro de seu suor, todos os vestgios da sua negrido... 
No  cruel? No  terrvel? Era como se o pobre homem tivesse morrido de peste...
   O tenente calou-se e comeou a beber, distrado, da pequena xcara de caf que o garon pusera na sua frente.
   - Depois, o funeral... Era Vero. No cemitrio o ar estava pesado de perfume. Magnlias... O cu muito limpo. Lembro-me de detalhes sem importncia daquela hora. 
Uma liblula pousou sobre a tampa do caixo. As meias de minha me estavam muito frouxas em suas pernas finas. Decorei a inscrio de uma lpide prxima, o nome 
do morto, a data do seu nascimento e a da sua morte. (Era um cemitrio s de negros, naturalmente.) Quase pisei numa rosa amarela que estava no cho, quando caminhvamos 
para o porto do cemitrio. Eu estava de mos dadas com minha me, que ainda chorava, mas mal podia reprimir a minha alegria, que agora, mais do que nunca, sinto 
que era egosta, malvada... Naquele momento entrou no cemitrio um enterro puxado a jazz-band, com bandeiras, gente alegre a danar e a cantar. Era uma msica marcial, 
cheia de jbilo, com a qual o meu sentimento reprimido se identificou. Foi ento que tive um pensamento que at hoje me arde como uma queimadura na memria. Agora 
que ele morreu, minha me e eu podemos viver como brancos.
   - E foi o que aconteceu mesmo?
   O tenente sacudiu a cabea.
   - No. Minha me poderia ter voltado, como eu esperava e desejava, para a cidade onde viviam seus pais e reconciliar-se com eles e seu mundo. Mas no fez nada 
disso. Ficou onde estava. No gueto negro, conservando os mesmos amigos e os mesmos hbitos.
   - Eu a compreendo muito bem. Essa era a sua maneira de protestar contra a discriminao. j pensou que, procedendo assim, ela tomou uma posio na luta racial?
   - Sim, pensei. E isso me inquieta, porque estou ainda indeciso. Minha me tinha mais coragem que eu. E mais dignidade.
   - Onde est ela?
   - Morreu h trs anos. Foi enterrada perto do velho, naquele mesmo cemitrio...
   - E voc no pensou em que vindo para c podia ser morto?
   - Achei que isso podia ser tambm uma soluo. A professora acendeu o seu sexto cigarro. - Tenente, voc acredita no pecado?
   - Intelectualmente... no. Mas com o corpo e com essa parte do crebro que paradoxalmente parece imune  razo, acredito, sim, e como! A verdade  que estou numa 
confuso mental, especialmente depois de ter passado um ano metido nesta guerra. Tenho a impresso de que me estou desintegrando aos poucos, perdendo a identidade... 
Odeio este clima, no compreendo este povo e seria insincero se dissesse que gosto dele. Embarcarei amanh, de volta para casa. Devia estar feliz e no entanto sinto-me 
apreensivo, ambivalente. s vezes pergunto a mim mesmo quem sou, que  este mundo para onde fomos trazidos. Leio notcias de meu pas a respeito das exploses de 
violncia racial. L temos agora guerrilheiros urbanos negros. Aqui combatemos os que convencionamos chamar de vermelhos. Mas no sero, todas essas revoltas, l 
e aqui, fragmentos da mesma luta provocada pela incurvel estupidez humana? O desconcertante  que trinta por cento dos soldados de nossa tropa nesta frente de guerra 
so pretos. Isso tem sentido?
   Esperou que a amiga lhe dissesse alguma coisa, mas como ela permanecesse calada e aquela pausa de silncio se lhe tornasse um pouco opressiva, tornou a falar.
   - O pastor de nossa parquia disse uma vez num sermo dominical que o corpo  a casa da alma e por isso deve ser respeitado. Ora, eu acho que no caso dos pretos, 
o corpo  a penitenciria de seu esprito. E quem tem a chave que nos poder libertar? Os brancos?
   - No, no creio. Seria uma resposta simplria de mais. Os brancos de seu pas tambm vivem numa penitenciria que eles mesmos construram com o feio cimento 
de seus preconceitos. Devem por sua vez achar que a chave da sua liberdade est em poder dos chamados homens de cor.
   - Quem tem ento a chave? Talvez Deus. Mas Deus parece ser neutro na questo. Deus no tem pele.
   Ela sorriu tristemente.
   - Fale-me da sua mulher.
   - Para principiar,  uma quadrarona...
   - Qu?
   - Uma pessoa que tem um quarto de sangue negro.
   - Ridculo! Voc mesmo faz o jogo dos "brancos" avaliando as pessoas de acordo com os valores deles. Porque usar essa nomenclatura absurda e deprimente? Porque 
no comeou por dizer como  a sua mulher como um ser humano?
   -  bonita, inteligente, boa companheira...         
   - Ento que  que h de errado com o seu casamento? Deixou de gostar dela?
   O tenente emborcou a xcara de caf e sorveu todo o seu contedo como quem toma um licor forte para cobrar coragem. Era singular: achava mais fcil confessar 
quela mulher estranha e estrangeira os seus sentimentos para com o pai e a me do que contar-lhe suas relaes com K. Era como se estivesse diante da esposa legitima.
   - Passei os meus primeiros meses neste pas na mais absoluta abstinncia sexual. Um dia, solitrio e meio triste, faminto de companhia feminina, fui a um desses 
sales pblicos de dana e l encontrei uma moa... uma nativa. Dancei com ela e meia hora mais tarde estvamos na cama, depois de eu ter discutido preos, quase 
morto de vergonha, com o seu proxeneta, que me exigiu o pagamento adiantado de uma determinada soma... um sujeito que abominei desde o momento em que o vi. - O tenente 
baixou a cabea e a voz, e acrescentou: - Por sinal o homem est nesta sala,  sua esquerda, na mesa do centro...
   A professora voltou a cabea disfaradamente para a direco indicada, lanou um rpido olhar para o traficante de mulheres, que estava a comer com uma colher 
a cremosa polpa de uma manga. Tornando a encarar o amigo, murmurou:
   - Conheo o tipo. Um dia teve a audcia de ir  minha casa para me fazer uma proposta. Queria simplesmente incluir meu nome na lista das "moas que utilizavam 
seus servios".
   - Qu? Mas no  possvel!         
   - Que  isso, tenente? Me acha assim to velha e feia?         - A coragem do canalha!         
   - Ora - sorriu ela -, esse homem  um realista frio, sem a menor sensibilidade moral. Ele me fez sua proposta baseado no princpio, desgraadamente vlido, de 
que ningum ou, melhor, muito pouca gente no mundo recusa a oportunidade de ganhar mais dinheiro... Viu-me sozinha, sem homem, e fez l os seus clculos. Sabe o 
que me contou? Que entre seus clientes existe gente de todos os gostos. Uns preferem meninas impberes, outros moas entre quinze e vinte, mas s vezes  tambm 
procurado por cavalheiros de meia-idade que se inclinam pelas mulheres maduras como eu. E no  raro aparecerem fregueses que s gostam de rapazes.
   - Mas voc no botou esse ordinrio para fora de sua casa, a bofetadas?
   - No. Se a sua proposta tivesse tido o poder de me indignar a esse ponto, isso poderia significar que existe escondida dentro de mim, reprimida, a semente de 
um desejo que, a proposta do alcoviteiro podia fazer germinar. A coisa toda era to absurda que nem me tocou... Antes de retirar-se, o homenzinho me deixou um carto 
de visita, com nome e endereo, para "o caso de eu mudar de ideia". Pois esse pilar da sociedade, tenente, e centenas de outros que, como ele, traficam com prostitutas 
e entorpecentes ou fazem o mercado negro, so parte do complexo poltico e econmico que vocs querem manter a qualquer preo... Mas continue a sua histria. Voc 
ento foi para a cama com a moa... E depois?
   - Sim - balbuciou ele, meio desconcertado. - Tornei a estar com ela muitas vezes num quarto alugado  hora, nos altos do Caf Caravelle. Uma mulher que trabalha 
para esse co faz a cobrana  entrada. Sou obrigado a consumir bebidas a preos exorbitantes. Tudo isso  muito srdido. Bom, mas o pior  que... que... no sei 
como vou me explicar...
   A professora ajudou-o a terminar a frase:
   - O pior  que isso que devia ser apenas um fortuito encontro de corpos para sua satisfao sexual, se transformou noutra coisa. Voc est interessado sentimentalmente 
na rapariga, no  verdade?
   - Exactamente.
   - Como se chama ela?
   - No consegui aprender seus dois nomes. O primeiro me soa como uma letra do alfabeto: K.  esse o "nome" que lhe dou. Curioso, quando menino eu associava essa 
letra ao ttulo da sociedade secreta que no Sul de meu pas persegue os negros. Seus adeptos usam vestes brancas, escondem a cara e a cabea sob um capuz cnico 
e alto, que me lembra as figuras da Inquisio que eu via em livros e revistas... Sim, os inquisidores que queimavam os hereges. Por muito tempo herege, foi uma 
palavra que associei  figura de minha me, desde a noite em que membros daquela sociedade traaram uma cruz de fogo na relva,  frente de nossa casa. Temi que quisessem 
queimar minha me... - Calou-se perdido em recordaes. - K sempre foi para mim uma letra macabra. Agora simboliza a mulher que me inspira... afeio. No  engraado?
   - Perdeu ento a conotao sinistra?
   - No creio. Tenho o pressentimento de que, de certa maneira, mais cedo ou mais tarde, serei castigado por sentir o que sinto por essa moa. As palavras podem 
ser sombras, mas que fora possuem essas sombras! Que magia!
   - De acordo. Mas devemos defender-nos de toda palavra, toda linguagem que nos desfigure o mundo, que nos separe das criaturas humanas, que nos afaste das razes 
da vida.
   - Como? Como?
   - Ora, fazendo exerccios. Repita uma palavra muitas vezes, muitas vezes, at que ela perca o seu sentido. Quando o som K deixar de significar os fantasmas da 
sua infncia e mesmo no simbolizar mais as suas relaes "pecaminosas" com essa menina... a pessoa dela ainda estar  sua espera (sem nome, pouco importa!) nos 
altos do Caf Caravelle. Se, por outro lado, voc no vencer o medo que lhe inspiram as iniciais ou o nome dessa monstruosa sociedade secreta, como  que vai ter 
coragem de enfrent-la no plano fsico?  com palavras, smbolos e metforas que os demagogos nos hipnotizam e os ditadores nos dirigem e dominam,  ou no ?
   Ele sacudiu afirmativamente a cabea, olhou em silncio a prpria imagem reflectida e deformada no cncavo de uma colher.
   - E qual  mesmo o seu grande problema com K.? Ela gosta de voc?         
   -  inacreditvel, mas no sei. Tive medo de perguntar. Se perguntasse, possivelmente ela me diria uma mentira amvel, profissional. De resto, mal nos comunicamos 
verbalmente. No sei mais que uma escassa dezena de palavras e frases da lngua dela. Ela sabe muito pouco, quase nada, da minha. Entendemo-nos... e s vezes nos 
desentendemos com gestos. O que mais me preocupa  que, sentindo o que sinto por essa...
   - Diga logo sem medo: prostituta. No se trata de um adjectivo, mas de um substantivo que designa uma profisso.
   -... sim, estou traindo a minha mulher. Por outro lado me entristece, e s vezes revolta, saber que K. recebe apenas uma parcela mnima do que pago por ela ao 
sujeito que a explora. Tambm me fere a ideia de que ela faz comigo o mesmo que faz com centenas de outros homens... Hoje mesmo K. j deve ter entregue o corpo a 
muitos outros.        
   - Isso  cime ou compaixo. 
   - Creio que ambas as coisas.
   - Se voc pudesse estar certo de, que sente por essa pobre menina mais compaixo do que cime, eu passaria a depositar todas as minhas esperanas na sua salvao, 
tenente. Mas no me pergunte o que entendo precisamente por salvao.
   - Ouvi dizer que aos doze anos, veja bem, doze anos, durante a guerra de 54, K. foi violentada por um soldado de seu pas, minha amiga, um mercenrio branco... 
No dia em que me contaram isso fiquei to inibido que nem a pude tocar...
   - E voc no pensou na analogia que existe entre. K. e esta terra? Hoje no sero vocs os violadores?
   - Por favor, no aumente a minha confuso!
   Ela fez um gesto de paz: estendeu a mo por cima da mesa e tocou rapidamente o brao dele.
   - Est bem - disse. - Mas encaremos os factos. Voc volta amanh para casa. Isso significa pelo menos o fim de seu caso com K. no plano carnal. O tempo tomar 
conta do resto.
   Ele sacudiu a cabea repetidamente, de um lado para outro, como se quisesse espantar uma mosca importuna. E de sbito apanhou o copo, onde restava algum vinho, 
levou-o  boca, e esvaziou-o num nico sorvo.
   -  estranho, mas desde hoje de manh estou com o pressentimento de que no chegarei a embarcar... porque alguma coisa de mau me vai acontecer.
   - Tire isso da cabea! Ser que j se deixou contaminar, pelo esprito supersticioso dos nativos?
   Pausa na conversao. O tenente olhou para o seu relgio-pulseira. A professora interpretou o gesto.
   - Tem encontro marcado com ela esta noite?
   Ele esteve a ponto de mentir que no.         
   - Sim, dentro de quinze minutos. Vou dizer-lhe adeus.
   Fez um sinal para o garon e, quando este se aproximou, pediu-lhe a conta. Olhou para a amiga:
   - No sei como lhe agradecer...         
   Ela o interrompeu com um gesto.         
   - No me agradea... Trocmos confisses. Creio que fizemos algum bem um ao outro. - Mudou de tom. - Estou com meu carro  porta do restaurante. Quer que o leve 
at ao Caravelle?
   - No, obrigado. Prefiro ir a p.         
   - Compreendo. Vai em companhia de seus fantasmas... Mas, por favor, no leve muito a srio o que eles lhe disserem. Temos de nos convencer de que nossa memria 
nem sempre  boa amiga.
   Paga a despesa, encaminharam-se ambos para a porta do salo. Ao passar pelo proxeneta - que entesou o busto e sorriu, esperando talvez um cumprimento - o tenente 
sentiu um caloro no corpo inteiro e teve mpetos de esmagar o verme. (Menino: o jardim hmido, o limo, a lesma, a gosma na sola do p.) A professora tomou-lhe do 
brao com certa ternura:
   - Haja o que houver, tenente, lembre-se de uma coisa.  preciso a gente apprender a viver em paz consig mesma e seu passado. E tambm devemos (porque no?) incluir-nos 
a ns mesmos no nmero daqueles a quem precisamos perdoar...
    porta de L'Oiseau de Paradis, ao apertarem-se longamente as mos na despedida definitiva, a professora alou-se na ponta dos ps e beijou-lhe uma das faces.
   Sair do interior do restaurante para a rua foi como deixar bruscamente as leves e frescas guas de uma piscina para mergulhar num mar espesso e estagnado de leo 
quente. O tenente sentiu logo, no corpo e no esprito, o peso da noite. Os altos coqueiros que orlavam a avenida,  beira do canal, estavam imveis. Luzia no cu, 
baa como um olho insone, uma lua cheia cor de melo. Vinha de longe - dez quilmetros? quinze? - um troar de canhes.
   Ele comeou a andar lentamente na direco do Caravelle. O suor escorria-lhe pelo rosto e pelo torso, empapando o bluso. Chegavam at ele, misturadas, as emanaes 
do rio: cheiro de gua e madeira apodrecida temperado enjoativamente pelo aroma de flores-de-lotos. O tenente se viu com dezasseis anos entregando, entre orgulhoso 
e canhestro, o caderno de composio literria ao seu professor: tinha escrito um poema em que comparava a lua cheia com um luminoso loto boiando no lago azul do 
cu... Agora estava enfarado de lotos. Desde que chegara quela cidade era perseguido pela flor simblica. Por toda a parte via desenhos, bordados ou relevos com 
motivos inspirados no loto. Via flores-de-lotos nos vasos. Lotos nos fossos da cidadela. Lotos nos lagos dos jardins. Comia sementes de lotos no arroz. A cidade 
s vezes lhe parecia uma mulher suja que se perfumava de essncia de lotos para esconder o fedor de suas podrides.
   O tenente pensava na mulher de quem acabara de despedir-se. Que significao teria aquele beijo? Ternura de irm? Talvez compaixo... Ele no podia acreditar 
na ternura, mas recusava a compaixo. Queria amor, isso sim, no piedade. Fosse como fosse, a professora ficara para trs. Nunca mais! Ia agora ver K., teria a rapariga 
nua na cama... a ltima noite. Depois K. seria tambm apenas uma imagem na memria, uma figura que se iria desbotando aos poucos, lavada pelas guas do tempo. A 
vida era muito estranha...
   Passou por uma janela aberta, vislumbrou no interior da casa um altar onde se queimava incenso. A fumaa chegou-lhe s narinas, lembrando-lhe um dia em que, adolescente, 
entrara por curiosidade na nica igreja catlica existente na cidade onde vivia, e assistira a uma missa inteira, deslumbrado pelo ritual, os paramentos do padre, 
a msica do rgo, o fulgor do ostensrio, o mistrio da comunho - o corpo e o sangue de Cristo - e depois voltara para casa com um sentimento de culpa por haver 
trado a sua prpria religio, desejando ajoelhar-se diante de seu ministro para confessar aquele pecado e outros, muitos outros que o atormentavam, mas sabendo 
ao mesmo tempo, frustrado, que na sua igreja no havia confessionrio.
   A dor de cabea lhe voltara, era agora uma espcie de dor opaca, que lhe tomava todo o crnio. Apalpou um dos bolsos do bluso e certificou-se de que tinha ali 
comprimidos de aspirina: engoliria dois deles logo que chegasse ao quarto onde K. o esperava. Tacteou o outro bolso e sentiu o duro relevo do estojo que continha 
o anel... Turquesa. Os olhos da professora. Pensou nos soldados amarelos a se revezarem disciplinados sobre o corpo dela, como se cumprissem uma tarefa militar: 
sugavam o ar e chupavam os dentes para exprimir convencionalmente o seu gozo. Teve pena da amiga. Como tudo aquilo era triste, srdido e ao mesmo tempo gratuito! 
 preciso a gente aprender a viver em paz consigo mesma e seu passado.. Ela lhe beijara a face... mesmo sabendo que ele tinha sangue negro nas veias. As palavras 
so as sombras das coisas. Talvez. Mas as palavras podiam ferir. As palavras s vezes matavam.
   As luzes da cidade estavam amortecidas. As pessoas que passavam na calada pareciam figuras de sonho. Um que outro automvel ou velotxi rodava ao longo da avenida. 
A Lua parecia segui-lo como um implacvel olho sem plpebra.
   Passou a uma esquina por trs fuzileiros negros. Ouviu um deles exclamar: "Terra do diabo! Quem me dera estar em casa agora!" Era assim - reflectiu, atravessando 
a rua -, aqueles homens de cor no podiam viver muito tempo longe da ptria que os repudiava. Artistas e intelectuais negros de sua terra visitavam a Europa, onde 
geralmente eram tratados como seres humanos, aceitos em quase todos os lugares. Dormiam at com mulheres brancas. Falavam e escreviam furiosamente contra o seu pas 
natal, mas acabavam sempre voltando para l, pois no suportavam a falta daquela terra onde eram considerados apenas cidados de terceira classe. (Os ces e gatos 
de estimao eram os de segunda.) E pela primeira vez naquele dia o tenente sentiu, intenso, o desejo de voltar para casa, fugir daquele pesadelo asitico, gozar 
de novo dos confortos, das mquinas, da bem organizada rotina da vida de seu pas de origem. Pensou na prpria esposa com remorso. Imaginou que o filho caminhava 
agora a seu lado, com a cabea enfaixada em ataduras sangrentas. Aonde vais, papai? Vou dormir com uma vagabunda. Escuta o que te digo, eu, teu pai, sou um traidor. 
Tra meu prprio pai. Tra minha me. Tra minha raa. Agora vou trair mais uma vez minha mulher, tua me. Vai-te daqui! Talvez hoje eu faa um filho na rameira. 
A terei trado a ti tambm. (Como podia pensar essas coisas que realmente no sentia?) O suor continuava a escorrer-lhe cada vez mais abundante pelo corpo todo. 
Tirou do bolso o leno e passou-o repetidamente pela cara. Ao chegar  esquina de uma praa avistou o letreiro luminoso do Caf Caravelle, azul e vermelho. Parou, 
sentindo de repente a estranheza e a improbabilidade daquela situao. Ele, naquele lugar, quela hora, naquelas circunstncias... Ia para os braos de uma prostituta, 
uma figurinha como as que ele vira tantas vezes, encantado, nas gravuras coloridas dos livros da adolescncia: esbeltas, delicadas, em seus pijamas negros, os rostos 
meio sombreados pelos chapus cnicos... Quem sou eu? - perguntou-se a si mesmo. Trazia no bolso os papis de identidade com o seu nome e nmero. O nmero era de 
certo modo mais importante que o nome. No estaria longe o dia em que os homens todos fossem apenas nmeros num computador descomunal. E esse computador bem poderia 
ento transformar-se no deus de uma nova era.
   Mais de uma vez, quando estava com K. na cama, pensara na possibilidade de ser apunhalado pelas costas por um inimigo que se esgueirasse despercebido para dentro 
do quarto. Imaginou-se morto, completamente nu, sem qualquer documento de identidade, estendido no fundo de um beco ou boiando nas guas do rio... A pessoa que o 
encontrasse veria logo:  um homem. Se fosse um compatriota seu, acrescentaria: de raa negra. Seu cadver seria metido na gaveta da geladeira do necrotrio, onde 
aguardaria identificao. Mas se lhe descobrissem o nome ou o nmero, nem por isso ele recuperaria a vida. No seria a identidade de uma pessoa mais que uma combinao 
de letras, sons e algarismos?
   Tornou a pensar na professora. Sombras... Pronunciou baixinho o prprio nome, muitas, muitas vezes, at que aquela combinao de fonemas perdeu todo o sentido. 
Fez o mesmo com o nome daquela cidade e o daquele pas. Depois, lentamente, sentindo uma leve contraco de garganta, atravessou a praa na direco do caf.
   Ouvia-se ainda a trovoada longnqua do canhoneio.
   Entrou no caf, onde soldados e civis bebiam, sentados s mesas ou de p, junto ao balco, quase todos acompanhados de mulheres nativas. Uma electrola automtica 
enchia, o ar da estridncia de guitarras elctricas e das vozes guturais de um quarteto misto que, para o tenente, parecia repetir, numa obsesso desesperada, a 
mesma frase de trs palavras. (Quantos dos homens que ali estavam haviam j dormido com K.?)
   Aproximou-se da caixa. A madama sorriu-lhe com seus dentes podres. Metida numa bata negra, era gorducha, tinha a cara muito pintada e um princpio de calvcie 
que lhe abria clareiras no couro cabeludo oleoso.
   - Ah! O senhor tenente! Boa noite. A menina j est l em cima  sua espera. - Olhou para o relgio de parede.
   - O senhor chegou trs minutos atrasado. Sua hora termina s dez em ponto. Cada minuto extra lhe custar dinheiro.
   - Quanto lhe devo? - perguntou ele, evitando encar-la.
   - Ah! Ela me disse que o senhor vai embora amanh, no?
   -  verdade.
   - Para sempre?
   - Sim.
   - Mas ento esta noite  muito especial. Meti no gelo uma garrafa grande de champanha. Mas, por favor, no quebrem as taas, sim? O patro no gosta disso. Ontem, 
l em cima, um soldado quebrou o copo depois de beber.
   O outro homem que mais tarde usou o quarto, cortou-se. Tinha ficado um caco na cama...
   - Est bem! Est bem! Diga logo quanto tenho de pagar.
   - Vamos ver... - Como de costume ela ficou um instante a manejar o baco, movendo as contas com destreza, enquanto ele esperava, soltando suspiros de impacincia. 
- Pronto, senhor tenente!  pouco. Est tudo includo: o quarto, a bebida e a moa.
   Ele achou a soma exagerada mas pagou sem discutir. Deu uma gorjeta  madama, que fez uma inclinao de cabea, exclamando:
   - Desejo que toda a fora do tigre branco esteja esta noite em seu corpo, senhor oficial!
   Apanhou a bandeja com a garrafa de champanha e as taas e encaminhou-se para o andar superior. Ele a seguiu. A escada estreita cheirava a mofo e rangia. O quarto 
ficava imediatamente por cima do salo principal do caf.
   - Adiante! - ordenou o tenente. - Deixe a bandeja em cima da mesa e saia em seguida.
   S entrou no quarto depois que a mulher desceu.         
   Num vestido cor de rosa-ch, K. encontrava-se de p junto da janela, a olhar para fora. Quando o tenente entrou, ela voltou a cabea, sorriu e caminhou para ele 
de braos estendidos. Ele lhe tomou das mos e beijou-as. (O sexo de quantos homens estes dedos tero acariciado hoje?) Estreitou-a depois contra o peito, sentiu-a 
frgil e pequena, e isso o enterneceu. Como de costume, a cabea dela aninhou-se-lhe no peito e ali ficou como se tivesse encontrado o seu lugar definitivo. Ele 
lhe beijou os cabelos, depois o lbulo das orelhas, o pescoo, o queixo e finalmente os lbios, longamente. Imaginou, num arrepio desagradvel, que estava indirectamente 
beijando a boca de centenas de homens desconhecidos. Eram lbios pblicos, aqueles. Tinham um preo. De novo apertou a rapariga contra o prprio corpo. (Estarei 
cheirando mal? Ela sentir nojo de mim? E dos outros?) Ficaram assim enlaados por alguns instantes, enquanto, despedindo-se, ele olhava em torno do pequeno quarto: 
o papel da parede, j descascado em alguns pontos - narcisos contra um fundo de folhas secas -, as cortinas verdes desbotadas, o tapete pudo, o pequeno guarda-roupa 
com espelho na porta, a coberta de oleado da mesinha, em xadrez rosado... E l estava tambm a cama de ferro que sempre lhe lembrava a de seus pais - tudo isso mal 
iluminado pela luz de um bico de luz elctrica, nu e encardido, que pendia de um fio, do centro do tecto.
   Via-se que a cama havia sido arrumada s pressas, a colcha mal esticada. Era improvvel que tivessem mudado o lenol. Iam, pois, deitar-se sobre o suor de outros 
corpos, e possivelmente haveria naqueles panos manchas do smen de outros homens. (Brancos? Negros? Amarelos?) Talvez a prpria K. tivesse sido a ltima mulher a 
entregar seu corpo naquele leito.
   - Voc est bem? - perguntou ele ao ouvido da moa.         
   - Bem - respondeu ela. E, erguendo o rosto, perguntou: - Amanh?
   - Amanh. Meio-dia.
   - Estou triste. Muito triste.
   Seria mesmo de genuna tristeza a expresso que via no rosto dela ou apenas um simulacro, um mero movimento de msculos estudado diante do espelho? No podia 
esquecer que K., afinal de contas, era uma profissional, e uma das regras de seu jogo era dar sempre ao homem com quem estava, se no a certeza de que ele era o 
nico, pelo menos a iluso de que era o mais querido. Sabia que ela nascera do outro lado do rio, nos arrozais, e que seus pais eram camponeses. Muitas moas de 
sua profisso tinham a mesma origem humilde e a misria as levara  prostituio. Moravam agora na cidade e algumas delas eram amantes exclusivas de oficiais brancos. 
O proxeneta de K., porm, achava que podia fazer mais dinheiro com o corpo dela vendendo-o a varejo.
   O tenente libertou a moa de seu abrao, tirou do bolso o pequeno estojo e abriu-o.
   - Para voc.
   K. apanhou o anel e, sorrindo como uma menina que acaba de ganhar um brinquedo, enfiou-o num dos dedos, murmurando:
   - Bonito. - Ergueu os olhos. - Obrigada!         
   Nesse ponto pareceu que seu vocabulrio se esgotava. Seus olhos eram como duas luas escuras - pensou ele. Uma franja negra e lustrosa cobria-lhe parte da testa 
arredondada. O rosto era quase triangular, largo  altura das zigomas, o nariz curto. O lbio superior lembrava vagamente o desenho do telhado de um pagode.
   Ele se encaminhou para a mesa, encheu as taas de vinho, deu uma delas a K. e ficaram ambos por algum tempo a beber em silncio. O champanhe parecia legtimo, 
concluiu ele, engolindo dois comprimidos de aspirina. (Que percentagem teria K. naquela garrafa?) Tornou a beber, dessa vez um gole mais largo, e pensando em que 
o lcool no ia contribuir em nada para lhe clarear a cabea. Apontou para o anel:
   - Ele... aquele homem... compreende? - Formou um crculo com o polegar e o indicador e levou-o aos olhos, para dar a ideia de culos. - No vai tirar de voc 
esse anel?
   K. arregalou os olhos, como se no houvesse entendido o que ele dizia. O tenente repetiu a pergunta, em outras palavras e com diferente mmica. Ela encolheu os 
ombros. Deps a taa sobre a mesa e bateu repetidamente com a unha do indicador, no mostrador do seu relgio-pulseira.
            - O tempo...         
   Era outra palavra importante de seu vocabulrio na lngua daqueles homens brancos que compravam amor  hora. Fez meia volta, encaminhou-se para o quarto de banho 
e fechou a porta atrs de si. O tenente desabotoou o bluso, despiu-o e jogou-o para cima de uma cadeira. Agarrou a colcha da cama, puxou-a, e saiu a andar pelo 
quarto, enxugando com ela o pescoo, as costas e o peito. Tudo aquilo, visto, ouvido e sentido atravs de sua dor de cabea e de seu estonteamento comeava a parecer 
um sonho doido. O canhoneio longnquo, os sons da electrola automtica l em baixo, as risadas e as exclamaes dos soldados, os gritinhos das mulheres...
   Sentou-se numa cadeira, com a colcha cada aos ps, e ficou a acompanhar com o olhar os movimentos de uma barata que subia na parede fronteira. Lembrava-se de 
uma certa noite, naquele mesmo quarto, durante a estao das chuvas. Ele ficara abraado com K. na cama, ouvindo o' aguaceiro bater no telhado de zinco. Chovia incessantemente 
havia duas semanas, e a gua caa em torrentes de um cu de ardsia, com uma violncia de dilvio. Ele tivera de sair em vrias misses pelas aldeias circunvizinhas, 
atolando-se em lamaais - um barro gordo grudado nas botas, no uniforme, na pele... Parecia-lhe que, sob a chuva, tudo inchava - as rvores, a terra, as madeiras, 
as casas, as pessoas. Os prprios guerrilheiros inimigos proliferavam como cogumelos brotados da terra empapada. Na cidade as paredes internas dos edifcios porejavam 
gua, recendiam a mofo. Os lenis das camas estavam permanentemente hmidos. E sempre o calor, os mosquitos e aquela impresso de que o mundo ia dissolver-se sob 
a chuva, e o prprio crebro da gente acabaria transformando-se num mingau aguado...
   Poucos minutos depois, K. saiu do quarto de banho completamente nua, os braos cados ao longo do corpo. Era esbelta como uma adolescente, os quadris estreitos, 
os seios midos. Apagou a luz da lmpada central, acendeu a da mesinha-de-cabeceira, subiu para a cama e ficou sentada no centro dela,  maneira oriental. Ele tornou 
a ver a estudante da manh envolta em chamas. K. olhava para ele, serena, esperando. Seu corpo despedia uma certa luminosidade. Era como uma esttua de cobre brunido. 
(Ele descobrira uma noite, divertido, que seu umbigo parecia a minscula estilizao de uma flor-de-loto.) A delicadeza de seu sexo, quase to fechado como o de 
uma virgem, sempre o comovia. (Seu dedo costumava brincar com a prola da ostra, dentro da concha.) Ele continuou a contempl-la, ofegante, mas com a carne estranhadamente 
esvaziada de desejo. Imaginava K. com doze anos, na sua choupana, nos arrozais. O mercenrio branco, enorme, derrubava-a... Ouviu os gritos lancinantes da menina, 
sentiu que o homem lhe rasgava as entranhas - suado, brutal, arquejante, gemendo de gozo, e depois a deixava ensanguentada e sem sentidos entre as runas dos ranchos 
reduzidos a cinzas, e se ia para outras carnificinas e estupros. enquanto as bombas lanadas pelos avies de seu exrcito mercenrio continuavam a brbara violao 
daquela terra e daquela gente.
   K. sorria, esperando. O tenente sentia-se como na sua noite nupcial. Uma virgem esperava-o na cama de seus pais. isso o inibia.
   - Vem - murmurou ela.
   Ele no respondeu nem fez o menor movimento. Era como se estivesse paralisado por um sortilgio qualquer. To pequena - pensou -, to frgil. Como  que tem foras 
para suportar esta vida? Por quanto tempo mais poder andar como uma mercadoria de aluguel, de mo em mo? Veio-lhe, ento, um pensamento to pungente, que o deixou 
de olhos hmidos. Quando ela envelhecer e perder a graa, o seu proxeneta se descartar dela como quem joga fora uma escova de dentes gasta e intil. K. ir baixando 
de categoria, acabar como prostituta de beira de cais. Por fim, velha, desdentada, doente, voltar para os arrozais para l morrer... E nesse dia, nesse dia onde 
estarei eu, Deus meu? Seria melhor que ela se consumisse agora numa labareda purificadora, como a estudante budista. Antes da queda, antes da velhice e da decomposio...
   O sangue subia-lhe  cabea, turbulento. No devia ter bebido. De qualquer modo, agora era tarde de mais. K. ainda lhe sorria, punha de novo o indicador sobre 
o relgio-pulseira, chamando-lhe a ateno para a passagem do tempo.
   Ergueu-se com acanhada relutncia, deu alguns passos, sentou-se na beira da cama, acariciou os cabelos da rapariga. Puxou-lhe a cabea, aninhando-a no ngulo 
entre o brao e o antebrao esquerdos e, enlaando-lhe a cintura com o brao direito, beijou-lhe a boca de leve, bem de leve, como temendo machuc-la. No seu beijo 
havia uma ternura sem desejo. Era curioso. Parecia anestesiado da cintura para baixo. A simples ideia de penetrar aquele corpo causava-lhe um arrepiado constrangimento. 
Ela era uma menina de doze anos. Sua irm menor. Ento K., percebendo a sua indeciso, procurou excit-lo com sua tcnica de profissional, mas sem resultado. Quis 
repetir as carcias, mas ele a deteve, exclamando "No!" quase colericamente. Entrou no quarto de banho, despiu-se, saltou para dentro da banheira, tomou uma ducha 
rpida, usando o chuveiro manual que lembrava ridiculamente um telefone, enxugou-se, voltou para o quarto e deitou-se ao lado de K. "Doente?", - perguntou ela. Ele 
sacudiu a cabea vigorosamente, negando. - Aquela impotncia, que sabia temporria, longe de envergonh-lo, dava-lhe uma sensao de pureza que de certo modo o gratificava. 
Comeou a acariciar a rapariga, cuja epiderme tinha a maciez e a textura de uma ptala de magnlia. (O cemitrio, a cova do pai, o jazz-band, as meias da me.) Brincou 
inocentemente com os bicos dos seios dela, fazendo-a rir. (E aquele riso? Significaria que ela sentia prazer... ou ria porque tinha aprendido que uma mulher deve 
fingir que se excita quando lhe bolem nos seios, e que a melhor maneira de revelar excitao  rir baixinho, como se tudo fosse um brinquedo?) Espalmou a mo no 
ventre magro da rapariga, explorou com dedos esfrolantes o bosque do pbis, apalpou os msculos elsticos das coxas e, enquanto fazia isso, pensava em que aquela 
era sua ltima noite com K., e as lgrimas (ou seria apenas suor?) escorriam-lhe pelas faces, e o corao se lhe apertava (a vida era mesmo uma histria contada 
por um idiota), e as tmporas continuavam a pulsar, enquanto longe o bombardeio continuava, e l em baixo guinchavam as guitarras elctricas, e ali, no quarto, a 
barata agora caminhava no tecto. Via os dedos dos ps de K. minsculos, unhas rosadas, junto dos seus enormes ps mulatos, e uma liblula de asas iridescentes pousava 
no caixo de seu pai, e as meias pregueavam-se frouxas nas pernas de sua me, e a inscrio da lpide lhe voltava ntida  mente... e havia uma rosa cada no meio 
do caminho e a professora dizia que a compaixo o poderia salvar... E de repente sua mulher e seu filho estavam tambm ali no quarto, aos ps da cama, e ambos olhavam 
a cena, e havia sangue nas ataduras da cabea do menino, e o silncio de ambos era uma acusao mas - engraado! - ele no se preocupava com aquilo, e sua mo voltava 
a acariciar o rosto de K... Comeou a dizer-lhe em surdina, ao ouvido, palavras de grande amor e de grande ternura que ela no podia entender, e por isso ria, ria 
baixinho, ela a menina que tinha sido violentada por um mercenrio brutal... e a vida era absurda, e ele decerto no passava de uma personagem sem nome num pesadelo 
de Deus... e uma grande canseira tomava-lhe conta do corpo e ento cerrou os olhos enquanto K. lhe acariciava os cabelos, enxugava o suor do rosto com a ponta do 
lenol, vernica... vernica... e comeou a cantar-lhe baixinho uma cano cuja msica ele no podia compreender... uma melopeia que ele j ouvira tocada em flauta 
por um pescador... triste, triste... e buscava seguir a linha meldica mas esta lhe fugia como um pssaro arisco... uma ave-do-paraso, perseguida, ferida, destruda 
por soldados amarelos que chupavam os dentes, faziam mesuras diante de seu imperador, enquanto uma guitarra enorme enchia o mundo com sua estridncia endoidecedora, 
e tudo escurecia no final dos tempos e era bom descansar, dormir, no despertar mais...
   Estavam iluminadas as trs janelas centrais do sexto andar do Hotel du Vieux Monde. Eram as do apartamento do coronel. Metido num pijama de tecido leve, andava 
ele a caminhar de sala em sala, acendendo as luzes, como se procurasse algum ou alguma coisa. Tinha feito vrias tentativas frustradas para dormir. Sentia uma canseira 
profunda que o quebrantava at aos ossos, e estava ao mesmo tempo excitado como se houvesse ingerido uma dose macia de dexedrina. Entrou no banheiro, humedeceu 
os olhos e, distrado, mais uma vez escovou os dentes, fez um gargarejo de gua com dentifrcio. Olhou para o espelho, quase sem se reconhecer, voltou para o quarto 
de dormir e foi apagando de novo todas as luzes. O condicionador de ar mantinha a temperatura ambiente um pouco abaixo de 60 Fahrenheit. 
   Deitou-se de lado, cruzou os braos sobre o peito, cerrou os olhos e pensou numa armadilha para aprisionar o sono. A primeira que lhe ocorreu foi o clssico contar 
de ovelhas imaginrias. Tolice. O melhor era fazer de conta que estava dirigindo um automvel a toda a velocidade por uma estrada de asfalto, numa recta longa, a 
perder de vista, os olhos fixos na linha branca que a dividia ao meio... Lembrou-se de um quadro surrealista que vira num museu: vasta estepe nua com linhas paralelas 
fugindo para o horizonte... Intil! Fazia mais de vinte e quatro horas que no pregava olho e no entanto ali estava sem conseguir dormir. Remexeu-se, procurando 
outra posio mais confortvel. Ioga. Estendeu-se de costas, os braos cados ao longo do corpo, afastou um pouco as pernas uma da outra. Relaxar os msculos... 
Descontrair-se...         Pareceu-lhe que, apesar de todas as tentativas que fazia para ficar em estado de repouso, seu crebro era uma espcie de alucinado balo 
efervescente que recusava paz e descanso ao resto do corpo. Tornou a saltar da cama, apanhou a garrafa de metal, abriu-a, levou-a  boca, tomou vrios goles, sentiu 
a gua gelada descer agradavelmente pelo esfago e cair no estmago. Ficou parado a escutar a trovoada distante do canhoneio. Onde estariam atirando? Era insensato 
como s vezes tinham de disparar cegamente na direco onde se supunha estivesse o inimigo.. As ratazanas provavelmente estavam escondidas em suas tocas. Mas o remdio 
mesmo era continuar aquela tctica de terra arrasada, se quisessem aniquilar os comunistas definitivamente. Era preciso ganhar aquela guerra, custasse o que custasse!
   Sentou-se na cama, passou a mo pela testa. Ansiava por voltar a ser um combatente. Agora era questo apenas de dias, e ele se libertaria definitivamente da sua 
priso burocrtica. Irritava-o, porm, desmoralizava-o a ideia de no ter descoberto ainda o contrabando de explosivos de plstico escondido em algum lugar daquela 
cidade maldita, e de no haver prendido os terroristas responsveis pelas exploses no hotel e no cinema.
   Tornou a deitar-se. Sua cabea era uma espcie de televisor em cujo quadro se passasse um filme desvairado, feito de pedaos de outros - drama, comdia, documentrio 
-, tudo desconexo, vertiginoso, incongruente e impossvel de apagar... A loucura - reflectiu - devia ser a permanncia daquele estado de confuso e excitao elevado 
ao cubo.
   Acendeu a lmpada de cabeceira, olhou o relgio-pulseira. Quinze para as dez. Se eu no dormir esta noite, minha cabea explodir como uma granada. Ficou a fantasiar 
a metfora... Seus pensamentos se irradiariam para todos os lados como estilhaos, junto com todo o lixo da memria. Ah! Se o seu respeitvel pai pudesse "ver" o 
estouro... Se as cenas do passado, seus sentimentos e pensamentos mais secretos pudessem assumir uma expresso plstica e o velho ficasse sentado naquela poltrona, 
ali no canto, boquiaberto, a olhar a atomizao de seu crebro - na certa morreria de desgosto por descobrir as sujeiras, as iniquidades, os pecados que se escondiam 
no consciente e no inconsciente de seu unignito... Veria, nas mais diferentes formas, um pensamento que o filho muitas vezes repelira, mas que insistia em aparecer-lhe 
na mente, com maior ou menor intensidade e nitidez: o pai morto dentro de um caixo, um crucifixo no peito... Mudava o tipo do esquife, o ambiente, a causa da morte, 
mas o defunto era sempre o mesmo, a mesma cara cor de cera, solene e altiva at na morte... Quantas vezes ele tivera, sob os mais variados disfarces, essa viso 
parricda!
   De novo fechou os olhos e pensou na mulher amada. Que estaria ela fazendo quela hora? Talvez gemendo de prazer nos braos de um outro homem... A ideia lhe era 
desagradvel, mas ele no podia censurar a amante. Tinham-se dito adeus sem maiores promessas. Falara-se na possibilidade de ele no voltar mais, pois poderia ser 
morto em aco. Ou ento retornar  mesma situao familiar sem remdio.
   Era curioso como um homem podia ter a coragem suficiente para enfrentar a peito descoberto um inimigo armado de metralhadora e, no entanto, revelar-se um covarde 
incapaz de quebrar as grades de papel e palavras da sua priso social... e resignar-se abjectamente a continuar representando sua triste parte na inspida comdia, 
usando mscaras em vez da sua face natural. E qual seria mesmo a sua face verdadeira, a que um dia teria de apresentar a Deus? Mas acreditaria ele mesmo no juzo 
Final, ou seria Deus apenas mais uma das invenes de sua excelncia reverendssima o senhor bispo, seu pai?         
   O coronel voltou-se para o outro lado e viu em cima da mesinha-de-cabeceira, junto da lmpada, a carta da mulher, chegada havia dois dias, e que ele no tivera 
ainda a coragem de abrir. Detestava aquela caligrafia, aquele estilo (todas as moas que haviam cursado a sua escola possuam o mesmo talhe de letra), os pequenos 
incidentes domsticos que ela lhe contava com pormenores irritantes (cenas de supermercado e chs de caridade, enredos de filmes) e, acima de tudo, repelia os beijos 
que ela lhe mandava, usando invariavelmente a mesma frmula, no fim da carta.
   Olhou longamente para o vidro que continha os comprimidos soporferos. Tomara dois antes de ir para a cama mas ainda no lhes sentira o efeito. Devia tornar um 
terceiro?
   De novo imaginou a longa faixa de asfalto com a linha divisria branca. Depois comeou a escrever mentalmente uma carta  filha: "Queridssima: Aqui estou no 
meu quarto, insone, pensando em ti. L fora faz um calor de Geena (como diria o teu av). Ouo o troar dos canhes, vindo de longe. No te impressiones, so os nossos 
soldados que atiram contra o inimigo-fantasma. Tive um dia muito duro e estou morto de cansado, mas a despeito disso no consigo dormir. Quisera que estivesses a 
meu lado, meu amor. (E agora a carta j era dirigida  amante.) Em certas horas sinto falta de tua presena fsica de uma forma que chega a doer, Tenho s vezes 
a impresso de que, os homens de todas as naes da Terra enlouqueceram, mas acho que ns devemos conservar a nossa sanidade mental para trazer ordem ao mundo e 
evitar que nele se estabelea definitivamente o caos... Sabes de uma coisa estranha? Um dia, em pleno combate, acredites ou no, pensei em ti. Guerrilheiros invisveis 
trepados em rvores fizeram fogo contra ns, mataram um de meus soldados. Com uma rajada de metralhadora derrubei um dos atiradores... No te horrorizes, meu amor 
(de novo escrevia  filha), porque esse foi o nico homem que matei nesta guerra com minhas prprias mos. Caiu da rvore como uma fruta podre. (Apagou mentalmente 
estas duas ltimas palavras.) No teria mais de dezassete anos. Quase da tua idade! Pensei em ti, comovido. Era magro e estava vestido de farrapos e tinha enrolado 
nos ps,  guisa de sapatos, pedaos de pneumticos velhos. No fomos ns quem provocou esta guerra terrvel, mas temos de fazer o nosso melhor para vencer, e o 
nosso melhor  o "melhorssimo" no mundo inteiro. E eu peo sempre a Deus que nos proteja e inspire, para que possamos usar a nossa fora e a nossa riqueza no s 
em benefcio prprio como tambm para a felicidade e o bem-estar da Humanidade inteira. Sei que no resto do mundo somos censurados. Chamam-nos de imperialistas, 
colonialistas, opressores. Na nossa prpria terra, alm da massa dos indiferentes, dos alienados, existem os falces, que esto do nosso lado, aprovam o emprego 
do nosso poderio militar para deter a expanso comunista na sia e no resto do mundo, e as pombas, que servem consciente ou inconscientemente os interesses do comunismo 
internacional, mal sabendo que, no dia em que o mundo for comunizado, elas sero as primeiras vtimas. Minha querida filha, se h ideia que me horroriza  a de que 
possas um dia viver dentro de um regime totalitrio, sob o olhar vigilante do Irmo Maior, apenas como uma pea da mquina do Estado. Nossos bravos rapazes e teu 
prprio pai aqui esto lutando para que tu e teus filhos venham a gozar de uma longa era de paz, justia e liberdade, em que cada qual possa escolher livremente 
a sua religio, os livros que quer ler e a profisso para a qual se sente inclinado... Um mundo em que qualquer um possa dizer o que pensa sem ter medo de ser posto 
na cadeia ou mandado para uma Sibria qualquer. Pensa apenas isto: todos ns estamos aqui passando durezas e arriscando nossas vidas e mesmo perdendo-as em prol 
da democracia..."
   Sentou-se brusco na cama, abriu o vidro de sonfero, tirou dele um comprimido, meteu-o na boca e mastigou-o antes de engolir. Era amargo. O canhoneio cessara 
por um momento. Tornou a deitar-se.
   Retomou a carta imaginria. Agora se dirigia de novo  amante: "Como eu ia te dizendo, em pleno combate pensei em ti. Quando me aproximei do comunista que matei, 
ele estava estendido ao p da rvore, de costas, os olhos, negros como os teus, muito abertos e imveis... e parece incrvel que tua imagem me tivesse vindo  mente 
naquele exacto momento. Porqu? Creio que foi a posio em que o rapaz se encontrava, estendido sobre a relva, os cabelos metidos num tufo de verdura, as pernas 
um pouco afastadas uma da outra. Lembrei-me daquela nossa tarde no bosque (te lembras?) em que fizemos o amor sobre a relva, debaixo de uma btula, e tu ficaste 
com medo de que algum aparecesse, ests te recordando?... e at um esquilo nos espiou, curioso, por entre a forquilha de uma rvore e tu rompeste a rir... Querida 
filha, reza por mim, pede a Deus que perdoe os pecados de teu pai e os teus prprios, e acredita no meu amor..."
   No mesmo andar, no quarto s, o major, sentado junto  mesa, escrevia uma carta  sua ex-esposa. "Meu bem, embora eu saiba que te obstinas em no responder s 
minhas cartas, aqui estou de novo, porque minha afeio por ti e pelos nossos filhos  maior, muito mais forte do que meu amor-prprio. Posso ser morto a qualquer 
momento. Por favor, quero que me compreendas. No estou tentando nenhuma chantagem sentimental, nem sequer pedindo compaixo, ali, no! Tu me conheces. Posso ser 
tudo, menos trgico. A tragdia no foi feita para os gordos. Nosso destino  a farsa. Mas a verdade  que nosso pas est metido at o pescoo na mais surrealista 
das guerras. A semana passada mataram um de meus melhores sargentos: passava de jipe por uma estrada quando uma bala, vinda ningum at agora sabe de onde, trespassou-lhe 
a cabea. Tudo ocorreu de um modo to silencioso, que o homem que dirigia o jipe levou alguns minutos para perceber que levava a seu lado um cadver. Pensou que 
o companheiro dormia (as horas de sono aqui so muito irregulares...). Ora, amanh bem pode chegar a minha vez, magro ou gordo, trgico ou cmico. No  impossvel 
tambm que, seguindo o exemplo desses sacerdotes de tnica cor de abbora, eu derrame sobre o meu corpo uma lata de gasolina (podes ficar certa de que usarei patrioticamente 
a boa, pura gasolina sada do solo sacrossanto de nosso Estado natal, das jazidas das quais teu pai tem tantas aces preferenciais), acenda um isqueiro, tambm 
de fabricao nacional, e vum! - l estarei eu transformado naquilo que os poetas chamam de sara-ardente. Estou certo de que tenho em mim os elementos de uma bela 
tocha, pois unto no me falta. E agora fico a pensar no meu pobre corpo carbonizado no meio de uma dessas ruas, sob o olhar indiferente dos nativos. (Quero que reclames 
os meus dentes de ouro, junto com os meus outros pertences.) Mas, falando srio, algo de terrvel me pode acontecer nesta guerra, inclusive sair dela vivo. Escuta. 
Eu te amo. s vezes temo vir a odiar minha prpria me (deveria escrever "santa me" mas no posso, seria sarcasmo) por tudo quanto ela fez para nos separar. Outra 
coisa. No negarei que s vezes vou para a cama com prostitutas nativas. So frgeis como flores, limpinhas, amveis e foram educadas para agradar os homens, civis 
e militares indistintamente, magros ou gordos. Mas a verdade  que s a ti realmente quero. Gostaria que no fosses to teimosa e me escrevesses duas linhas, dando-me 
pelo menos a esperana de que um dia talvez possamos de novo viver juntos, com nossos filhos. No me castigues por um crime que no cometi. Est claro que no me 
considero completamente isento de culpa. Ningum  mais inocente nos dias que correm., mesmo se excluirmos o pecado original, que  uma imagem sempre de grande efeito 
literrio."
   Por um instante o major ficou escutando o surdo e remoto trovejar dos canhes. Estava metido apenas nas calas do pijama. O ventre, duplamente pregueado, caa-lhe 
sobre as coxas. Encheu o cachimbo, acendeu-o. ficou um instante a fumar e a olhar, distrado, para o retrato da mulher e dos filhos, que tinha na sua frente. Depois 
continuou a escrever: "Hoje tive um dia terrvel. Andamos em busca de um contrabando de explosivos plsticos que entrou na cidade recentemente, e levamos adiante 
as investigaes para descobrir os terroristas responsveis pelas bombas que explodiram num hotel e num cinema, fazendo muitas vtimas. Estou quase morto de fadiga, 
mas no quis ir para a cama sem primeiro conversar um pouco contigo. Preciso dormir, para amanh estar em condies de enfrentar outro dia duro. E o pior  que bem 
posso ser despertado no meio da noite porque outra bomba estourou em algum lugar ou porque algum suspeito foi preso... Tivemos hoje um calor de tal modo intenso 
que a cidade parecia mergulhada num caldeiro cheio de chumbo derretido. Tenho aqui no quarto uma engenhoca de ar condicionado que me proporciona uma dbil pardia 
de Primavera.  melhor que nada. Sinto-me triste, minha querida. No rias de mim.  a pura verdade. A solido me pesa no peito. Ou ser no estmago? s vezes entretenho-me 
a escutar os roncos de minhas entranhas, que tocam msicas um pouco mais meldicas que as nativas. Mudando de assunto: Vou  missa todos os domingos e rezo com a 
convico que este calor permite. O proco  um mau orador mas uma boa alma. Prefiro-o ao nosso capelo, que  um monstro de formalismo. Conto-lhe os meus pecados, 
estropiando a lngua do bom velho, e ele me absolve com uma facilidade que me deixa desconfiado. Estive pensando um dia destes em que o catolicismo  uma religio 
elstica, uma espcie de nug espiritual, pois, por mais que nos afastemos dela, de um modo ou de outro acabamos sendo puxados para o seu mago e reabsorvidos. E 
somos sempre recebidos com uma vitela gorda e um anel, como na parbola bblica. Minha letra est piorando, no espero que a consigas decifrar, o que no tem a menor 
importncia, pois esta carta jamais chegar s tuas mos,  queridssima! Assim posso abrir diante de ti a minha alma e o meu ventre, numa espcie de confisso a 
uma sacerdotisa invisvel, amm, amm, amm..."
   Releu a carta, soltou um risinho convulsivo de garganta, e depois rasgou-a em pedaos.
   Encaminhou-se para o quarto de banho, ouvindo com a memria a voz da me, vendo-lhe a imagem e achando que sua mulher devia odi-lo por ele parecer-se tanto com 
a velha. Era o diabo! Abriu um vidro, tirou dele um comprimido alcalinizante na forma de uma moeda de cinquenta centavos, deixou-o cair num copo de gua e esperou 
que a rodela se dissolvesse. Depois bebeu todo o contedo do copo e voltou para o quarto de dormir. Pensou em orar. Tempo perdido. Deus sabia o que ele lhe ia dizer 
e pedir. Se no soubesse, no seria Deus. E se no fosse Deus, nada teria sentido no Universo.
   Atirou-se na cama e apagou a luz de cabeceira e, de olhos fechados, ficou a ouvir o zumbido do condicionador de ar, o canhoneio e, dentro do prprio ventre, gemidos 
prolongados e plangenttes que lembravam a sereia dos carros dos bombeiros de sua infncia que passavam a toda velocidade na direco do lugar onde irrompera o incndio. 
Onde? Onde? E ento ele saltou para o estribo de um deles e l se foi, em ziguezagues vermelhos, por becos e ruas do passado, rumo dos confins sombrios do sono.
   Ser capito daquele vapor fluvial fora sempre o seu sonho, e agora ali estava ele, orgulhoso no seu uniforme... mas ao mesmo tempo tomado de um estranho medo... 
No era fcil conduzir o barco no rio escuro, na noite escura, sem abalroar com outra embarcao ou entrar terra adentro... Apreensivo, imvel na ponte de comando, 
ouvia confusamente as vozes e as risadas dos passageiros que se divertiam no salo... Prostitutas pintadas, jogadores de baralho profissionais, como nas histrias 
antigas... camisas de peito e punhos de renda, uma carta clandestina metida numa das mangas da sobrecasaca... um pequeno revlver de cabo de madreprola escondido 
num bolso... A pianola no cessava de tocar... As mulheres soltavam gritos indecentes... O rio escuro e imenso, e o medo e a desconfiana de que o mar no estava 
longe e de que todos iam perder-se no mar... Sabia que o pastor de sua parquia andava vasculhando o navio  sua procura para lev-lo de volta  Escola Dominical, 
pois um menino no devia estar naquele antro de perdio que cheirava a lcool, fumo e fmea... Fazia muito calor, as rodas do navio eram ao mesmo tempo as rodas 
de um moinho de trigo de um conto mal lembrado, e ele procurava examinar o mapa e a bssola, mas no conseguia enxergar nada, porque estava tudo envolto em bruma... 
mas no to escuro que no pudesse divisar o vulto do homem ao leme... Tentou mover-se, queria descer ao salo mas no conseguiu fazer sequer um movimento, estava 
paralisado, impotente, e ento lembrou-se de que sua prpria me divertia-se l em baixo, de cara pintada como as outras, e andava de mesa em mesa - a pianola! a 
pianola! a pianola! - oferecendo seus beijos aos jogadores, que em troca lhe davam dinheiro e palmadas nas ndegas e agora ele percebia que os batoteiros eram todos 
negros... ou seria apenas a falta de luz que lhes escurecia a pele? Se ao menos ele pudesse accionar uma daquelas alavancas... dar uma ordem  casa das mquinas 
para que fizessem o barco parar... Porque tinha enveredado terra adentro, navegava por uma rua seca, sobre as pedras irregulares do calamento... casas de um lado 
e de outro, e suas rodas continuavam a mover-se... e a pianola! a pianola!... e ele temeu que os costados da embarcao derrubassem as frgeis casas dos pobres carpinteiros... 
Mas de novo singravam, sangravam o rio e de repente ele descobriu, num susto, que quem estava ao leme era o cadver putrefacto de seu pai... Santo Deus! O seu fedor 
ia empestar todo o navio, escandalizar os passageiros e haveria um motim a bordo e o capito seria enforcado porque todos saberiam que um cadver pilotava o vapor 
e ia lev-los todos para o mar, a morte, o Inferno... Mas como se explicava que seu pai estivesse ao mesmo tempo no poro serrando e aplainando tbuas para fazer 
com elas fretros para todos os que estavam a bordo e para si mesmo? Quis fugir da ponte de comando mas algum - sua me? a professora? - lhe batia de leve na cara, 
batia na cara, batia na cara...
   O tenente despertou. K. lhe tocava com os dedos uma das. faces. Estava completamente vestida e murmurava: "O tempo! O tempo!" Ele se levantou, estonteado e, como 
um sonmbulo, foi apanhando uma a uma as peas de sua roupa. Enveredou para o quarto de banho, postou-se diante do espelho da pia, como procurando identificar-se 
a si mesmo, depois abriu a torneira e, juntando gua na concha formada pelas mos, molhou a cabea, o pescoo, as faces. Em seguida comeou a enxugar-se com uma 
toalha, atabalhoadamente, enquanto lhe cruzavam pela mente, esbatidas e fugidias, imagens do sonho - um navio, o grande rio da sua infncia, uma rua, a figura da 
me... ou da professora?
   A voz de K. chegou-lhe aos ouvidos: "O tempo! O tempo! O tempo!" Parecia uma sineta de vidro a tocar alarme. Ele terminou de Vestir-se, aproximou-se dela, tomou-a 
nos braos, beijou-lhe as faces, os olhos, os lbios, murmurando, entre um beijo e outro, palavras de ternura, pouco lhe importando que ela no as compreendesse. 
Depois abriu a bolsa da rapariga e atufou nela vrias notas esverdeadas do dinheiro de seu pas, dizendo: "Para voc, ouviu? Voc! No para aquele homem!" K. sacudia 
repetidamente a cabea, dando a entender que compreendia tudo. Embaciava seus olhos - quis ele crer- uma nvoa de tristeza. Ela ergueu a mo, mostrou o anel e balbuciou: 
"Muito obrigada."
   Bateram na porta. O tenente foi abri-la. Era a madama, que reclamava:
   - Perdo, senhor oficial, mas seu tempo terminou.         
   - Compro mais uma hora com a moa! - exclamou ele, frentico, metendo a mo num dos bolsos das calas.
   A velhota sacudiu negativamente a cabea.         
   - Sinto muito. A menina tem compromisso com outro fregus. Ele j est l em baixo, impaciente.  at um senhor muito...
   - No quero saber quem ! - replicou ele, indignado. - Est bem. Peo apenas meio minuto. Pode ir embora!
   Quase bateu a folha da porta na cara da alcoviteira. Voltou-se para K. e, vendo-a ali parada no centro da pea, submissa e desamparada, como uma simples coisa 
sem vontade prpria, teve tanta pena dela, que lgrimas lhe vieram aos olhos, dessa vez abundantes.
   Estreitou-a contra o prprio corpo, demoradamente, num silncio trmulo. Depois desprendeu-se dela, fez meia volta, precipitou-se para a porta, como se estivesse 
fugindo de algum ou de alguma coisa, abriu-a num safano, desceu a escada quase a correr, atravessou o salo do caf sem olhar para nada nem para ningum, e ganhou 
a calada. A Lua l estava, alto no cu,  sua espera, como um anjo-da-guarda: tinha perdido sua cor amarelenta e agora parecia um disco de luminoso gelo. O tenente 
atravessou a rua, sentindo um aperto no corao. Quando chegou  calada oposta voltou-se e olhou para a janela ainda iluminada do quarto que acabara de deixar, 
na esperana de avistar o vulto de K. No viu ningum e isso o deixou ainda mais triste. Continuou o seu caminho em direco ao centro da praa, pisando sobre a 
relva dos canteiros, reflectindo sobre aquela despedida apressada e prosaica, to diferente da que ele havia imaginado.
   Tinha j atravessado a praa e ia entrar na avenida do canal quando de sbito uma exploso brutal como que rasgou a noite de cima a baixo, precedida de um relmpago. 
O tenente atirou-se ao cho e ficou estatelado, de bruos (bombardeio? um plstico?), o corao a bater no ritmo do susto, as unhas cravadas na terra, procurando 
instintivamente abrir nela uma cova onde abrigar-se. Sentiu uma dor e um zumbido nos ouvidos, como se o estrondo lhe tivesse rompido as membranas do tmpano. O choque 
embotou-lhe por alguns segundos a faculdade de pensar. No poderia dizer quantos minutos ali ficou estendido sobre o canteiro, mordendo os talos de relva que lhe 
entravam pela boca. Era como se o prprio tempo tivesse sido atomizado pela medonha exploso. E, dentro do silncio oco que se fizera na noite, ele sentia, mais 
que ouvia, o trnsito surdo do prprio sangue alarmado. Soergueu-se aos poucos, ficou primeiro de joelhos, sacudindo a cabea de um lado para outro, e por fim se 
ps de p. Voltou-se e viu o Caf Caravelle em chamas. Compreendeu ento o que se havia passado. Pensou em K. e rompeu a correr na direco do incndio. Estava j 
na calada fronteira  do caf e ia atravessar a rua, quando algum lhe agarrou fortemente o brao. Era um soldado da Polcia Militar. Dizia-lhe alguma coisa que 
no seu aturdimento ele no conseguia entender. Mas o homem empurrava-o para trs, obrigava-o a sentar-se num dos bancos da praa (Calma, tenente! Calma, tenente!). 
Vultos moviam-se ao claro do incndio. Um jipe parou junto ao meio-fio,  frente do caf, e de dentro dele saltaram cinco soldados com capacetes brancos. O tenente 
olhava estupidificado para tudo aquilo. Viu quando os guardas estenderam uma corda, isolando uma larga rea  frente do prdio e ouviu, vindo de longe, o uivo de 
uma sereia. Dentro de alguns minutos chegou o primeiro carro de bombeiros, seguido de uma ambulncia.
   Ficou a olhar para a casa em chamas e a pensar em K. Curiosos apareciam de todos os lados. janelas iluminavam-se em derredor da praa.
   Os bombeiros comearam a trabalhar para apagar o fogo e evitar que se comunicasse s casas vizinhas. Chegaram abafadas aos ouvidos do tenente vozes humanas e 
o crepitar das chamas. De repente se ouviu novo estrondo. Era o andar superior do caf que se desmoronava. Ele apoiou os cotovelos nos joelhos, cobriu o rosto com 
as mos e desatou a chorar.
   Cerca de uma hora mais tarde, os bombeiros haviam retirado alguns corpos de dentro das runas do caf. Os poucos que apresentavam ainda sinais de vida foram metidos 
numa ambulncia e levados a toda a velocidade para o hospital. Os mortos ficaram estendidos sobre o asfalto da rua. Fazendo um esforo sobre si mesmo, o tenente 
aproximou-se de um dos soldados da Polcia Militar, identificou-se, passou sob o cordo de isolamento e, s tontas, comeou a caminhar por entre os corpos. Estavam 
em sua maioria mutilados e parcialmente carbonizados, e alguns haviam perdido a forma humana. Partculas de vidro rangiam debaixo da sola de suas botas. Sentiu sob 
um dos ps uma coisa flcida. e teve um estremecimento de horror quando viu que havia pisado num brao humano separado do corpo. Andava no ar um bafo de cinzas hmidas, 
de mistura com um cheiro de carne e pano queimados.
   Houve um momento em que o tenente parou, subitamente esquecido do que procurava e da razo por que estava ali no meio daqueles restos humanos, dos bombeiros e 
dos homens da Cruz Vermelha. Ouvia vozes em tom baixo, cortadas de ordens urgentes. "Sargento, aqui depressa! Este ainda est vivo. Tragam a maca. Plasma, rpido!" 
Viu quando levantaram um corpo e o levaram para uma ambulncia, que arrancou e se foi a toda a velocidade, rua fora, a sirena uivando.
   Santo Deus! Porque estou aqui? Levou a mo  testa hmida e escaldante. Um soldado focou nele a luz de sua lanterna elctrica. "Est sentindo alguma coisa, tenente?" 
Ele ergueu a mo e sacudiu-a de um lado para outro, como para cortar o raio luminoso, enquanto murmurava: "No, no  nada, no  nada." O outro afastou-se.
   Por vrios minutos o tenente sentiu-se completamente perdido, comeou a interrogar-se, aflito... E de repente, cerrando os olhos, teve contra as plpebras a figura 
da estudante que morrera queimada aquela manh... no seu vestido cor de rosa-ch, de p no quarto... Sim, K.! K.! K.! Olhou em torno. Restavam ainda uns quatro ou 
cinco cadveres, no asfalto. Examinou-os um por um. Por fim avistou junto da sarjeta um corpo de mulher. Estava apenas parcialmente queimado, quase intacto da cintura 
para cima. Ajoelhou-se ao p dele. Reconheceu a fisionomia de K. Seus olhos estavam ainda abertos. Ele os fechou com dedos trmulos. Depois pegou-lhe da mo e viu 
nela o anel de turquesa. Soluos secos comearam a sacudir-lhe o corpo. Sentiu que lhe tocavam no ombro, ouviu uma voz:
   - Conhece a moa?
   Ele hesitou um instante:
   - N... no.
   - Tem certeza? Precisamos identificar todos os corpos.
   - No conheo... - balbuciou o tenente, mal dominando o tremor da voz.
   - Que est procurando, ento?
   - Uma pessoa...         
   - Homem ou mulher?
   - Homem.
   - Como se chama?
   - No me lembro...
   Curto silncio. Depois, a mesma voz, mais alto:
   - Vocs a! Levem este cadver para o necrotrio, para futura identificao.
   Dois homens ergueram o corpo de K. como se ela fosse uma boneca de pano e o atiraram como uma coisa - os brutos! - para dentro de um camio. O tenente ficou a 
seguir as luzes vermelhas das lanternas traseiras do veculo que se afastava. Ergueu-se e ps-se a caminhar na direco do centro da praa, incapaz de um pensamento 
coerente. Atirou-se sobre a grama de um canteiro e ali permaneceu, deitado de costas, a olhar para a Lua, ainda ofegante, sentindo suor e lgrimas escorrerem-lhe 
pelas faces. Se pudesse dormir e esquecer tudo aquilo! Fechou os olhos. Voltava-lhe agora  mente a face de K. morta na sarjeta: uma queimadura horrenda no pescoo, 
uma larga mancha escura no queixo, os cabelos chamuscados... Tentou, mas em vo, apagar aquela viso da memria. Quando os soldados haviam erguido o corpo de K. 
- sim, agora ele se lembrava do macabro detalhe - ambas as pernas da rapariga, quebradas, estraalhadas, balanavam-se de um lado para outro, como prestes a desligarem-se 
do corpo.
   Que horas seriam? (O tempo! O tempo! - dizia K. com um dedo sobre o pequeno relgio.) Porque havia negado conhec-la? Atraioara a pobre menina como havia atraioado 
o pai, a me, a mulher, o filho e a si mesmo. (No era o que se podia esperar de um negro?) Virou-se, ficou deitado de bruos. Mas afinal de contas, que sabia ele 
de K.? Ela era para ele apenas uma letra, um sinal. Se fosse interrogado, o repulsivo homenzinho que explorava seu corpo tambm havia de negar que a conhecia. E 
ela ficaria annima, metida numa gaveta do refrigerador do necrotrio. Pobre K.! Pobre K.!
   Levantou-se lentamente, e por alguns instantes no atinou com o que fazer. Debaixo de uma lmpada, aproximou dos olhos o mostrador de seu relgio-pulseira. Levou 
algum tempo para ver a hora. Onze e cinquenta. Ocorreu-lhe que onze era a hora de recolher, estabelecida pelo comando militar da cidade. Procurou orientar-se na 
direco do hotel. Pensava agora nas palavras do porteiro nocturno. Amanh dia no-auspicioso.
   De novo caminhava pela avenida do canal, completamente deserta quela hora. Pensava na mulher e no filho, e de repente desejava intensamente estar com eles, voltar 
para casa, esquecer para sempre aquela terra e aquela guerra.
   Viu um automvel que entrava na avenida.  luz de seus faris agitou-se por um instante, indeciso e ofuscado como uma lebre perseguida. Segundos depois um jipe 
parava a seu lado, junto da calada.
   Uma voz:
   - Tenente, suba!        
   Ele obedeceu. Era um carro militar. Sentou-se no banco traseiro, ao lado de um homem corpulento que fumava cachimbo. Era um major que ele conhecia de vista, mas 
com o qual nunca tivera qualquer convvio particular. O jipe tornou a arrancar.        
   - Tenente - perguntou o homem gordo, sem tirar o cachimbo da boca -, o senhor acredita na sorte?
   Ele ficou sem saber que dizer. Mas o outro no esperou a resposta:
   - Foi uma sorte encontr-lo. Sorte nossa... no sei se sua tambm.
   - Andavam  minha procura?        
   - O coronel deseja v-lo.         
   - Por que motivo?         
   - Prefiro que ele prprio lhe diga.
   O jipe rodava a toda a velocidade ao longo de ruas desertas e silenciosas. O tenente olhava fixamente para a nuca do chofer negro, que tinha a seu lado um sargento 
louro. Ambos traziam capacetes brancos e ostentavam no brao esquerdo uma banda tambm branca com as iniciais P. M.
   - Uma exploso feia. no, tenente? - disse o maior em tom casual.
   - Horrvel.
   - Voc estava nas redondezas quando o caf foi pelos ares?
   - Sim. Na praa.
   - Tinha estado dentro do Caravelle?
   O tenente teve uma breve hesitao antes de responder.
   - Sim.
   - Durante quanto tempo?
   - Mais ou menos uma hora.
   Ficou de sbito tenso, como um animal que pressente perigo. Ser que desconfiam de mim? Claro. Um negro  por definio culpado at ao momento em que possa provar 
o contrrio, o que nunca  fcil. Esperou que o outro tornasse a falar. Mas o major continuou a fumar em silncio. Com o rabo dos olhos examinava o homem que tinha 
a seu lado. Conhecia-lhe a ficha. Um belo exemplar de mestio. Com algo de felino. Deve ser popular com as fmeas. Muita mulher branca de minha terra gostaria de 
dormir com ele, s que preferiria morrer a confessar isso. Bela cara! Esses olhos escuros so mais expressivos, por exemplo, que os olhos claros e duros do coronel 
ou os desses famosos deuses nrdicos de dois metros de altura e bceps de boxeadores. (Sorriu para os prprios pensamentos.) Seu Governo devia permitir e at mesmo 
encorajar uma certa dose de miscigenao no pas, para quebrar a monotonia da chamada raa branca, metdica, previsvel e reprimida, cujos representantes preferem 
inventar mquinas parecidas com o corpo humano a usar os prprios corpos. Claro, a miscegenao deveria ser dirigida e controlada cientificamente para evitar o que 
os puristas chamam de "bastardizao da raa". Mas que raa, santo Deus?  o mais sortido e mirabolante cadinho racial da terra! Que seria de ns sem a inquietao 
metafsica do judeu e essa lnguida sensualidade do negro? Essas duas minorias so os lubrificantes de nossa spera secura puritana. Por essa e outras razes, ambas 
naturalmente so segregadas. Os hebreus vivem a criar-nos sentimentos de culpa e problemas intelectuais. (Pensou nas suas discusses com o capito-mdico judeu do 
quarto andar.) Os negros e mulatos so a presena fsica da carne e do pecado. Mas que se passar com esse pobre rapaz? Parece abalado. Se no me engano, suas mos 
tremem. Sua respirao me parece irregular.
   Estendeu o brao e bateu de leve no joelho do tenente:
   - No se preocupe, meu amigo. O coronel quer apenas confiar-lhe uma misso.
   - Mas... o meu tempo de servio j terminou. Volto amanh para casa.
   - O seu tempo terminar oficialmente dentro de 10 horas e cinco minutos. Amanh ao meio-dia, sob minha palavra, voc estar a bordo do avio que o levar de volta 
 ptria.
   O jipe estacou  frente do quartel-general. Guardas estavam postados entre a porta de entrada e a longa e larga cerca de arame farpado que circundava o casaro. 
O major gritou para um deles:
   - Est tudo bem, sargento! Deixe-os passar.
   Poucos minutos mais tarde, o major introduziu o tenente no gabinete do comandante.         
   - Eis o nosso homem - disse jovialmente  porta.
   O coronel. encontrava-se de p, atrs de sua mesa de trabalho. O tenente perfilou-se e fez continncia. O outro limitou-se a focar nele seu olhar plido e duro, 
com uma intensidade acusadora. Depois voltou-se para o major:
   - Desejo ficar a ss com o tenente.
   O maior retirou-se, fechando a porta atrs de si. O coronel ps-se a caminhar de um lado para outro, as mos tranadas s costas, a cabea baixa, o ar distrado, 
como se ignorasse a presena do outro oficial.
   No vai me mandar sentar - pensava o tenente - e eu mal me posso aguentar de p... Mas que ser que esse homem quer de mim? Porque no fala? Porque toda esta 
encenao?
   Por sua vez o coronel observava-o obliquamente. Mal lhe podia discernir os traos fisionmicos, pois estava estonteado de sono. No chegara a dormir meia hora... 
Havia sido despertado por causa daquela maldita exploso. Sabia que o rapaz tinha sangue negro: cinquenta por cento. A cara dele, entretanto, no lhe parecia desagradvel. 
Encaminhou-se para a mesa e mexeu nuns papis.
   - Fique  vontade, tenente. Tenho aqui a sua folha de servio... Vejo que seu trabalho tem sido bastante aprecivel... Mas no o chamei  minha presena para 
o elogiar, e sim para lhe confiar uma importante misso.
   De novo calou-se. O tenente esperava, apreensivo, com uma secura na garganta.
   - Voc deve saber que o Caf Caravelle foi pelos ares h menos de duas horas...
   - Sei, coronel.
   - Tem ideia de quem plantou a bomba?
   Era uma pergunta apenas retrica.
   - No, senhor.
   - Pois ns temos.
   O suor entrava nos olhos do tenente e ele agora via o interlocutor atravs de uma cortina lquida. Esperou em silncio que o seu comandante continuasse.
   - Vinte minutos depois da exploso, nossa polcia apanhou dois terroristas no momento em que colocavam uma bomba dentro de um pagode. Ambos puseram-se em fuga, 
nossos homens fizeram disparos contra eles, derrubando-os. Um ficou mortalmente ferido e, interrogado, confessou com um enorme orgulho que ele e o companheiro eram 
responsveis pela exploso do caf. Como tinha visto o seu companheiro cair baleado a poucos passos dele, julgando-o morto e sabendo-se tambm ferido de morte, que 
podia falar livremente...
   O coronel calou-se, levou a mo  boca para abafar um bocejo.         - Preste bem ateno, tenente. Esse terrorista confessou voluntariamente que seu camarada 
e ele haviam colocado uma bomba-relgio num outro prdio, e que essa bomba explodiria dentro de cinco horas! E quando um de nossos oficiais lhe perguntou "onde?", 
o bandido sorriu, guardou silncio, e teve o seu momento de triunfo. 
   O coronel caminhou at  janela, em busca de um ar que a noite queda e pesada lhe negou. Tornou a encarar o tenente: 
   - Morreu poucos minutos depois. Mas seu companheiro foi ferido levemente numa perna e neste momento est sendo medicado no nosso hospital.
   - Sim, senhor coronel. Pois bem. Dentro de poucos minutos o prisioneiro estar  sua disposio num cubculo do subsolo deste edifcio...
   -  minha disposio? - repetiu o tenente, no querendo compreender o que o outro insinuava.
   O coronel olhou para o relgio-pulseira. Depois de novo seus olhos fitaram o interlocutor.
   - Confio-lhe a tarefa de interrog-lo e descobrir onde est a segunda bomba.
   - Porque eu? - deixou o tenente escapar.         
   - Terei de justificar as ordens que dou aos meus subordinados?
   - No, senhor coronel.        
   - Bom, mas eu lhe explicarei. Quase todos os membros de sua unidade, como voc sabe, encontram-se esta noite fora e longe da cidade, em misses especiais em vrias 
aldeias da regio... No temos tempo a perder. Se mais uma bomba explodir esta noite, nosso prestgio sofrer um golpe tremendo, pois o povo comear a considerar 
os nossos inimigos omnipresentes e omnipotentes e ns apenas... impotentes.
   O tenente olhava perdido para a janela. A Lua parecia uma fruta emaranhada entre os galhos de uma rvore do jardim. Agora o estrondo distante do canhoneio recomeava.
   - Nunca acreditei muito nos mtodos de vocs, os psiclogos. Sempre desconfiei da eficincia desses computadores electrnicos que interpretam as respostas dos 
prisioneiros interrogados. Seja como for, agora no temos tempo para recorrer s mquinas... A tarefa est em suas mos. Pense apenas nisso: se voc falhar, se dentro 
de trs horas, veja bem, trs horas no mximo, no conseguir arrancar uma confisso do prisioneiro, voc ser responsvel pela morte ou a mutilao de dezenas, talvez 
centenas de pessoas inocentes, possivelmente crianas, mulheres, velhos...
   O tenente estava atnito. Tudo aquilo lhe parecia um dilogo dentro de um pesadelo.
   - Trs horas... - balbuciou.
   - Repito que, conforme a confisso do terrorista que morreu, a segunda bomba dever explodir s quatro da manh. Precisamos saber exactamente onde foi posta, 
uma hora antes. Pelo menos...
   - Mas, coronel, o senhor sabe que esse tipo de gente em geral no fala.
   - Faa o seu prisioneiro falar.         
   - Mas ele deve ser um fantico!
   - Seja tambm um fantico.
   O tenente comeava a sentir-se encurralado.
   - Bom... usarei primeiro todos os mtodos persuasivos. Se falharem recorrerei ao soro da verdade.
   O coronel sacudiu negativamente a cabea.         
   - No creio que d resultados positivos. Sei de casos... O prisioneiro pode ficar apenas entorpecido a dizer sandices.
   - Mas ento... que outros recursos me restam?
   - Voc mesmo os descobrir  medida em que prosseguir o interrogatrio. O essencial, a nica coisa que realmente importa  descobrir onde est a segunda bomba. 
Pense nas vidas que ela vai destruir se voc fracassar.
   Um pensamento sombrio cruzou o esprito do tenente.
   - Na sua opinio, coronel,  vlida a ideia de que os fins justificam os meios?
   - Isso  uma pergunta filosfica. No vem ao caso.
   -  uma pergunta tica...         
   - E esta guerra lhe parece tica?  uma aco tica colocar bombas em igrejas, hotis, cinemas, colgios? Responda.
   -  evidente que no.
   - E voc sabe como  que os comunistas tratam os nossos soldados que conseguem aprisionar, no sabe?
   O tenente sentia uma zoada nos ouvidos, como se de repente tivesse subido a uma grande altitude.
   - At onde deverei obedecer s leis internacionais que protegem os prisioneiros de guerra? - perguntou, ouvindo mal a prpria voz.
   - Quem lhe disse que neste caso se trata de um prisioneiro de guerra? Esse homem  um terrorista, um assassino.  co-responsvel pela morte das dezenas de vtimas 
da exploso no Caf Caravelle. Qualquer jri decente em nosso pas condenaria esse criminoso  cadeira elctrica.
   - Mas de qualquer modo ele seria antes julgado, teria direito aos servios de um advogado de defesa.
   - Ridculo! No se trata de descobrir se ele  culpado ou no. H pouco me telefonaram do hospital comunicando que o prisioneiro, interrogado sumariamente, repetiu 
que era o responsvel pela exploso no Caravelle, e confirmou a existncia da segunda bomba, mas nega-se a revelar onde a colocou.
   - Devo ento concluir de suas palavras que, se os mtodos legais de interrogatrio falharem, estou autorizado a usar... - calou-se ante o horror da palavra que 
lhe veio  mente.
   - Tenente, nosso Exrcito jamais usou a tortura. Pessoalmente, veja bem, como homem e no como soldado, eu no hesitaria em arrancar as entranhas desse bandido, 
se tanto fosse necessrio para obter a confisso que desejamos com to desesperada urgncia. Lembre-se de que voc no  um soldado profissional e que em questo 
de dias ou, melhor, de horas estar definitivamente desligado das nossas Foras Armadas. Pense bem nisso, e no esquea que as vidas de muitos seres humanos, que 
neste momento dormem em paz, so mais importantes perante Deus e os homens do que o conforto, o bem-estar e mesmo os chamados "direitos" de um criminoso. No se 
trata de uma questo de tica, mas de simples aritmtica...
   - Sim, mas...
   - Mas qu, tenente?
   - Ainda no sei at aonde posso ir...
   - Use seu prprio juzo.
   - Sou ainda um soldado. Recebo ordens superiores.
   - Pois bem. J lhe dei a minha ordem. Descubra dentro de duas horas, no mximo, onde est a segunda bomba.
   - Duas ou trs?
   - Pensando melhor: duas!
   O tenente sentiu que o coronel lhe preparava uma armadilha. Suava abundantemente. Sentia a respirao curta, doa-lhe o corpo inteiro e a zoada nos ouvidos continuava. 
Encarava o superior hierrquico como hipnotizado pelo seu olhar.
   - O major est dirigindo pessoalmente uma busca em toda a cidade. Mais de quinhentos de nossos homens esto empenhados nessa operao, tentando localizar a segunda 
bomba. A sorte deles ser a sua, tenente, pois se encontrarem o que procuram dentro das prximas duas horas, voc ser dispensado de sua tarefa... - Hesitou por 
uma fraco de segundo e acrescentou: - ... desagradvel.
   O telefone tilintou. O tenente estremeceu. O comandante apanhou o fone num gesto brusco e levou-o ao ouvido.
   - Sim...  o coronel... Qu? Ah! Est bem. O tenente vai descer dentro de um minuto. - Reps o fone no lugar. - Tenente, o prisioneiro est  sua espera numa 
das celas do subsolo. O major o conduzir at l. Atente no que lhe vou dizer. Esse interrogatrio ser feito sob o maior sigilo. Espero que nenhuma autoridade local 
e especialmente nenhum correspondente de guerra, nosso ou estrangeiro, fareje o que se est passando no poro deste edifcio.
   - Perfeitamente, coronel.
   - Estamos ento entendidos. Para esse interrogatrio voc contar com a colaborao do melhor de nossos intrpretes e com a de um sargento que, na vida civil, 
foi funcionrio da Polcia e tem prtica... desse... dessas coisas. Duas horas, no esquea, duas horas. E agora pode retirar-se.
   O tenente perfilou-se, fez continncia e encaminhou-se para a porta. Estava j com a mo na maaneta quando de novo ouviu a voz do seu comandante.
   - Lembre-se de que me interessam resultados e no mtodos, tenente. Se voc conseguir o que queremos, prometo no fazer perguntas.
   E depois que seu oficial se foi, o coronel ficou a olhar fixamente para a porta, sentindo uma vaga e meio irritada vergonha das coisas que acabara de dizer e 
fazer. Estendeu-se pesadamente no sof, fechou os olhos e dentro de poucos segundos caiu num sono profundo.
   O tenente encontrou o major no corredor.
   - O seu homem acaba de chegar - disse este ltimo. - O coronel j lhe deu as ordens, no?
   O outro sacudiu a cabea, taciturno.
   - Sabia o que o comandante queria de mim?         
   - Naturalmente.
   - E que acha de tudo isso?
   - Voc tem nas mos uma tarefa dura e ingrata. Vai ter de trabalhar sob uma presso tremenda.
   - O coronel praticamente me induziu a usar at a violncia em caso extremo... mas teve o cuidado de no me "autorizar" isso oficialmente. Se eu falhar, pessoas 
inocentes morrero e eu ficarei responsvel por essas mortes. Se eu torturar o prisioneiro,  a desonra...
   O major sorriu:         
   - Mas voc no acha que, a esta altura dos acontecimentos, de um modo ou de outro, j estamos todos um tanto desonrados?
   - As Foras Armadas so uma espcie de corpo mstico. Eu sou um indivduo. Dentro de poucas horas, um civil. E sempre, irremediavelmente, um negro. O coronel 
arranjou um alibi perfeito para si mesmo e para o Exrcito. Eu ca na armadilha...
   - No seja to pessimista. Talvez nossos soldados encontrem a bomba dentro de menos de uma hora...
   - Numa cidade do tamanho desta?
   - Tudo pode acontecer na vida, inclusive as boas coisas...
   Segurou num gesto paternal o brao do tenente e conduziu-o para a escada.
   Caminhavam agora no subsolo ao longo de um estreito corredor de pedra, alumiado pela luz amarelenta produzida pelas pequenas e raras lmpadas elctricas que, 
a intervalos, pendiam nuas do tecto abaulado. O tenente teve a impresso de haver descido a uma catacumba. De um lado e de outro, via as portas das celas que, no 
tempo dos ltimos conquistadores europeus daquele pas, haviam servido como priso provisria para rus que aguardavam julgamento.
   Um oficial veio ao encontro de ambos. Trazia numa das mos a sua maleta negra.
   Era um capito-mdico com quem o tenente trabalhara muitas vezes nos ltimos cinco meses em aldeias daquela e de outras provncias. Eram vizinhos de quarto no 
Vieux Monde.
   - O prisioneiro est pronto para ser interrogado - disse ele com sua voz levemente nasalada. - Foi baleado na coxa esquerda, perdeu algum sangue mas o ferimento 
no  grave.
   - Que idade tem? - indagou o tenente.
   - Dezanove.
   - To jovem assim?
   O major encolheu os ombros:
   - s vezes tenho a desconfortvel impresso de que estamos lutando contra um exrcito infanto-juvenil...
   Encaminharam-se os trs em silncio para o fundo da galeria, rumo ao cubculo onde ia processar-se o interrogatrio. Mordendo a haste do cachimbo apagado, o major 
entregou-se a reflexes... Ali ia ele entre dois neurticos reconhecveis a olho nu.  sua direita tinha um inquieto centauro, metade negro, metade branco, prisioneiro 
perptuo de sua pele, e era fcil deduzir-se de seu comportamento que ele desejava apaixonadamente passar por branco...  sua esquerda marchava um judeu, plido 
e perturbado como um condenado  morte que, ao raiar do dia,  arrastado por seus carcereiros para a cadeira elctrica... Alis, o relgio interior daquele intelectual 
desajustado parecia estar batendo sempre, fatalmente, a hora da prpria execuo.
   Pararam diante da porta da penltima cela da galeria.
   - Bom - disse o major -, deixo vocs aqui. Tenho de voltar ao meu gabinete para esperar os resultados dessa recherche de la bombe perdue - sorriu ele, olhando 
para o mdico que, na sua opinio, seria o nico a compreender a aluso. - Doutor, no se afaste muito, que seus servios podem ser necessrios. Tem pentotal sdico 
na bolsa? Muito bem. Tenente, logo que obtiver a confisso, telefone-me sem perda de tempo para que a bomba seja imediatamente desmontada pela nossa equipa especializada 
nessas engenhocas mortferas. - Olhou para o seu relgio-pulseira. - Meia-noite e trinta e cinco. Sejam felizes, rapazes!
   Fez meia volta e se foi, voltando sobre seus prprios passos. Era cptico quanto ao resultado daquele interrogatrio. Seria uma simples formalidade. Conhecia 
o tipo de homem que o inimigo encarregava desses actos de terrorismo. Eram suicidas natos. Estava certo de que, dentro de menos de trs horas, mais uma bomba explodiria 
em alguma parte da cidade, ferindo e matando gente e causando danos materiais. E no seria a ltima. A trgica pantomima continuaria.
   Pensou na mulher e na me e imaginou-as a seu lado. Ia agora ensanduichado, como um gordo naco de presunto j em processo de decomposio, entre duas fatias de 
po domstico. Sua me era, sem sombra de dvida, o po zimo de sua vida. At quando duraria aquela prolongada e involuntria pscoa!
   O tenente entrou na cela. Sobre uma base olfactiva feita de cheiro antigo de humidade e mofo, pairava no ar enfumaado um fedor vivo e novo de suor humano, misturado 
com sarro de charuto.
   O prisioneiro estava sentado numa cadeira a um canto daquele cubculo to mal iluminado quanto o corredor. O nativo era to pequeno e frgil, que o tenente teve 
a desconcertante impresso de estar diante de um menino de quinze anos.
   -  esse o terrorista? - perguntou ele ao homenzarro que se encontrava de p, no centro da cela, mas para cuja fisionomia ainda no atentara. A resposta lhe 
veio pronta, numa voz arrastada e lnguida de sulista, levemente rouca:
   - To certo como dois e dois serem quatro.         
   - Mas  uma criana!
   - No se iluda. Esses sujeitinhos so como os escorpies: pequenos mas venenosos. Espere e ver.
   O tenente acercou-se do rapaz e ps-se a examin-lo, tomado de um constrangimento que o desarmava por completo. O Prisioneiro estava descalo e nu da cintura 
para cima. Conservava apenas as calas do pijama, de um preto ruo e enodoado, que haviam sido cortadas do lado esquerdo, quase  altura da virilha. O tero mdio 
da coxa esquerda estava envolto em ataduras. Os braos, finos como as pernas, manchados de equimoses arroxeadas, pendiam ao longo do tronco descarnado. As costelas 
apareciam em relevo na pele de um amarelo citrino, reluzente de suor. Manchas de carvo riscavam-lhe as faces como grafitos indecifrveis. O tenente continuou o 
exame, tomado de uma fascinao que no saberia explicar. Via a jugular do rapaz pulsar ao ritmo do sangue. (Relampagueou-lhe na mente uma imagem de seu passado 
universitrio. Em cima do estrado, o professor dizia: "Cinestesia  o termo tcnico que usamos para exprimir a sensibilidade corprea, proprioceptiva, isto , esse 
conjunto de sensaes ,que nos vem de nossos msculos, de nossas vsceras, juntas, tendes e outras partes de nosso corpo.")         Podia quase ver as batidas do 
corao do prisioneiro. Seus mamilos eram pardos. O umbigo sugeria grotescamente um clitride. A todas essas, ele evitava encarar o rapaz. Houve, porm, um momento 
de reconhecimento mtuo em que os olhares de ambos se encontraram e ento o tenente, perturbado, viu a prpria imagem reflectida nas pupilas de K., agora metidas 
no fundo das rbitas do minsculo guerrilheiro. Havia entre K. e seu assassino uma parecena que no era propriamente de traos fisionmicos, mas de clima - uma 
espcie de ar de famlia.
   O prisioneiro sorriu, e isso aumentou a confuso do tenente. No era um sorriso altivo de desafio ou desdm, nem mesmo um ricto de indiferena. Havia naquele 
mal definido movimento de lbios, algo de pattico. Uma mensagem em cdigo? o sinal de que tinha instintivamente reconhecido no soldado estrangeiro moreno um secreto 
aliado? Era possvel que o nativo tivesse logo intudo sua origem racial? Ou seria apenas esse incerto sorriso infantil, misto de desmaiado medo e tmida esperana 
e j quase arrependimento, com que o aluno que acaba de cometer uma travessura na aula, sonda a possibilidade de comprar a benevolncia do professor que o vai punir? 
E o terrorista no parecia mesmo um menino de escola posto de castigo ali no canto, na frente da classe?
   - Estamos perdendo tempo. Meia-noite e quarenta e cinco!
   O tenente voltou-se para o homem que acabava de falar. O sargento tinha quase dois metros de altura, o porte atltico, a cabea completamente raspada. Vinha dele 
um cheiro activo de suor.
   S agora o tenente percebia que tinha atrs de si o mdico, e que uma terceira pessoa estava encostada na parede, num dos cantos do cubculo: um sujeito plido, 
magro, de culos, tambm em uniforme como os outros.
   Em cima da mesa tosca, viu uma lmpada apagada, um jarro com um lquido cor de mel, onde boiavam cubos de gelo, copos de papel, um gravador de fita magntica 
e um cinzeiro sobre o qual jazia a metade de um charuto recm-fumado, uma das pontas mascada e ainda reluzente de baba. Aquela mesa e cinco cadeiras constituam 
o mobilirio daquela cela toda de pedra rusticada. Era decerto aqui - pensou o tenente - que os "outros" torturavam seus prisioneiros.
   Olhou em torno, tonto, sem saber por onde comear. A cabea continuava a doer-lhe surdamente. Buscou em vo uma janela. O calor e o abafamento ambiente aumentavam. 
O homem plido de culos aproximou-se dele e identificou-se.
   - Sou o intrprete. - Revelou o nome por inteiro, o posto, e a unidade a que pertencia. Depois perguntou. - No ser conveniente aproximar o prisioneiro da mesa?
   - Boa ideia.
   O sargento deu dois passos na direco do prisioneiro, agarrou a cadeira em que ele estava sentado, ergueu-a no ar e praticamente a atirou no cho, junto da mesa. 
O nativo soltou um gemido, mordeu o lbio e seus olhos se empanaram. Deve ter batido com o ferimento na perna da mesa, concluiu o tenente. O mal-estar fsico comeava 
a embotar-lhe a capacidade de indignar-se.
   - E agora, tenente? - perguntou o homenzarro.
   Sua antipatia pelo sargento aumentava de minuto para minuto.
   Voltou-se para o mdico, como para lhe pedir auxlio, mas este, sem o encarar, murmurou:
   - Peo que me escuse. Tenho boas razes para no gostar... a... destas coisas. Estarei no corredor, se precisarem de mim.
   O tenente sacudiu afirmativamente a cabea. O capito encaminhou-se para a porta mas, antes de sair, voltou-se e, de maneira a que todos ouvissem, disse:
   - Quero mais uma vez preveni-lo, tenente, de que esse rapaz tem um corao enfermo.
   O sargento sorriu sarcstico:
   - Est certo de que este percevejo tem mesmo corao?
   O mdico simplesmente voltou-lhe as costas e se foi sem dizer mais palavra.
   Sentaram-se os quatro  mesa, como se fossem comear um jogo de cartas amistoso. O sargento acendeu a lmpada e uma luz intensa incidiu sobre o prisioneiro, que 
piscou ofuscado. O tenente. despejou ch num copo e bebeu dele, sfrego.
   - No acho isso necessrio - disse. - A luz s pode aumentar o calor.
   - Tenente, no conheo sua experincia em matria de interrogatrios. Mas na Polcia ns metamos em cima dos tipos uma luz ainda mais forte que esta. Garanto-lhe 
que dava resultados...
   O prisioneiro mantinha os olhos entrecerrados. O tenente notou que a sua jugular agora pulsava num ritmo acelerado.
   A memria tornou a mandar-lhe imagens acompanhadas de ecos de vozes. O professor universitrio explicava: "Cada pessoa  um idioma em si mesma, uma aparente violao 
da sintaxe da espcie."
   - Posso fumar? - perguntou o sargento. E, sem esperar resposta, prendeu entre os dentes o toco de charuto, riscou um fsforo, acendeu-o, inalou a fumaa, soltou 
uma baforada. O prisioneiro ficou olhando com ar divertido para as volutas azuis que subiam no ar espesso. O intrprete tirou um cigarro do bolso e tambm o acendeu: 
o olhar do prisioneiro voltou-se para ele e depois se fixou no tenente, como a esperar que este fizesse o mesmo que os outros. A sintaxe da espcie... Ali estavam 
ao redor da mesa algumas frases do contexto humano. A sua combinao no parecia fazer o menor sentido para o tenente. Que tinham aqueles quatro homens em comum, 
como membros da mesma espcie animal? O desejo de sobreviver e de obter prazer da vida? O medo da morte? A capacidade de amar, de odiar... sim, e de aborrecer-se? 
O desejo de poderio e de auto-afirmao? Talvez tambm o amor  liberdade. Mas que era liberdade? Qual dos quatro era realmente livre? Talvez aquele sujeitinho amarelo, 
raqutico e seminu que, se no tinha podido escolher a sua vida, pelo menos fora suficientemente livre e corajoso para escolher a sua morte. E, acima de tudo, no 
era estpido, absurdo o conjunto de circunstncias que havia reunido ali aqueles quatro "idiomas"? Talvez a combinao daquelas "frases" formasse o incongruente 
discurso de um parafrsico que, no fundo, podia bem ser uma espcie de tentativa de descrio do caos...
   O tenente tinha a impresso de que sua cabea inchava aos poucos, era um porongo dolorido cheio de ecos. E seus olhos passeavam de pulso em pulso, de relgio 
em relgio. Meia-noite e cinquenta.
   O prisioneiro continuava a sorrir e a observar aqueles trs homens grandes.
   - Estamos perdendo tempo - rosnou o sargento, mordendo forte a ponta do charuto.
   O tenente voltou-se para o intrprete:         
   - Bom, vamos comear o interrogatrio. - Falava e via-se e ouvia-se no acto de falar, como se fosse uma terceira pessoa na qual no chegava a acreditar completamente. 
- Minha ideia  fazer-lhe uma srie de perguntas, algumas delas at fteis, e de repente, de surpresa, lanar a pergunta essencial: "Onde est a bomba?"
   - Isso  pura perda de tempo! - exclamou o sargento, insolente.
   O tenente encarou-o e teve gana de esbofete-lo.
   - Voc tem por acaso - perguntou - a frmula mgica para arrancar desse menino a confisso que desejamos?
   Os olhos do homenzarro entrecerraram-se e seus lbios se crisparam num sorriso cruel.
   - Ah, tenente! Se tenho! Uma frmula que nunca falhou, que me lembre. - Inclinou-se sobre a mesa na direco do outro. - Depois que a sua "psicologia" fracassar, 
eu vou empregar o meu mtodo.  simples. E velho como o mundo.
   O tenente olhou para o intrprete. Podia jurar que o suor que escorria daquela cara lvida era gelado. Ali estava um soldado que cumpria com eficincia o seu 
dever, tratando de no comprometer a alma. Outro neutro.
   O sargento estendeu a mo para o prisioneiro, e quase lhe tocou o ombro.
   - No se iludam com esse ar de inocncia. Conheo bem esses bandidos. H menos de um ms, metade de meu peloto perdeu-se no matagal e caiu numa emboscada. Encontrmos 
mais tarde todos os nossos companheiros mortos, numa clareira. Tinham sido trucidados... estavam todos com as rbitas vazias. Os olhos jaziam no cho ao lado dos 
cadveres, podres e cobertos de formigas...
   Lanou um olhar de dio para o prisioneiro, que continuava a sorrir inefavelmente como os mandarins de pedra da esplanada do museu. o tenente olhava fascinado 
para o bceps do sargento, onde via uma mulher nua tatuada - uma fmea de quadris largos, fartos seios, pbis negro.
   O prisioneiro tinha agora ambas as mos espalmadas sobre a beira da mesa. Eram minsculas e de unhas tarjadas de preto.
   O tenente queria induzir-se a odiar o prisioneiro para facilitar o interrogatrio. Dizia-se a si mesmo: foram essas as mos aparentemente inocentes que colocaram 
no Caf Caravelle a bomba que matou K. Ele  o assassino da mulher que eu amava. Mas qual! De certo modo o prisioneiro era K. Por outro lado, no teria ele o direito 
de mandar pelos ares, em pedaos, os homens que vendiam e compravam o corpo de sua irm, mesmo que fosse preciso aniquilar tambm a vtima nesse acto de vingana?
   Por alguns instantes o tenente e o intrprete, sob o olhar cptico do sargento, ficaram a combinar o gnero de perguntas que iam fazer ao prisioneiro. O homem 
plido taquigrafava as suas notas numa caderneta.
   Olhavam os trs para o pequeno guerrilheiro, que tinha ainda os olhos postos no tenente, agora com uma das sobrancelhas erguidas interrogadoramente. O intrprete 
torceu um dos botes do gravador, acendendo um olho verde. Apertou uma tecla e os dois carretis que continham a fita magntica comearam a rodar. O prisioneiro 
olhava entre intrigado e divertido para o aparelho. E o interrogatrio comeou.
   Durou vrios minutos, pontilhado pelos suspiros impacientes do sargento, que havia tirado o bluso, com o qual enxugava repetidamente o torso suarento, e que 
andava de um lado para outro na cela, como um animal enjaulado.
   O prisioneiro reafirmava a sua responsabilidade na exploso da bomba que destrura o Caf Caravelle? Sim.
   Tinha ajudado a plantar uma segunda bomba noutra parte da cidade?
   Tinha.         
   Porqu?         
   Recebera ordens.
   De quem?         
   Do chefe.
   Quem era o chefe?         
   No podia dizer.         
   Porqu?         
   Ordens.
   Onde estava a segunda bomba? (Sorriso. Silncio. O prisioneiro fez uma das mos avanar timidamente e acariciou o microfone com a ponta dos dedos.)
   Como se chamava?
   No tinha nome.
   (Ao ouvir a traduo desta ltima frase, o sargento berrou: "Estamos perdendo tempo!" O tenente olhava mesmerizado para o prisioneiro. A lavagem de crebro a 
que os comunistas haviam submetido aquele menino - pensava-lhe tinha apagado at o nome.)
   Onde morava?
   Por a...
   Nas Montanhas?
   No.
   Nos arrozais?
   No.
   Onde ento?
   Onde fosse necessrio.
   Onde estava a segunda bomba? (Sorriso e silncio.)         
   Tinha passado a ltima noite em alguma sampana?         
   Sim.
   Onde?
   Em alguma parte do rio.         
   Naquele mesmo rio que banhava a cidade?         
   Sim.
   Onde estava a segunda bomba?         
   No podia dizer.
   Quem era o companheiro morto? 
   Irmo.
   Como se chamava?
   No podia dizer. 
   Porqu?         
   Ordens.
   A que horas ia explodir a segunda bomba?         
   No sabia.
   Seu irmo declarara que a segunda bomba ia explodir s 4 da madrugada. Era verdade?
   Se ele dissera, devia ser verdade.         
   Sabia que essa exploso podia causar a morte de dezenas de pessoas inocentes?
   Sabia.
   E isso lhe era indiferente?
   Mais de metade de sua famlia tinha morrido queimada numa aldeia bombardeada pelos avies dos brancos.
   Lembrava-se exactamente do lugar onde ajudara o irmo a colocar a segunda bomba?
   Sim.         
   Onde era?
   No podia dizer.         
   Sabia que podia ser entregue s autoridades do Sul. caso em que seria inapelavelmente fuzilado?
   Sabia.
   No tinha medo de morrer?
   Nunca esperara escapar com vida daquela misso.
   Onde estava a segunda bomba?         
   No diria jamais.
   Nem mesmo que lhe prometessem a liberdade em troca da confisso?
   Nem mesmo.
   Neste ponto o sargento precipitou-se para o gravador, apagou-o, encarou o tenente e exclamou:
   - Esse sujeitinho no  nenhum super-homem! Pode ser, no mximo, um super-rato. Mas eu sei como arrancar a confisso desse pigmeu em cinco minutos!        
   Turvou-se a imagem do prisioneiro ante os olhos do tenente. Parecia pairar no ar esfumaado como uma apario sobrenatural. K. em cima da cama, nua. Esttua de 
cobre. Aqueles homens iam violar o prisioneiro como o brutal legionrio violara a K. de doze anos. E ele assistiria a tudo inerte (ou ia fugir?) como fizera quando 
os trs homens brancos tinham agredido e espancado seu pai. Seu olhar fixava-se na jugular do rapaz, que pulsava vivamente. O mau cheiro do suor no homem tatuado, 
agora mais prximo dele, sufocava-o.
   O interrogatrio prosseguiu durante pouco mais de meia hora, mas sem nenhum resultado positivo.
   O sargento dirigiu-se ao intrprete:         
   - Pergunte a esse rato se ele no tem medo que eu esmague seus escrotos sujos.
   O intrprete hesitou, mas como no notasse nenhuma reaco desfavorvel no rosto do tenente, formulou a pergunta ao nativo, na lngua deste. O prisioneiro sorriu 
e encolheu os ombros.
   O sargento olhou o prprio relgio-pulseira:         
   - Uma e vinte!
   O tenente ergueu-se.         
   - Vamos tentar o pentotal. Chame o doutor.
   O sargento ergueu os braos, apareceram-lhe os cabelos louros e hmidos das axilas.
   - Santo Deus! Vamos perder mais tempo ainda com essa bobagem. Sabe que se o pentotal falhar, precisaremos esperar um tempo antes que o prisioneiro esteja em 
condies de responder de novo s nossas perguntas?
   O tenente cerrou os dentes:
   - Eu lhe dei uma ordem, sargento. Obedea.
   O homenzarro lanou para o seu superior hierrquico um olhar em que havia um misto de rancor e desprezo, e saiu da cela. Voltou poucos segundos depois com o 
mdico.
   - Vamos tentar o pentotal sdico, doutor - disse o tenente.
   O prisioneiro olhava meio espantado para o recm-chegado, que abriu a maleta e comeou a preparar a seringa e a agulha em meio do silncio. Quebrou uma ampola, 
meteu dentro dela a agulha e puxou o mbolo da seringa.
   - Faam o favor de segurar o brao do rapaz - pediu, no se dirigindo particularmente a ningum. O tenente avanou, sentindo um estranho desejo de tocar a pele 
do prisioneiro.
   O mdico passou um chumao de algodo embebido em lcool sobre a prega do cotovelo do paciente.
   - Tem veias sumidas... - murmurou, - Mas aqui est uma boa... - Cravou nela a agulha e foi pressionando devagarinho o mbolo. O prisioneiro olhava o prprio brao, 
curioso, e de quando em quando erguia a cabea e focava o olhar no rosto do tenente, como a pedir-lhe explicao de tudo aquilo.
   Agora o tenente sentia contra o flanco as batidas do corao do guerrilheiro. Houve como que um momento de comunho. Ele pensou de novo em K. e lhe veio uma sbita 
pena dela, do prisioneiro e de si mesmo, e uma vontade quase irreprimvel de chorar. O sargento, de braos cruzados, esperava.
   O mdico levantou-se:
   - No acredito que o pentotal o faa confessar o que vocs querem. Tenho observado muitos casos. Em alguns o paciente consegue controlar-se e dizer apenas o que 
quer, apesar da sonolncia. Noutros, entra a fazer fantasias. Mas vamos ver. - Guardou a seringa na bolsa, voltou-se para o tenente. - Se houver alguma novidade, 
estou no corredor.
   Retirou-se. O intrprete tirou o bluso, queixando-se do calor. O sargento acendeu um cigarro. O tenente segurou com ambas as mos a cabea do prisioneiro e mirou-o 
nos olhos, que estavam j embaciados. O rapaz sorria sempre. Parecia agora numa beatitude de nirvana.
   O sargento olhou o relgio. Uma e meia. Coou o peito, onde se viam tatuados uma ncora e nomes de mulheres sob ramos de flores.
   Dentro de alguns instantes o nativo deixou pender a cabea para trs. O tenente segurou-a, e pensou no filho, certa noite de um remoto Inverno em que o menino 
havia adormecido em seus braos. O sorriso continuava no rosto citrino. Os lbios moviam-se produzindo sons. O tenente olhou interrogadoramente para o intrprete, 
que se apressou a pr em funcionamento o gravador.
   - Agora, silncio, por favor. - Ergueu a voz e perguntou na lngua do nativo: - Onde est a segunda bomba?
   Aproximou o microfone da boca do prisioneiro, que comeou a falar. Pronunciava palavras soltas, formava frases, que o intrprete ia anotando. De vez em quando 
este fazia uma careta, como para significar que no estava entendendo nada. Os carretis do gravador rodavam. O tenente olhava para os cabelos empastados de barro 
do prisioneiro. Tinha nas mos a cabea do filho que acabava de ser ferido por homens brancos,  sada da escola.
   O menino sangrava. O seu sangue...
   O prisioneiro parecia agora mais animado, e o tenente teve a impresso de que ele falava mais claro. A expresso do rosto do intrprete, entretanto, revelava 
decepo, quase irritao.
   O prisioneiro continuou a falar, lentamente. Seus lbios pareciam beijar o microfone. o sargento olhava para o relgio, impaciente.
   Por fim o terrorista calou-se, cerrou os olhos e caiu no sono.
   - Que foi que ele disse? - perguntou o tenente, olhando para o intrprete.
   Este fez os carretis rodarem em sentido contrrio, e pouco depois, apertando em algumas teclas, ps o alto-falante a funcionar. E foi traduzindo para os outros 
as lentas palavras do prisioneiro que o gravador reproduzia.
   A segunda bomba? Ah! A segunda bomba. Onde foi mesmo que deixmos a segunda bomba? A segunda bomba? Ah! Meu irmo me roubou a pomba que meu av me deu. (Aqui 
se ouviu a voz do intrprete: "No  isso! Quero saber onde est a segunda bomba. Lembra-se da primeira?") Lembra-me da primeira. Era branca. ("No! A segunda bomba. 
A primeira explodiu h poucas horas no "Caf Caravelle"... Lembra-se?") Lembro-me. ("Onde est a segunda bomba?") Ah! A segunda bomba? Escondemos a segunda bomba... 
a segunda bomba no corao de um grande lato... um grande lato no meio da lagoa... As quatro da manh o lato vai explodir... bum! e todos os latos do mundo... milhes... 
milhes!... vo pelos ares... com os peixes de todas as guas... e os peixes caem mortos na terra... e apodrecem... e seu fedor ser levado pelo vento... e todos 
os brancos fugiro perseguidos pela podrido dos peixes... Ah! Mas em Setembro sopraro as mones de sudeste trazendo as grandes chuvas... e as guas lavaro o 
ar... e de novo o mundo ficar limpo... e o Sol brilhar outra vez... ah!... brilhar por cem anos lunares... e ento toda a gente ter peixe e arroz... e ch... 
ah!... um dia Buda descer do cu, num avio de ouro, e os latos nascero de novo em todas as guas... E o meu irmo me devolver a pomba que meu av me deu...
   O sargento avanou, gritando:         
   - Rato imundo!
   Estas palavras soaram na mente do tenente como Negro imundo! E o homem tatuado segurou o prisioneiro pelos ombros e ps-se a sacudi-lo com furiosa fora, e a 
cabea do rapaz escapou das mos do tenente e ficou a oscilar de um lado para outro como se seu pescoo fosse de pano.
   - Tenente, falta menos de duas horas para a bomba explodir! Precisamos reanimar este cachorro para continuar o interrogatrio. Eu lhe disse que amos perder o 
nosso tempo!
   O oficial olhou para o intrprete:
   - Chame o doutor. Depressa!
   O sargento rompeu a esbofetear o prisioneiro, frentico. As faces do tenente ardiam. E ele desejou matar a tiros o brutamontes.
   O coronel dormia profundamente, estendido no sof de seu gabinete de trabalho. Ressonava forte e a intervalos soltava gemidos, como se estivesse sofrendo um pesadelo.
   No mesmo andar daquele edifcio o major estava sentado  sua mesa, respondendo a um chamado telefnico:
   - Nada ainda? (Pausa.) Onde? A Universidade?  improvvel, mas no podemos deixar de verificar. Principalmente nos dormitrios. Sim, diga que me telefonem se 
descobrirem alguma coisa...
   Reps o fone no lugar. As plpebras pesavam-lhe. Ardiam-lhe os olhos injectados. Passou a mo pelas faces, a contrapelo, e sentiu a aspereza da barba.
   Apanhou um lpis e comeou a fazer rabiscos na folha de papel que tinha diante de si, e onde se viam vrios nomes de pessoas politicamente importantes na cidade 
- e cujas casas ele recomendara fossem cuidadosamente revistadas.
   Fazia pouco, um ajudante entrara em seu escritrio para lhe comunicar que o interrogatrio fora interrompido porque o prisioneiro cara no sono.
   Ele no acreditava no pentotal. Para falar a verdade, comeava a no acreditar em mais nada. Gases produziam-lhe dores abdominais. (Devia ser o maldito peixe 
que comera ao jantar.) Seria o cmulo se agora casse com uma intoxicao alimentar. E a de peixe deteriorado era a pior. Fatal, s vezes. Lembrava-se de casos... 
E por falar em caso, o seu ficaria resolvido se ele morresse. Um peixe podre teria tido o poder de solucionar um problema tico, sentimental, familiar. Mas se por 
acaso sobrevivesse, poderia escrever uma grande tragicomdia intitulada Jocasta e o Peixe Podre.
   Fizera uma lista dos lugares que deviam ser revistados. Templos e pagodes. Cinemas. (Tolice, pois s quatro da madrugada todos os cinemas estavam vazios.) Hotis. 
Sim, todos os hotis estavam sendo cuidadosamente esquadrinhados: foyers, quartos, corredores, pores... Os hospitais recebiam um "tratamento especial". A casa do 
arcebispo tambm. Mas como poderiam encontrar, no espao de to curtas horas, uma bomba escondida numa cidade de cem mil habitantes? A princpio pensara em sugerir 
ao comandante que fizesse soar um alarme geral. Desistira da ideia, compreendendo que isso poderia criar pnico e agravar a situao.
   Acendeu o cachimbo e comeou a fumar, olhando fixamente para o telefone. Dentro de alguns segundos, embora no desviasse o olhar do negro foco, no viu mais o 
objecto, mas as imagens e ideias que lhe passavam atropeladas pela cabea.
   Que  que estou fazendo aqui? Sou um robot. Um robot gordo. Apertem num boto e eu me ponho a marchar como um soldado de mola. Um-dois! Um-dois! Apertem noutro 
boto e eu repetirei as ordens que me deram. No! O que sou mesmo  um menino exemplar. Eu amo a minha Mam. Amo a minha Ptria. (Cantou baixinho em falsete os dois 
primeiros versos do hino nacional.) Sou um bom escuteiro que toma a mo das senhoras idosas e as ajuda a atravessar a rua. Todos os dias fao uma boa aco. Que 
boa aco fiz hoje? Entreguei um nativo raqutico a trs sujeitos grandes para lhe arrancarem um segredo. Sou um ptimo petiz. Se um dia eu derrubar uma cerejeira 
a machadadas e me perguntarem quem foi que fez isso, porei a mo no peito e direi: "Fui eu. o bom menino nunca mente!" Dem-me a liberdade ou dem-me a morte. Mas 
que  a morte? Dormir, sonhar, quem sabe? No fundo, todos somos actores. Representamos vrios papis ao mesmo tempo. Uns mal, outros bem. No fundo, todos uns impostores. 
Diz o poeta que a vida no passa de um sonho de Vero. Sonho de Vero, uma merda! Talvez tivesse sido melhor fazer soar o alarme. Seja o que Deus quiser. Do alto 
de seu trono Ele se ri desta comdia. Talvez no exista bomba nenhuma. o terrorista que morreu quis apenas fazer piada. o seu ltimo trote. A segunda bomba bem pode 
ser uma mistificao. A vida  outra mistificao. Mas eu sou um bom menino. S existem duas cores: o preto e o branco. Ns somos do lado do branco, eles do preto. 
Quem afirmar que existem matizes  inocente til. Ou alienado. Ou inimigo de Deus, da Ptria, da Famlia. (Bocejou longamente.) Mas eu sou um bom escuteiro. Somos 
uma nao de escuteiros. Estamos ajudando o mundo a atravessar a rua da pobreza e do subdesenvolvimento rumo da outra calada onde se enfileiram as deslumbrantes 
lojas que vendem os nossos rdios, os nossos condicionadores de ar, os nossos televisores, os nossos automveis... os cinemas onde passam nossos filmes em que brilham 
os nossos heris, flores da raa humana.
   Soergueu uma das ndegas, contraiu os msculos do abdmen e soltou explosivamente, num som insolente de trombeta, parte dos gases que lhe comprimiam as tripas. 
Este  para a Ptria - murmurou. Repetiu com o mesmo xito a operao pneumtica e pensou: Este  para a Famlia. Tentou produzir uma terceira exploso, porm o 
mais que conseguiu foi uma ventosidade sem vibrao nem msica. Bom, este  para a Humanidade.
   Ergueu-se. A segunda bomba podia ter sido mesmo a derradeira empulhao do bravo guerrilheiro. Mais um logro entre os muitos logros de que seu Governo fora vtima 
desde o dia em que os seus soldados haviam pisado pela primeira vez aquele solo maldito.
   Aproximou-se da janela e ficou- a olhar para o jardim. o ar continuava parado e opressivo. Pensou na mulher e nos filhos, mas dessa vez sem ternura.
   Talvez, pensando bem, o mundo nada mais fosse que um produto dos gases intestinais que o Criador soltara apocalipticamente no infinito, formando a nebulosa inicial 
Os homens nesse caso nada mais seriam que subprodutos das fezes divinas. Ou protozorios que se alimentavam delas ...
   o telefone tornou a tilintar.
   Os trs interrogadores estavam sentados  mesa, enquanto o doutor ocupava-se com o prisioneiro, procurando reanim-lo.
   o sargento relanceou o seu relgio e disse:
   - Temos apenas uma hora e pouco pela frente. - Olhou intensamente para o tenente e rosnou. - s quatro em ponto uma bomba vai explodir em alguma parte da cidade. 
Mulheres, crianas e velhos sero estraalhados... Dez, doze, vinte, trinta, cinquenta... quem sabe? Pense bem, tenente, a vida dessa gente est em suas mos. Porque 
hesita?
   o outro no respondeu. Debatia-se numa dvida. Sabia que o sargento queria que ele lhe autorizasse o emprego da violncia. Quero resultados- tinha dito o coronel. 
- No farei perguntas.  uma operao aritmtica. Respirava com dificuldade, como se um cinturo de ao lhe apertasse o peito e a garganta. Estava banhado em suor. 
Os olhos do brutamontes no lhe davam trgua. A mulher tatuada em seu biceps tambm suava. o intrprete brincava com a lapiseira, rabiscava uma que outra palavra 
no seu caderno de notas. Encolhido na sua cadeira, o prisioneiro parecia ter diminudo de estatura fsica. 
   Que fazer? Havia pouco, o maior mandara indagar sobre a marcha do interrogatrio e seu emissrio lhe informara que a busca da bomba at quele momento no havia 
apresentado nenhum resultado positivo. Que fazer, santo Deus?
   - Faltam apenas sessenta minutos para a exploso... - disse pouco depois o sargento. - O senhor, tenente, ser o responsvel pela morte de muita gente...
   o prisioneiro olhava para o tenente. Este olhava para o prisioneiro. Pareciam hipnotizados um pelo outro. Ele  um assassino - pensava o oficial. - Ele matou 
K. Se eu autorizar o sargento a usar violncia, isso no implicar necessariamente na morte desse rapaz. Mas  monstruoso!
   - Faltam cinquenta e oito minutos...
   o intrprete estendeu a mo, apanhou o jarro e despejou no seu copo o ch que nele restava e bebeu-o. o tenente continuava a olhar para o prisioneiro, que o doutor 
agora fazia levantar-se e conduzia para junto da mesa.
   - Acho que este rapaz j est em condies mentais de ser de novo interrogado - disse ele com ar soturno.
   - Mas no se esqueam de que seu corao  fraco.
   - Est bem, doutor- retrucou, spero, o sargento. - Deixe isso por nossa conta.
   Os cadveres carbonizados no asfalto. K., de olhos vidrados, metade do corpo queimada. A estudante budista em chamas. Seu pai surrado na rua por trs homens parecidos 
com o sargento... o prisioneiro olhava para ele - sentia o tenente - e parecia esperar dele uma palavra, um gesto, qualquer coisa...
   E aqueles trs pequenos relgios a baterem e caminharem inapelavelmente para a hora da exploso! Talvez a bomba estivesse na casa de sua amiga a professora. Ou 
no orfanato que ela dirigia. Imaginou as crianas mutiladas, desmembradas, desventradas, feitas uma polpa sangrenta.
   - Cinquenta minutos... - disse o sargento, passando o bluso pela cabea, pelo pescoo, pelo peito. Seu cheiro envolvia o tenente, entrava-lhe pelas narinas, 
pela boca, pestilencial. o cubculo parecia um forno aceso.
   - Vamos, tenente. Basta uma palavra sua. Diga-a antes que seja tarde de mais.
   o sargento segurava o seu brao, apertava-o com fora crescente como se quisesse comear a tortura por ele.
   - No tem coragem?
   o tenente encarou o interlocutor e, desvencilhando-se dele bruscamente, disse, rouco:
   - o suficiente para lhe quebrar a cara, sargento.
   o outro soltou uma risada.
   - Isso! Agora estou gostando. Mas no sou eu quem est em jogo. Vamos "acariciar" um pouco esse rato para ele dizer onde est a bomba. Seja homem!
   o tenente ergueu-se, evitando olhar para o prisioneiro. E berrou:
   - Est bem! Empregue... o seu mtodo!
   o rosto do sargento iluminou-se. Ele se ps de p, brusco, derrubando a cadeira.
   - Muito bem, tenente! Mais tarde, se quiser, pode me quebrar a cara. Mas agora vamos tratar do heri amarelo.
   o tenente estava aturdido.
   - Mas a coisa no pode ser assim to vaga - prosseguiu o homem tatuado. - Quero ouvir e registrar uma ordem explcita de sua parte. - Dirigindo-se para o intrprete 
e, mostrando com o beio o gravador, pediu: - Faa essa mquina funcionar.
   o outro obedeceu. Acendeu-se de novo o olho verde e os carretis recomearam a rodar. o sargento apanhou o microfone e aproximou-o da boca do seu superior.
   - Espero as suas ordens, tenente.
   o oficial hesitou. Veio-lhe  mente a palavra kamikaze. Quando adolescente havia lido relatos sobre a Segunda Grande Guerra, e uma das coisas que mais o impressionavam 
eram as trgicas faanhas dos aviadores amarelos que, para no errarem o alvo, atiravam-se com seus avies carregados de bombas sobre os encouraados inimigos e 
morriam no holocausto. Ele agora ia fazer um kamikaze moral. Gritou:
   - Se necessrio, pode usar a violncia para arrancar do prisioneiro a confisso que vai salvar da morte pessoas inocentes...
   Ia voltar as costas para o sargento, quando este tornou a falar.
   - No, tenente,  preciso ficar tudo documentado. Diga em voz alta e clara o seu nome e confirme a ordem.
   o tenente fez aos berros o que o outro lhe pedia. Disse o seu nome, o seu posto, deu o seu nmero e repetiu:
   - Se for necessrio, pode torturar o prisioneiro! Sob a minha inteira responsabilidade!
   Tremia da cabea aos ps. No era ele que tinha falado. Mas outro, um desconhecido, um impostor, um ssia infernal. Porque havia feito aquilo? Detestava a violncia. 
Amava o prisioneiro. Amava K. Odiava o sargento e sua raa. Mas era um kamikaze. Acabara de assinar a sua prpria sentena de morte. Era tarde de mais para voltar 
atrs.
   o sargento havia desligado o gravador e afastado a mesa.
   o tenente precipitou-se para fora da cela, batendo a porta atrs de si, e saiu a andar s tontas pelo corredor deserto. Mas no to depressa que no pudesse ser 
alcanado por um grito humano horripilante, um urro de animal ferido de morte. Levou as mos ao meio das pernas, encostou uma face na parede da galeria, depois tapou 
os ouvidos com os punhos.
   Por alguns instantes ainda ouviu os gritos lancinantes do prisioneiro, entremeados das exclamaes do sargento. Depois - quanto tempo? dois minutos? trs? cinco? 
dez? - fez-se um grande silncio.
   Uma figura surgiu no fundo do corredor e aproximou-se do tenente, a passo acelerado. Era o capito-mdico, que exclamava:
   - Suspendam o interrogatrio! Foi encontrada a bomba!
   o tenente olhou para ele, aparvalhado, como se no tivesse compreendido o sentido daquelas palavras. Enquanto ambos caminhavam na direco da cela, o doutor contou:
   - Uma irm do prisioneiro procurou um de nossos oficiais e confessou tudo espontaneamente para salvar a vida do rapaz... A bomba tinha sido colocada no dormitrio 
de um colgio de moas... do outro lado do rio. Foi desmontada h poucos minutos...
   o mdico abriu a porta da masmorra e entrou. o tenente seguiu-o como um autmato. No primeiro relance nenhum dos dois viu o prisioneiro. o intrprete, cuja palidez 
esverdeada se havia acentuado, estava de p a um canto, dobrado sobre si mesmo, vomitando...
   Sentado  mesa e enxugando a cabea com o bluso, o sargento olhava para algo que jazia no cho da cela. Era o prisioneiro. Estava completamente nu, as pernas 
abertas, os braos estendidos, como um crucificado. Nas gazes que lhe envolviam a coxa esquerda, via-se uma larga mancha de sangue.
   o tenente olhava do sargento para o intrprete, incapaz de pronunciar uma palavra. o mdico ajoelhou-se ao p do prisioneiro e tomou-lhe o pulso. Depois testou-lhe 
o reflexo das pupilas. Apanhou o auscultador e encostou os fones no peito do nativo, procurando ouvir-lhe as batidas do corao. Ao cabo de alguns instantes, ergueu 
a cabea e disse:
   - Este homem est morto.
   o tenente sentiu um aperto de garganta. Seu corao disparou. Um suor frio comeou a escorrer-lhe ao longo da espinha. Teria ouvido bem as palavras do doutor?
   o sargento olhava para o cadver com indiferena.         
   - Tem certeza, doutor?
   - Absoluta.
   o mdico examinava os escrotos do prisioneiro.
   - Vejo sinais de tortura neste corpo - murmurou.
   o homem tatuado ergueu o carretel de fita magntica que tinha numa das mos e disse:
   - Recebi ordens do tenente. A minha prova est aqui.
   o doutor perguntou ao intrprete:         
   - o prisioneiro confessou?
   o homem lvido passou as costas da mo pela boca e sacudiu a cabea negativamente:
   - No. E eu quero lavar as mos de tudo isso. Fui designado apenas como intrprete. No cheguei a tocar o prisioneiro nem sequer com as pontas dos dedos.
   o sargento acercou-se do mdico e pousou-lhe a manopla no ombro.
   - Escute aqui, doutor.  necessrio mesmo declarar que o rapaz foi... foi torturado? Ningum lhe vai fazer perguntas. Ningum sabe que houve um interrogatrio. 
Pense bem, doutor, esse menino no poderia ter morrido simplesmente de um ataque cardaco? Ningum sabe quem . No tem nome. No  ningum.
   o mdico ergueu-se e enfrentou o homenzarro;         
   - No atestado de bito direi a verdade.
   o sargento agarrou-lhe o brao, mas o mdico desvencilhou-se dele num safano.
   - No me toque! - gritou. - E no imagine nem por um momento que me pode intimidar!
   o sargento ficou vermelho e seus olhos fuzilaram.
   o tenente no teve coragem de encarar o doutor. Saiu da cela e se foi ao longo do corredor num ritmo de fuga, em busca de ar livre.
   A cidade pareceu-lhe apenas uma ampliao do cubculo de onde acabava de fugir. o mesmo calor sufocante, o mesmo ar viciado e espesso, a mesma sensao de confinamento 
irremedivel.
   Ficou a caminhar por alguns minutos pelas ruas desertas, sem destino certo, arrastando o peso do prprio corpo, incapaz de um pensamento lcido.
   Parou a uma esquina, sentindo a memria subitamente bloqueada. Como se chamava? Esquecera o prprio nome. No tinha passado... Onde estava? No sabia. Olhou em 
torno, desnorteado.
   Sentou-se pesadamente no meio-fio, junto de um poste de iluminao, apoiou os cotovelos nos joelhos e escondeu as faces nas mos espalmadas e ficou a buscar, 
aflito, na memria dolorida a identidade perdida.
   Vinha de longe um ribombar abafado como o de uma trovoada. Pensou na chuva. desejou-a: uma chuva que casse do cu em torrentes, inundasse a cidade, lavasse aquele 
ar, formando uma correnteza que pudesse levar seu corpo... para onde? Para o mar. Viu um menino  beira de um grande rio, um barco movido a rodas, amarrado a um 
trapiche sobre o qual se amontoavam balas de algodo... Lembrava-se apagadamente da infncia, tinha uma esmaecida ideia do lugar onde nascera e cujo nome lhe soava 
na mente como o de uma cidade de uma civilizao, antiga e morta do Oriente, que ele associava a pirmides... mmias... um porteiro de hotel...
   A luz da lmpada caa em cheio sobre seu corpo. Olhou demoradamente para as prprias botas, para as calas de um pano verde-oliva. Uniforme militar. Sim, era 
um soldado. Tirou de um dos bolsos seus papis de identidade e ficou a examin-los. Pareceram-lhe escritos numa lngua estrangeira. Compreendeu que tinha um nmero... 
Era, acima de tudo, um nmero... Por fim descobriu os seus trs nomes e ficou a pronunci-los baixinho, muitas vezes, procurando neles a sua prpria pessoa, seu 
passado... E, de repente, rompeu a chorar convulsivamente como uma criana, recostado ao poste, deixando que as lgrimas lhe escorressem em grossas bagas pelo rosto, 
misturadas com o suor. Estendeu-se de costas sobre a calada, sentindo o contacto quente das pedras. Viu a Lua, alto, no cu. Se pudesse ao menos encostar a cara 
na Lua e refrigerar-se no seu gelo... Cerrou os olhos de plpebras ferradas de dor. E aos poucos foi recuperando a identidade, fantasma a fantasma, horror a horror. 
Teve a esperana - que em breve se dissipou - de que todas as coisas passadas no cubculo de onde fugira fossem apenas elementos de um pesadelo.
   De novo pesou-lhe no peito a culpa de ter sido responsvel pela morte de um ser humano. Sentia ainda nas narinas o cheiro acre do suor do sargento, o bruto que 
o obrigara a pronunciar a sentena de morte do prisioneiro... E o homem tatuado guardava consigo a fita magntica onde aquelas palavras terrveis tinham ficado gravadas.
   Ergueu-se devagarinho. Reconhecia agora a cidade. Descobria pontos de referncia, podia orientar-se. Olhou o relgio-pulseira: trs e cinquenta e cinco. De que 
dia? Ocorreu-lhe ento que dentro de menos de dez horas entraria no avio que o ia levar de volta  ptria. Sabia agora que talvez no pudesse embarcar mais como 
um homem livre, mas sim como um prisioneiro acusado de crime de homicdio.
   Caminhou at  beira do rio. Viu luzes mortias dentro de algumas sampanas. Ouviu vozes, tosses, gemidos. Um gato miou, no muito longe. Acocorou-se  beira d'gua, 
mergulhou nela o leno e depois passou-o pela testa e pelo rosto, longamente.
   Por um instante ficou escutando o bombardeio distante. Ergueu-se e saiu a andar, na direco do mercado e finalmente entrou na grande avenida que costeava o rio.
   Pensava no gravador, no olho verde, nos carretis rodando... Sua memria era uma fita magntica que registrara no s as vozes mas tambm as imagens e os odores 
daquelas horas horrendas, na cela. Pensou no prisioneiro cado sobre as lajes, morto, as pernas abertas, os escrotos esmigalhados... Santo Deus! Como tinha sido 
capaz de permitir uma coisa daquelas? E tudo intil! No momento mesmo em que o sargento torturava o prisioneiro, a bomba estava sendo desmontada pelos peritos do 
Exrcito.
   Sentiu ento uma solido insuportvel. Desejou uma presena humana e amiga. Mas quem? Quem? Passaram-lhe pela mente vrias faces... A professora! Descobriu que 
no estava longe da casa dela. Umas trs ou quatro quadras. Sim, podia procurar a professora. Mas quela hora? Ah! Ela compreenderia depois que ele lhe contasse 
tudo. Precisava abrir-se com algum, repartir com outra criatura de Deus o peso que lhe oprimia o corao. 
   Avistou a torre de uma igreja, a silhueta da cruz contra o cu. Foi ento tomado de uma sbita esperana. Conhecia o proco, com o qual uma vez trocara meia dzia 
de palavras. Parecera-lhe que o velho falava razoavelmente a sua lngua. Podia confessar-se a ele. Sim, porque no? Um alvoroo formigou-lhe no corpo. Ali estava 
a soluo! o confessionrio. A absolvio. A salvao. A paz. De olhos erguidos para a cruz da torre, continuou a andar, acelerando o passo...
   A residncia paroquial, de fachada caiada e singela, ficava ao lado da igreja. Atravessou o jardim, inadvertidamente pisando em flores (o cemitrio, a rosa do 
caminho, a liblula, o Sol) e bateu na porta da casa, primeiro timidamente, depois com mais fora. Esperou. No' ouviu nenhuma resposta. Aproximou-se de uma das 
janelas e bateu na veneziana. Finalmente ouviu um pigarro, seguido de uma voz de timbre agudo:
   - Quem ?
   o tenente repetiu o prprio nome trs vezes, tentando falar a lngua do proco.        
   - Que  que deseja?
   - Quero me confessar.
   - A esta hora da noite?
   - Por amor de Deus, padre! Tenha pacincia comigo. Preciso desesperadamente do seu auxlio.
   Misturava a lngua do sacerdote com a prpria, repetia as frases, confusamente.
   - Est bem. J vou.
   o tenente sentou-se no degrau da porta. Pensava no pastor baptista de sua infncia. Que diria ele se o surpreendesse ali  entrada da casa de um sacerdote catlico, 
a quem suplicara ouvisse a sua confisso? Seu pai e sua me tambm ficariam escandalizados.
   o ar estava embalsamado pelo odor das flores do jasmim-manga que se erguia sereno ao p da igreja.
   A porta se abriu, enquadrando o vulto escuro do proco. o tenente ergueu-se e recuou alguns passos, ficando na Parte do jardim que o luar clareava, como para 
que o velho pudesse identific-lo melhor. o padre aproximou-se e examinou-o por alguns segundos.
   - Eu o conheo?
   - Acho que no se lembra de mim... mas ns nos falmos uma vez, faz algum tempo, numa dessas aldeias...
   - Costuma vir  missa regularmente?
   - No.
   o sacerdote mirou-o em silncio. Era um homem baixo e franzino, de cabelos completamente brancos.
   -  pelo menos catlico?
   - No, sou baptista.
   - No compreendo... no me disse h pouco que queria confessar-se?
   - Sim, padre, quero. Preciso muito. Eu lhe suplico que no me negue essa graa.
   Cruzaram o pequeno ptio que separava a casa paroquial da igreja. o padre entrou na sacristia para apanhar a estola e, sempre em silncio, encaminhou-se depois 
para o recinto do templo. A luz do luar, tamisada pelos vitrais das estreitas janelas em ogiva, produzia naquele interior um lusco-fusco de madrugada que o proco 
esconjurou, acendendo o grande lustre central, para maior desconforto do tenente, que o seguira. o sacerdote fez uma breve genuflexo diante do altar-mor e depois 
entrou no confessionrio.
   - Ajoelhe-se, meu filho - pediu ele. E sua voz ecoou estranhamente na igreja vazia.
   o tenente obedeceu, tomado de um sentimento de culpa e quase vergonha, parecido com o que experimentara quando, menino, assistira a uma missa inteira, escondido 
atrs de uma coluna, num templo catlico.
   - Agora conte-me o seu problema - disse o padre em voz baixa, quase sussurrada. Seu hlito recendente a alho chegou s narinas do tenente.
   - Padre, sou responsvel pela morte de um homem.
   - Quer dizer que... matou algum?
   - Sim, indirectamente.
   - Quando aconteceu isso?
   o tenente hesitou, procurando situar-se no tempo.         
   - Faz pouco mais de meia hora... ou uma hora, talvez... no sei ao certo.
   Comeou a contar a sua histria desde o encontro com K., no quarto do Caravelle, at quele instante.
   - Por favor - pediu o sacerdote -, fale mais devagar e mais claro. No conheo bem a sua lngua.
   o tenente estava de olhos cerrados, ambas as mos apoiando a testa, agora calado, como se tivesse esquecido a prpria histria. Ouviu um mal-abafado bocejo do 
proco. Sentia agora a presena das imagens dos santos em seus nichos, espies que o espreitavam.
   - Padre, eu tinha que procurar um alvio na confisso.
   Contou seu passado mais remoto, sua condio de negro, seus remorsos. Quando de novo ficou em silncio, o padre perguntou:
   - o senhor acha que deu o consentimento para torturar o prisioneiro movido por um sentimento de vingana? Quis castigar o homem responsvel pela morte da... mulher 
que amava?
   - No, padre! Desde o momento em que vi aquele pobre menino, tive piedade dele, identifiquei-me com ele, como se ele fosse meu irmo. No houve nenhum dio... 
o que houve... o que penso que houve foi uma terrvel
   confuso de espirito... E a presena daquele homem grosseiro e brutal, esse sim, movido por um desejo de vingana. o que no consigo compreender, o que no me 
perdoo,  ter cedido  sua presso... Eu me pergunto se tive medo dele, medo fsico. Mas no creio... Foi algo ainda pior, uma espcie de medo moral, se se pode 
dizer assim. Imaginei ver os pensamentos dele: "Esse negro  um poltro, um fraco ... " E por outro lado...
   Calou-se. Pareceu-lhe que o padre ressonava. Mas tornou a ouvir-lhe a voz:
   - Continue.
   - Por outro lado, eu no queria ficar com o remorso de no ter conseguido salvar a vida de pessoas inocentes... o comandante no me deixou alternativa. No admitia 
que eu falhasse. Declarou que no faria perguntas... Me diga, padre, me diga se eu queria mesmo salvar aquelas vidas ou apenas agradar ao coronel branco... Estou 
confuso... no sei...
   - Obteve a confisso desejada?
   o tenente sacudiu a cabea.         
   - No. o rapaz resistiu a todas as brutalidades. S abriu a boca para gritar de dor. E o mais estpido, o mais grotesco  que o sacrifcio do prisioneiro foi 
intil. Uma irm sua confessou espontaneamente onde ele havia colocado a bomba... Estava por explodir no dormitrio de um colgio de moas... no me lembro em que 
parte da cidade... Veja, padre, quando autorizei o emprego da tortura eu estava, por assim dizer, tratando de salvar a vida dessas meninas... Ou estou errado, padre? 
Por amor de Deus, me esclarea. Sou um assassino?
   - No me cabe julgar.         
   - Cometi um pecado mortal?
   o sacerdote pigarreou e por alguns segundos guardou silncio. Depois, falando lentamente, escolhendo as palavras, murmurou:
   - Meu filho... todos os homens so mortais. As moas cujas vidas a exploso da bomba poderia destruir, mais tarde ou mais cedo tinham de morrer.  uma lei divina. 
Sua inteno de salv-las da aniquilao fsica, tenente, foi muito louvvel, ningum discutir isso. - De novo calou-se, tornou a pigarrear, pareceu buscar penosamente 
as palavras. - Estou pensando nas ideias pragmticas de seu comandante. Superficialmente esto certas. Mas... mas a aritmtica de Deus  diferente da dos homens. 
Para principiar, as almas no tm nmeros nem nomes do arquivo do Todo-Poderoso. Os homens possuem um esprito... uma dignidade, uma integridade e voc, meu filho, 
desrespeitou a dignidade daquela criatura do Senhor... permitindo que ela fosse torturada, vilipendiada... tratada como um objecto sem alma. Ferindo o prisioneiro, 
voc feriu tambm Deus.
   - Mas estou arrependido, padre!         
   - Est mesmo arrependido, profundamente contrito ou apenas diz isso porque deseja que eu lhe d a absolvio para alivi-lo de um insuportvel peso de culpa?
   - Juro, juro por Deus que estou arrependido! - exclamou o tenente num assomo agressivo.
   - No grite. Deus tem bons ouvidos. - Houve ento um silncio que pareceu mais um sbito vcuo. Alho no hlito do padre. A dureza dos bancos sob os joelhos. A 
sua canseira. Um desalento, uma sensao de que nada, nada no mundo fazia sentido.
   - Deus deve ter bons olhos tambm - retrucou o tenente. - Mas s vezes desconfio que Ele perdeu a memria.
   - No blasfeme, meu filho.         
   Ele comeava a sentir no padre um inimigo. Pior que isso: um estranho, indiferente  sua sorte. Um estrangeiro branco, de olhos azuis, sotaque carregado. Entre 
ambos no haveria nenhuma possibilidade de comunicao.
   Sentiu um absurdo desejo de agredir o outro, o seu Deus e a sua religio.
   - Padre... Deus deve ser branco e racista.
   - Cale-se! Respeite este templo. - Havia uma ponta de rancor na voz do sacerdote. - Voc devia ser mais humilde. Veio aqui em busca de alvio e perdo e no entanto 
est a dizer tolices e irreverncias.
   o tenente ergueu-se.         
   - No preciso do seu perdo. Nem da sua Igreja. Nem do seu Deus.
   Precipitou-se para a porta. Poucos minutos depois estava na rua, caminhando de novo sem direco certa. Do cu a Lua o seguia como o olho plcido mas implacvel 
do Deus que ele acabava de repudiar.
   Cinco minutos mais tarde estava sentado numa sala, na presena da professora. Passara pela frente da casa e, vendo duas janelas iluminadas, batera  porta, levado 
por um impulso. Sua amiga no parecera surpreendida por v-lo quela hora e naquele estado. Convidara-o logo a entrar. Agora ele nem ousava encar-la, inibido por 
um constrangimento que lhe trancava as palavras na garganta. De cabea baixa, examinava com meia ateno o desenho do tapete que tinha a seus ps, e que lhe lembrava 
vagamente - as futilidades da memria!- certa gravura colorida de uma enciclopdia que ele consultara, havia anos, para fazer uma dissertao ginasial sobre a arte 
da tapearia. A professora vestia um ao-dai de gaze azul por cima do pijama branco. Seus ps estavam metidos em chinelos. Que direito tinha ele de violar a intimidade 
daquela mulher?
   - Peo-lhe que me perdoe. Eu ia passando... No resisti ao desejo de v-la.
   - Est bem. No se explique, no  necessrio. Fique  vontade.
   Ela se sentou junto do sof, na poltrona sobre um de cujos braos jazia um livro fechado, com uma das pginas marcadas por um corta-papel de marfim. Passou os 
dedos de leve pelo dorso do volume.
   - Perdi o sono e vim para aqui ler. Deve ser o calor, o peso da noite...
   Pouco alvio lhes vinha do pequeno ventilador que rodava e zumbia em cima da mesinha, na frente do sof. Sem erguer os olhos, ele comeou a narrar os acontecimentos 
daquelas ltimas quatro horas, minuciosamente, sem pausa, compulsivamente... E sentia que a histria que contava  amiga j diferia da confisso que fizera ao proco, 
havia pouco.
   A professora escutou-o em silncio. E quando ele fez uma pausa, ainda calada, ela acendeu um cigarro e ps-se a fumar, pensativa.
   - Agora me diga - suplicou ele -, me diga com toda a franqueza, sem medo - de me ferir, - o que pensa de tudo isso. Estou confuso... H momentos em que me sinto 
um criminoso, culpado pela tortura e pela morte de um ser humano. Noutros...
   Calou-se, como engasgado.         
   - Culpado, criminoso... So termos legais e teolgicos. E a lei, como a Teologia,  uma inveno dos homens. Estamos outra vez tropeando em palavras. Mas a verdade 
 que jamais nos livraremos de sua tirania. Nem da nossa teologia ou da nossa mitologia particular. Eu prefiro dizer, sinceramente, que voc , antes de mais nada, 
uma vtima da Engrenagem. E que  preciso desmanchar essa Engrenagem e recomear tudo sobre bases novas.  um trabalho para sculos, mas algum em alguma parte um 
dia tem de comear... O que eu penso, em termos prticos,  que neste momento voc no se encontra em condies psicolgicas para chegar a uma concluso lgica sobre 
a situao...
   Ele ergueu a cabea e ficou de olhos piscos, como se a claridade o ofuscasse. A professora ergueu-se e apagou a luz do lustre, deixando s a da lmpada que caa 
directa sobre a sua poltrona. Depois saiu da sala e voltou alguns minutos mais tarde, trazendo, dobrada sobre um dos braos, uma toalha, e, segura por ambas as mos, 
uma bandeja com um jarro de limonada gelada e um pequeno balde metlico com cubos de gelo.
   - Voc deve estar com sede.
   Deu-lhe um copo grande cheio de refresco, do qual ele bebeu avidamente, esvaziando-o. A professora apontou para o sof.
   - Agora deite-se ali. Ponha a cabea na almofada. No  necessrio tirar as botas. Coloque os ps em cima desse jornal.
   Ele levou alguns segundos para compreender aquele convite... ou ordem? Por fim, fez o que a amiga lhe dissera.
   - Trate de relaxar esse corpo. Tente no pensar mais no seu problema. Pelo menos esta noite.
   Ela pegou a toalha e, ajoelhando-se junto do sof, comeou a enxugar a testa e o rosto do amigo. Ele cerrou os olhos. Sentiu depois o contacto do cubo de gelo 
que ela lhe passava pelas faces. Ela tinha trazido um pedao da Lua para junto da sua pele. Ela era a boa. Sua nica amiga...
   - E a cabea, di?
   - Um pouco.
   - Tome esta aspirina.         
   Ele abriu os olhos, meteu na boca o comprimido, soergueu-se e aproximou os lbios do copo que a professora tinha na mo, para beber um gole de limonada, e enquanto 
ele fazia isso, ela punha a mo em sua nuca para amparar-lhe a cabea, bem como costumava fazer a sua me quando ele era menino e ardia em febre na cama.
   Tornou a estender-se no sof e a fechar os olhos. De novo a amiga trouxe a Lua para a sua face. Ele sentia um alvio, um refrigrio. Era a nica, amiga que tinha 
no mundo. A imagem da prpria esposa passou-lhe pela mente como a fotografia de uma pessoa vagamente conhecida que vimos um dia, numa revista, num relance... o perfume 
que vinha do corpo daquela mulher era como uma aura do paraso. Mas que direito tinha ele  bondade dela?
   - Estou ainda constrangido por ter entrado aqui a esta hora - balbuciou, sem abrir os olhos, pois era-lhe mais fcil falar sem v-la.
   - No se preocupe. Os amigos no se pedem desculpas. Nunca. Ou ento no so amigos.
   - Voc  to bondosa, to... to...         
   - Por favor, no me endeuse. No tente me convencer de que sou boa. No sou. s vezes at acho que sou dura de mais. Se no fosse, no teria sobrevivido. Seja 
duro tambm, especialmente numa circunstncia como esta em que, mais que nunca, voc precisa de si mesmo.
   - Eu sei, eu sei, mas estou confuso. Seja franca, acha que sou um criminoso?
   - Voc se sente com inclinaes assassinas? A ideia da tortura do terrorista lhe causou algum prazer?
   - No, ao contrrio!         
   - Pois ento fique tranquilo. E aprenda a viver sem a aprovao dos outros. Contente-se com a prpria.
   - Estou certo de que no aprovo o que fiz.         
   - Est bem. Mas no estado em que se encontra, acho que devia transferir para outro dia o exame do problema. Escute... Estou pensando num aspecto da questo que 
voc talvez no tenha considerado.         
   - Qual?
   - Preste ateno. Se o prisioneiro tivesse sobrevivido, seria fatalmente entregue s autoridades locais e fuzilado pelo crime de haver colocado uma bomba num 
internato em que podia matar dez... quinze... vinte meninas... e tambm por sua responsabilidade na exploso do Caf Caravelle.
   Ela fez uma pausa. 
   - Pense nas outras bombas - continuou - milhes de vezes mais poderosas que essa engenhoca dos terroristas que era provavelmente de fabricao domstica...
   o tenente abriu os olhos e fitou-os na amiga.         
   - Que bombas?
   - Neste momento as maiores cidades do mundo, tanto do oriental como do ocidental, esto correndo o risco de serem completamente destrudas. Cada uma delas tem 
no arsenal inimigo uma bomba com o seu nome escrito nos costados. Basta que um sujeito aperte num boto...
   - Compreendo...
   - Um chefe de Estado, reunido ao redor de uma mesa com o seu Gabinete e os generais do Estado-Maior de seu Exrcito, bebendo caf, ch, vodka ou bourbon, pode 
decidir tranquilamente que seus tcnicos devem apertar nesse terrvel boto e desencadear a hecatombe. E ento tudo ir pelos ares, colgios, igrejas, hospitais, 
museus, pontes, jardins... E isso talvez signifique a extino da raa humana.
   Ele reflectia... A professora passava-lhe de novo a toalha pelo rosto.
   - o que quero dizer  que ningum parece estar muito alarmado com essa possibilidade pavorosa, isto , num grau proporcional ao estardalhao que se faz por causa 
de bombas como as que explodiram esta noite e em outras. No preciso dizer que no justifico de maneira nenhuma o terrorismo, sejam quais forem os seus motivos e 
objectivos... o que estou sugerindo  que vivemos sob o terrorismo generalizado e permanente, e que a nossa vida e a nossa morte dependem de um punhado de "terroristas" 
que operam sob os mais variados "disfarces"... Defensores da Civilizao Ocidental... da Cultura... do Proletariado... da F Crist... da Liberdade... do Comunismo 
Internacional, etc... Se essas bombas explodirem, eles no sero considerados criminosos simplesmente porque no sobraro juizes nem tribunais para os julgar e responsabilizar... 
Porque tudo ter sido destrudo, inclusive a teologia, a filosofia, as ideologias... e os apetites econmicos e polticos que inspiraram o gesto fatal...
   Ele j se sentia melhor, embora persistisse o peso na cabea. Pediu  professora que apagasse a luz, e ela lhe fez a vontade.
   - Juro que amei aquele rapaz desde o momento em que o vi - murmurou o tenente - como se ele fosse do meu sangue, meu irmo menor. Senti pelo prisioneiro uma empatia 
to grande, que quando ele estava sendo... torturado, no corredor, sem v-lo, cheguei a sentir as suas dores no meu prprio corpo... Eu sabia a espcie de tortura 
que o sargento lhe estava infligindo... esmagava o smbolo da masculinidade do rapaz. Creio que cheguei a gritar.
   - Voc se sentiu ento castrado fisicamente pelo sargento que antes, dentro da cela, o havia castrado moralmente, no  certo?
   - E o que me desespera  que hoje falhei mais de uma vez como homem. Com K. no quarto, por cima do Caf... Na cela, diante do prisioneiro, deixando-me dominar 
pelo sargento... Mais uma vez me encolhi, medroso, e fugi diante do homem branco... Lembra-se da histria da minha infncia, quando meu pai foi atacado na rua por 
trs brutamontes? Por favor, diga-me o que pensa de tudo isso!
   - O que eu penso ou deixo de pensar no devia Ter importncia para voc. Vamos nos separar talvez para sempre dentro de poucas horas. O essencial  o que voc 
pensa de si mesmo.
   O tenente rebolcou-se no sof e ficou deitado de bruos.         - O mdico vai me denunciar... Serei levado a conselho de guerra. Ou entregue  justia civil, 
quando voltar para a minha terra.
   Levantou-se, caminhou pela sala de um lado para outro, de novo tomado de uma grande angstia, e depois deixou-se cair no sof. A professora sentou-se a seu lado.
   - No estou muito certa disso. Algum correspondente de guerra teve conhecimento desse interrogatrio?
   - No creio, mas de um modo ou de outro a imprensa no tardar a saber... e naturalmente pedir a minha cabea.
   - O coronel no lhe prometeu que no faria perguntas? O maior no lhe garantiu sob palavra que hoje ao meio-dia voc estaria a bordo do avio que o levar para 
casa?
   O tenente encolheu os ombros.
   - Se forem pressionados, ambos trataro de salvar a honra do Exrcito e a prpria. No hesitaro em me sacrificar. No tenho testemunha do que esses dois oficiais 
me disseram. Mas o sargento, esse guarda consigo a fita magntica em que minhas palavras comprometedoras ficaram gravadas.
   Como nica resposta a professora teve um gesto que ele no esperava: f-lo pousar a cabea no seu regao. Nos primeiros instantes ele ficou contrafeito e tenso. 
Ela continuou a falar com a maior naturalidade:
   - No momento no h palavra ou gesto seu que possa mudar a situao. O importante  conservar a cabea fria e clara, os nervos controlados. O Sol de cada dia 
sempre traz uma luz nova. Trate de dormir um pouco, depois tome uma ducha, faa as malas, espere a hora de embarcar... e embarque!
   - Para a outra frente de batalha?.         
   - Seja para onde for. Mais tarde ou mais cedo voc ter que tomar uma posio. Nestes nossos tempos, a neutralidade no  possvel. No existem mais esconderijos 
fsicos ou psicolgicos no mundo.  a hora do compromisso.        
   - E se eu for levado a jri como responsvel pela morte do prisioneiro?
   - Lute. Defenda-se.
   - Mas ser que em minha terra um negro pode esperar um julgamento imparcial?
   - Seja como for, defenda-se, lute, lute! Se no lutar  porque pensa que merece mesmo castigo, e nesse caso nem a sua absolvio unnime por todos os tribunais 
do mundo o livrar jamais do sentimento de culpa. Mas mesmo que se sinta culpado, defenda-se, reaja. Voc tem ainda muita vida e mundo pela frente, muito tempo para 
espantar os seus fantasmas e ficar adulto definitivamente.
   Fez-se um silncio. E ento - de propsito ou num gesto distrado? - a professora comeou a acariciar-lhe os cabelos com os dedos, um dos quais em certo momento 
lhe tocou a orelha, produzindo-lhe uma ccega. Ele teve ento conscincia de que sua cabea estava aninhada sobre o vale do sexo daquela mulher. Seu corpo ressuscitou 
para uma sensibilidade que no era a da dor. Um calor, que no vinha da atmosfera ambiente, lhe acendeu a carne, e a sua virilidade despertada enrijou-se, agressiva, 
com tanta fora que ele dobrou automaticamente as pernas para esconder aquela vergonha. Ficou a respirar arquejante, a boca entreaberta, o sangue a pulsar-lhe forte. 
Temia e ao mesmo tempo desejava que ela notasse o que se passava com ele, embora tudo aquilo lhe parecesse estpido, insensato. Ali! A maciez daquelas coxas contra 
sua face! Era melhor erguer-se, correr para a porta, fugir para sempre... Mas em vez disso ele meteu mais fundo a cabea naquele recncavo clido e palpitante. E 
a sua mo, como se recebesse uma ordem que vinha do sexo e no da cabea, agarrou a perna da amiga. Sentiu imediatamente a reaco dela: um retesamento de msculos. 
Esperou que ela o esbofeteasse - sim, ele era um canalha, merecia, merecia ser esbofeteado -, mas os dedos dela lhe apertaram com fora a orelha, como a transmitir-lhe 
o recado de sua aquiescncia. -  Deus!  Deus! No permitas que isto acontea! - e sua mo, impelida por uma fora cega que ele no podia e j nem mesmo queria 
dominar, subiu por aquela perna, apertou-lhe o joelho, o princpio da coxa, por cima da seda do pijama, e dentro de um instante - como? como? como? - num silncio 
ofegante estava em cima dela no sof, a mexer-lhe nas roupas e depois a procurar com seu sexo o sexo dela. E quando o achou, foi como se descobrisse a porta de sua 
salvao, da sua libertao, da vida eterna... Segurando-a pelos ombros comeou a fazer os movimentos do amor, procurando-lhe a boca, que ela lhe negava. Os braos 
da mulher continuavam cados, o esquerdo ao longo da borda do sof, e o direito estendido ao lado do corpo. E ento, ansiado, ele descobriu, na sua confuso, que 
queria fazer-se pequeno e entrar inteiro naquela fmea, e ficar quieto, escondido, protegido para sempre e sempre dentro de seu tero... Por fim foi sacudido por 
um orgasmo sem prazer, como um doloroso esvair-se em sangue, uma espcie de morte convulsiva... Ela espalmou ambas as mos no peito dele e empurrou-o. Ele se deixou 
cair pesadamente no cho e ali ficou a respirar com dificuldade, as mos cobrindo as faces. Depois ergueu-se, acercou-se da janela, olhou para a noite, mas sem v-la, 
e desejou sumir-se. Vieram-lhe  mente os repugnantes soldadinhos amarelos que se haviam revezado sobre o corpo da menina, chupando os dentes de prazer.
   - Perdo... - murmurou ele. - No... no sei como foi... que isto aconteceu.
   A voz da amiga soou tranquila s suas costas.
   - No fale, por favor. No se explique.         
   - Mas eu... - insistiu ele, sem coragem de voltar-se.         
   - Agora pode ir embora - disse ela com uma firmeza sem rancor. - No h mais nada, nada mesmo, que eu possa fazer por voc.
   Ele se encaminhou para a porta sem nimo de olhar para trs.
   Ao entrar no saguo do hotel, esperou que os soldados que montavam guarda  porta central o prendessem, mas eles limitaram-se a lanar um olhar de morna e passageira 
curiosidade para seus documentos de identidade. Os ponteiros do relgio de parede que estava por cima da porta do refeitrio, marcavam quatro horas e cinquenta minutos.
   O tenente aproximou-se do balco da portaria e, dirigindo-se a um vulto em cujas feies no atentou, pediu-lhe a chave do quarto.
   - Ah! O senhor tenente! - exclamou o velho porteiro, mostrando a dentadura. - Sente alguma coisa? Muito plido... Cansado, no? Um conselho... V deitar-se ligeiro... 
ps voltados para o sul... quietinho. Hoje dia no-auspicioso.
   O tenente apanhou a sua chave, entrou no elevador e levou algum tempo para discernir e apertar o boto sob o nmero cinco. A gaiola comeou a subir, lenta.
   No quinto andar a perspectiva do corredor evocou-lhe a "catacumba" com tamanha intensidade, que, estonteado, ele perdeu o equilbrio e teve de recostar-se numa 
das paredes, sentindo a iminncia de uma dor entre as pernas.
   Retomou a marcha na direco de seu quarto. Um risco luminoso sublinhava a porta dos aposentos do capito-mdico. Estacou. Hesitou um instante antes de bater. 
De dentro veio uma voz: "Entre!"
   Entrou. O mdico estava sentado  escrivaninha, debruado sobre um livro. Vestia apenas as calas do pijama e estava descalo. Por suas costas de pele sardenta, 
muito branca e de poros abertos, o suor escorria.
   - Sente-se, tenente - disse ele sem voltar a cabea nem erguer os olhos do livro.
   o outro sentou-se.
   - Sabia que eu vinha?
   - Tinha quase a certeza...
   - Naturalmente me reconheceu pelo cheiro do suor - pensou o tenente num desconforto. - Sei que a hora  imprpria...
   - Para um mdico no existem horas imprprias.
   o tenente sentiu um elemento de hostilidade na maneira como o outro pronunciara aquelas palavras. Estudou o perfil do capito, que ainda no havia olhado para 
ele. o homem tinha uma cabea volumosa, testa olmpica, cabelos ruivos e crespos, culos no nariz adunco. Um intelectual judeu tpico - pensou. No podia deixar 
de admitir para si mesmo que alimentava uma certa m vontade para com os judeus. Tentava reagir contra esse preconceito absurdo, mas os motivos mitolgicos e folclricos 
de seu anti-semitismo estavam entranhados nele, vinham da infncia e da adolescncia. Ecoavam-lhe na memria vozes dos guetos negros de seu passado: "Aquele judeu 
safado da casa de mveis me logrou." - "j est a de novo o judeu da prestao." - "Raa maldita! Assassinos de Cristo!"
   o doutor fechou o livro.
   - Em que posso servi-lo?
   Esta pergunta, que devia conter um oferecimento de auxlio, j trazia, em seu mago, denunciado pela entonao em que fora feita, o germe de uma negativa.
   - Para ser franco... nem sei bem porque entrei aqui.
   o outro voltou-se para ele e ambos ficaram a entreolhar-se em silncio.
   - Acho, doutor, que o senhor bem pode imaginar o meu estado de esprito depois... depois do que aconteceu.
   o mdico ergueu-se, tirou um cigarro do mao que estava em cima da escrivaninha, levou-o  boca e acendeu-o.
   - Espero que no tenha vindo aqui para me pedir que no revele no meu relatrio que o prisioneiro foi torturado.
   o tenente sacudiu a cabea negativamente.         
   - Mesmo que eu quisesse fazer vista grossa - continuou o mdico - e no quero, note bem, no quero... a verdade acabaria por ser conhecida, pois neste momento 
o corpo do prisioneiro est sendo submetido a uma necropsia.
   - No tenho o direito de lhe pedir nada, doutor. O senhor far o que sua conscincia lhe ditar. Mas eu queria... queria ao menos que soubesse as circunstncias 
em que as coisas se passaram.
   - Estou informado de tudo. Conversei longamente com o intrprete. No tenho motivos para duvidar da validade do depoimento dele.
   - O que eu quero mesmo lhe dizer...  que no sou nenhum assassino.
   - Todos somos assassinos, por comisso ou omisso.
   Encurvado, a cabea baixa, o tenente olhava obsessivamente para os ps nus do outro, de um branco rosado, as unhas grossas e pardacentas, um calo num dos dedos 
grandes.         - Foi num momento de exasperao... de confuso de esprito... de desespero que dei aquela ordem. Pensei nas pessoas que a exploso da bomba ia 
matar... nas crianas - improvisou -, sim, principalmente nas crianas. Tenho: um filho... Fui obrigado a escolher (se  que meu estado de esprito me permitia raciocinar) 
entre me desgraar, ordenando a tortura de um ser humano, e arcar pelo resto da vida com o remorso de no ter conseguido evitar a morte de tanta gente.
   - E no  irnico que a bomba tenha sido descoberta s porque uma menina veio dos arrozais voluntariamente e revelou seu esconderijo, para salvar a vida de seu 
irmo... que quela hora provavelmente j estava morto?
   o tenente ergueu-se, num assomo de clera.
   - Mas eu no dei ordem para matar o rapaz! Consenti apenas em que o sargento aplicasse... o seu mtodo.
   - Eu lhe disse trs vezes que o estado do corao do prisioneiro era pssimo.
   Encararam-se com rancor.
   - Mas que teria feito voc no meu lugar? Me diga! Me diga!
   - No teria aceito a incumbncia de interrogar o terrorista.
   - Mas foi uma ordem superior! No me restava outra alternativa. Seria preso, se no obedecesse...
   - E isso no teria sido melhor para voc?
   o tenente tornou a sentar-se. Imagens passaram-lhe rpidas pela mente, misturadas, superpostas. K. A professora. o prisioneiro. A suicida da manh. Teve a impresso 
de que ele destrura, torturara, violara aquelas quatro criaturas. Talvez merecesse mesmo ser condenado. Mas no estava em condies de pensar com clareza... o melhor 
era ir para o quarto, deitar-se, procurar esquecer, dormir... Ou meter uma bala na cabea e acabar com tudo de uma vez!
   Continuou a olhar para os ps do doutor, que agora se moviam na sua direco. Queira Deus - pensou o tenente -, queira Deus que esse homem no me ponha a mo 
no ombro, que eu no poderei suportar seu contacto. o outro, porm, limitou-se a mostrar-lhe o pulso esquerdo, onde se via um nmero tatuado - 12.345.
   - Eu seria a ltima pessoa no mundo a tolerar ou justificar, mesmo academicamente, a tortura... - disse o mdico. - Voc conhece a minha histria?
   - No. Porque havia de conhecer?
   - Mas sabe que sou judeu, no sabe?
   O tenente hesitou por um segundo, como se o outro lhe houvesse perguntado: "Sabe que sou leproso?"
   - Sei.
   - Pois bem. Aos catorze anos me levaram para um campo de concentrao com toda a minha famlia: me, pai, um irmo mais velho que eu, e outro de apenas dois anos 
de idade...
   - Acho desnecessrio dizer-lhe que sou negro. Ns tambm conhecemos as humilhaes dos guetos.
   - Ah, tenente! No queira comparar... Nosso caso foi mil vezes pior, talvez o mais horrendo e insensato pesadelo da Histria, Temos sido, durante milnios, os 
bodes expiatrios da Humanidade.
   No entrei aqui para discutir o problema hebreu - pensou o tenente, remexendo-se na sua cadeira, consciente agora de que sua dor de cabea se agravava. O outro 
caminhava na sua frente, de um lado para outro, e falava, de fronte alada, como se estivesse dando uma aula. O tenente seguia, fascinado, aqueles ps nus.
   - Jamais esquecerei o dia em que os guardas reuniram no ptio murado todos os meninos do campo, entre doze e quinze anos, e nos fizeram formar, completamente 
despidos, para responder  chamada. Ordenaram-nos aos berros que nos perfilhssemos como soldados. As bestas nazistas nos disseram ento as mais srdidas chacotas, 
nos chamaram de judeus sujos e se riam, como se riam! Enquanto tremamos de frio e de medo, aqueles porcos estavam abrigados pelos seus capotes, as suas botas, as 
suas luvas...
   o mdico aproximou-se da janela e ali ficou a olhar para fora. S ento o tenente percebeu que o canhoneio havia cessado. Olhou o seu relgio-pulseira e pensou: 
o dia em breve vai nascer.
   - Mas isso foi apenas o princpio - prosseguiu o outro. - O pior estava ainda por vir. ramos milhares naquele campo... Vivamos como animais, subalimentados, 
com roupas insuficientes, no meio da sujeira e do fedor... Tenente, quantas pessoas tero tido como eu o "privilgio" de conhecer aos catorze anos, veja bem, catorze 
anos, todas as misrias, brutalidades e vilezas de que  capaz um ser humano - Atirou o cigarro fora, pela janela. - Foi a minha educao sentimental. Meu pai e 
minha me passavam o tempo a rezar, confiando em Deus. jamais desesperaram. Mas nem todos eram assim. s vezes um dos internados tinha acessos de loucura. Um dia 
vi um homem precipitar-se desatinado sobre a cerca de arame farpado que circundava o campo, e pela qual passava uma corrente elctrica de alta voltagem. Esse no 
foi o nico suicdio. Houve outros... Muita gente morria tambm durante os trabalhos forados ou servindo de cobaias para experincias pseudocientficas...
   - Porque terei de ouvir toda essa conversa? - perguntava-se o tenente a si mesmo. Pensava em erguer-se e ir embora, mas uma fora misteriosa o prendia quela 
cadeira, e seus olhos continuavam fixos nos ps do homem do pulso tatuado.
   - o comandante do campo era um coronel com veleidades artsticas e dotado de um senso de humor negro, Descobriu entre os internados gente que tocava instrumentos 
musicais e mandou organizar uma banda... Violinos, bandolins, cordeonas, guitarras... Obrigava os msicos a tocarem para acompanhar os condenados quando estes caminhavam 
para as cmaras de gs. E como aquelas bestas nazistas riam dessas procisses trgicas! Foi ao som de uma marcha... (como poderei jamais esquecer a melodia?) que 
vi minha me com meu irmo menor nos braos, arrastar-se para a cmara letal, junto com outras mulheres, todas completamente nuas, sob as gargalhadas dos carrascos... 
Dias depois, meu pai teve de cavar com outros prisioneiros a vala comum onde iam ser enterrados. Fomos todos convocados obrigatoriamente para assistir  cerimnia. 
Os condenados foram alinhados  beira da cova e assassinados cada um com uma bala na nuca. Pensei em fechar os olhos... mas conservei-os abertos. Meu pai voltou 
a cabea e eu compreendi que ele me procurava no meio da multido. No me viu. Eu quis gritar-lhe alguma coisa mas a voz me ficou trancada na garganta. Vi quando 
um daqueles animais lhe meteu uma bala na nuca, e ele tombou...
   - Est bem! Est bem!
   - No, tenente, quero que compreenda bem porque no posso tolerar a violncia. Vi muita gente do nosso campo torturada, humilhada. Meu irmo foi um deles... E 
um dia um porco nazista,  ponta de baioneta, obrigou um rabino, um ancio respeitvel, a limpar com as barbas e a lngua as imundcies de uma latrina. Voc j viu 
um homem vilipendiado, mas viu mesmo?
   - Est claro que vi! j lhe disse que sou negro. Quando menino, eu estava presente quando o meu pai foi atacado e espancado na rua por trs homens brancos. No 
dia seguinte ele se enforcou. Vocs, judeus, no tm o monoplio do sofrimento no mundo!
   Como se no tivesse ouvido estas palavras, o mdico sentou-se, apanhou outro cigarro e acendeu-o.
   - Fui salvo por um milagre. Um velho que tomou conta de mim, depois que meus pais morreram, me escondeu na hora em que nos buscavam para entrar na cmara da morte. 
Dias depois chegaram as tropas aliadas, fui libertado com os sobreviventes do campo e mais tarde mandado para o seu pas, tenente, onde tinha um parente que me reclamou. 
Foram necessrios muitos anos de tratamento psiquitrico para eu voltar a ser uma pessoa normal... se  que sou normal... ou se existe normalidade no mundo. Depois 
comecei a ler artigos e livros sobre as atrocidades nos campos de concentrao nazistas... Procurava identificar as caras nas fotografias do campo em que havia estado, 
na esperana louca de rever as faces da minha me, do meu pai, de meus irmos, e a minha prpria. Continuei a alimentar assim o meu dio, um dio que passou a ser 
a minha razo de viver. Detestava a raa que nos torturou... a sua lngua, a sua cultura... tudo! Depois cheguei  concluso de que ningum pode passar a vida odiando 
com essa intensidade e ao mesmo tempo preservar o seu equilbrio mental. Fiz um prolongado tratamento psicanaltico. Procurei tambm o consolo da religio. o rabino 
que me instruiu me aconselhou o perdo, o esquecimento... Ora, esquecer no depende de nossa vontade. E o perdo, estou convencido, precisa ser mais que uma palavra...
   Ergueu-se, foi at ao quarto de banho e voltou de l segundos depois com uma toalha molhada, que comeou a passar pelo peito.
   - Formei-me em Medicina, escolhi uma profisso que  a negao mesma do assassnio. Adoptei a nacionalidade do pas que me acolheu. Evitei o casamento. Tive medo 
de ter filhos, porque eles seriam judeus como eu, e jamais pude esquecer aquelas crianas que vi no campo, esquelticas de fome, roxas de frio ou mortas, deformadas, 
vtimas das "experincias" de um mdico louco.
   Porque no podia encarar o judeu? - perguntava-se o tenente. Porque insistia em olhar com aquela intensidade malvola para os ps dele?
   - O tempo contribuiu para esmaecer um pouco todas essas lembranas sombrias. Tentei muitas vezes perdoar, como me aconselhou o rabino. Mas a dificuldade  que 
no consegui ainda perdoar-me a mim mesmo por ter sobrevivido. Essa ideia me perturbava e ainda perturba. Porque Deus, dentre todos os membros da minha famlia, 
escolheu a mim para poupar? Meu pai era um bom homem. Minha me, uma santa. Meu irmo mais velho, muito mais inteligente e melhor que eu. O meu irmo menor, um inocente. 
Porque foi que Deus me preservou? Ser que me reservava alguma misso especial? Se tal  o caso, que misso  essa?
   O tenente teve mpetos de exclamar: "Pergunte a Ele! Foram vocs que inventaram esse Deus." Mas continuou calado. Notava agora que havia uma cicatriz no peito 
do p esquerdo do outro.
   - Se voc me perguntar porque me apresentei voluntrio ao Exrcito e pedi que me mandassem para c, eu lhe poderia dizer (mas isso seria apenas parte da verdade) 
que eu quero ajudar os outros a viver, curar suas feridas, aliviar suas dores, sem olhar raa, credo religioso ou partido poltico. Mas, bem no fundo, desconfio 
que eu quero mesmo  expor-me aos perigos de ser morto em combate. Veja bem, tenente, procuro dar a Deus mais uma oportunidade para verificar se  a mim mesmo que 
Ele quer poupar.
   - Todas essas coisas que voc contou se passaram h vinte anos.
   o mdico deixou a toalha cair no cho. Sem levar em conta a interrupo, prosseguiu:
   - Voc h pouco ps o seu problema em termos de meios e fins. Eu no aceito a ideia de que os fins justificam os meios. o co danado que era o chefe dos nazistas 
aceitava esse princpio. o mesmo acontecia com o sinistro ditador comunista. Um invocava como objectivo sagrado a defesa da raa ariana, que era um mito, uma mentira, 
o outro achava que todos os meios eram bons para promover a socializao do mundo. Pense nos milhes de criaturas humanas que morreram, perderam a liberdade e foram 
vtimas de atrocidades e injustias por causa dessas falcias...
   o tenente ps-se de p.         
   - No vim aqui para discutir poltica ou filosofia.
   - Para que veio, ento?         
   - No sei. Nem quero saber.         
   - Mas espere, tenente, voc vai embarcar de volta  ptria dentro de poucas horas. Nossos caminhos se separam aqui e agora. Quero terminar meu argumento. Naquela 
cela subterrnea, havia uma pessoa viva de carne, osso, sangue, nervos... dotada de uma alma. Era lcito mandar tortur-la para salvar... uma abstraco? Sim, tenente, 
os ditadores que mencionei costumavam falar nessa dupla abstraco que  a Humanidade do Futuro. Quem eram as pessoas que a bomba ia destruir? Naquele momento em 
que o prisioneiro ficou  sua merc, tenente, no passavam de abstraces, hipteses. E quem lhe garantia a existncia real da segunda bomba? No podia ter sido 
tudo pura inveno vingativa do terrorista moribundo?
   - Mas ficou provado que era uma realidade.
   - O que no altera o raciocnio que acabei de expor.
   O tenente encarou o interlocutor e sentiu que o detestava.
   - Voc quer se vingar em mim do mal que lhe fizeram os nazistas.
   - Absurdo! Voc no compreendeu nada do que eu lhe disse.
   - Agora sou eu o seu bode expiatrio.
   Os olhos cor de mbar do homem de pulso tatuado o fitavam. O tenente tornou a falar:
   - A verdade  que vocs, os judeus da minha terra, no so diferentes dos brancos cristos: tambm detestam e discriminam os negros!
   - E os negros, por sua vez, no nos suportam! Quando vi voc, farejei logo um anti-semita.
   Ficaram a medir-se num desafio. Foi nesse momento de tenso que a campainha do telefone soou. o tenente estremeceu. (Devem estar me procurando.) o mdico acercou-se 
da mesa e apanhou o fone.
   - Al! Sim,  ele mesmo. Que  que h? - Ficou a escutar, de cenho franzido. A voz que vinha do outro lado do fio parecia o zumbir de uma abelha dentro de uma 
caixa de fsforos. Enquanto recebia a mensagem, o mdico olhava para o tenente. - Quantos?... Que desastre! Sim, estarei pronto em dois minutos.
   Reps o fone no lugar. Estava plido e conturbado.
   -  a mim que esto procurando? - indagou o outro.
   Por uma fraco de segundo o mdico hesitou. Depois contou:
   - Uma coisa horrvel aconteceu... Avies de nossa Marinha despejaram por engano bombas de napalm numa aldeia amiga onde estavam acampados soldados nossos... Esto 
me chamando com urgncia ao hospital central.
   Como se despertasse de repente, desatou os cordes do pijama, cujas calas lhe caram aos ps. Desvencilhou-se delas e comeou a vestir-se s pressas. Enfiou 
as calas do uniforme, depois o bluso e finalmente as botas, sem meias. o tenente continuava parado no meio do quarto, as ideias num tumulto. Teria compreendido 
claro o que o mdico acabara de contar?
   - A coisa se deu h pouco mais de uma hora. Informaram-me de que as baixas so pesadas... Um verdadeiro desastre. Pelo menos trinta mortos e talvez mais de oitenta 
feridos... Foi o que me disseram.
   O tenente escutava, perplexo.         
   - Esto comeando a chegar os primeiros feridos - continuou o capito, apanhando a boina. - O jipe que me vai levar ao hospital j deve estar l em baixo. Vamos!
   Encaminharam-se para fora do quarto.
   - Porque est rindo? - estranhou o doutor, junto da porta do elevador, depois de ter premido o boto de chamada.
   - Porque tudo isso  uma farsa, uma trgica farsa! - exclamou o outro. - Trinta mortos, mais de oitenta feridos...
   O elevador chegou. Entraram. Comeou a lenta descida.
   - O almirante naturalmente mandar ao general um pedido de escusas - resmungou o tenente -, dir que lamenta profundamente o que aconteceu... e que tudo foi um 
"erro de clculo"... E a coisa ficar por isso mesmo. Amanh esses mesmos pilotos sero condecorados por outros feitos dessa natureza, desde que as vtimas no sejam 
os nossos bravos rapazes e sim os "ratos asiticos".
   Sem dar-lhe ouvidos, o mdico abriu a porta do elevador e cruzou o saguo a passo acelerado. O tenente seguiu-o, ele mesmo no sabia porqu. Junto da calada, 
 frente do hotel, estava estacionado um jipe, com um soldado do corpo mdico ao volante. O doutor saltou para dentro dele e perguntou:
   - Quer ir at ao hospital, tenente?
   O outro subiu para o carro como um autmato que recebe um impulso elctrico. Sentou-se no banco traseiro. O jipe arrancou, sua buzina rompeu a uivar. O tenente 
teve a impresso de que aquele som agudo lhe trespassava o crnio como um estilete. Tapou os ouvidos com as mos. E pensou: Agora vo pedir a minha cabea. Serei 
levado a Conselho de Guerra. Ou entregue  justia civil. Como um criminoso. Este comando cumpre o dever de comunicar que esta madrugada seus avies por um deplorvel 
erro de clculo.. etc... etc... etc...
   o horizonte comeava a clarear. Viam-se j nas ruas homens e mulheres pedalando suas bicicletas, rumo dos lugares onde trabalhavam. o jipe uivava como um animal 
ferido de morte. E ento o tenente olhou para o cu e reencontrou a Lua, que esmaecia como o firmamento.
   O automvel estacou  porta do hospital, onde se via um grande movimento de veculos e soldados. Gritavam-se ordens. Quando deu acordo de si, o tenente estava 
sozinho num dos degraus do prtico. O mdico tinha desaparecido. Dois homens tiravam uma padiola com um ferido de dentro de uma ambulncia parada junto ao meio-fio. 
O tenente acompanhou-os escadaria acima e entrou no hospital. As luzes do corredor lhe revelaram o horror... O soldado queimado por napalm havia quase perdido a 
forma humana, mais parecia um animal escorchado, de um vermelho vivo de lagosta que acaba de sair de um caldeiro de gua fervente - as faces sem feies, a carne 
j com um aspecto purulento. O tenente encostou-se numa parede, atordoado, a viso embaralhada e ali ficou, enquanto passavam por ele outras macas com pedaos de 
carne queimada, alguns dos quais ainda gemiam.
   Saiu para a rua, uma nusea a contrair-lhe o estmago. Desceu as escadas, tropeando aqui numa padiola, chocando-se mais adiante com um soldado, e se foi madrugada 
adentro. O calor continuava pesado, opressivo, implacvel. Duas mocinhas nativas passaram por ele, montadas nas suas bicicletas, e suas vozes frescas e musicais 
chegaram at aos seus ouvidos. Parou, imaginando que algum tivesse pronunciado o seu nome. Depois retomou a marcha sem norte. Meteu-se em becos e ruelas, arrastando 
o corpo dolorido, a cabea que parecia inchar, crescer cada vez mais... Por fim entrou numa rua larga, com muitas rvores, atravs das quais se avistava o rio, onde 
juncos e sampanas se moviam lentamente.
   Um jipe surgiu a uma esquina e aproximou-se dele em marcha lenta e em sentido contrrio. A luz dos holofotes cegou-o por um instante. (A mariposa - a estudante 
suicida - a cruz de fogo.) O carro estacou junto do meio-fio, a uns cinco metros de onde estava o tenente. Um soldado saltou para a calada e aproximou-se. Era da 
Polcia Militar e estava armado de metralhadora.
   - Por obsquio - pediu -, os seus papis de identidade!
   Mas o que chegou  cconscincia do tenente foi um frase que a memria enferma lhe enviou, uma frase antiga, temvel e carregada de injustias e ameaas. "Agarra 
o negro!" "Agarra o negro!" "Agarra o negro!"
   Uma fria rebentou-lhe o peito. Ah, no! Desta vez, no!
   Precipitou-se sobre o soldado, arrebatou-lhe a metralhadora das mos e derrubou-o com um pontap na boca do estmago. Recuou dois passos e gritou: "Foge, papai, 
foge!" Destravou a arma, apontou-a para os holofotes, puxou no gatilho e com uma descarga estilhaou e apagou os olhos do monstro. A seguir, numa feroz, orgulhosa 
alegria de homem que de repente descobre a porta da liberdade, ergueu a ala de mira para alvejar os vultos brancos encapuzados que se esgueiravam por entre as rvores 
do seu jardim... Depressa, antes que acendam a cruz de fogo!
   Uma rajada de metralhadora rasgou-lhe o peito de lado a lado, cosendo-o por alguns segundos ao muro que lhe barrava a retaguarda. Deixou cair a arma, afrouxaram-se-lhe 
as pernas, dobrou-se sobre si mesmo, e, sangrando pela boca, caiu de borco, com uma das faces sobre as lajes da calada... E as ltimas imagens que suas pupilas 
reflectiram, e que lhe chegaram sem sentido  sua conscincia que se apagava, foram duas botas militares negras, por entre as quais lucilava longe a luz da lanterna 
de uma sampana que cruzava o rio.
   O sargento ajoelhou-se Ao lado do homem cado, segurou-o pelos ombros, f-lo voltar-se de cara para o cu e depois focou nele o feixe de luz de sua lanterna elctrica.
   - Conhece? - perguntou o fuzileiro, que s agora, as mos espalmadas sobre o estmago, se erguia do lugar onde fora derribado.
   - No - respondeu o soldado, ainda mal podendo respirar. - Chamamos uma ambulncia?
   - No h tempo. Vamos lev-lo para o hospital no jipe. Depressa!
   O sargento segurou o desconhecido por baixo dos braos, o outro apanhou-lhe as pernas  altura dos joelhos e assim o ergueram e puseram sentado no banco traseiro 
do carro. Ficou na calada uma poa de sangue para a qual olhava agora fixamente- o homem que metralhara o tenente. Era um soldado negro.
   - Vem ou no vem? - gritou o sargento.
   O soldado subiu para o jipe e acomodou-se ao lado do companheiro que estava ao volante. O carro se ps em movimento. Sentado junto do tenente, o sargento tomou-lhe 
o pulso e depois apalpou-lhe o peito  altura do corao.
   - Est ainda vivo? - perguntou o soldado que dirigia o veculo.
   - Duvido - respondeu o sargento, limpando num leno os dedos manchados de sangue.
   - Que ser que deu no tenente? Eu apenas lhe pedi os papis...
   - Agora s Deus sabe. Porque este homem est morto.
   O negro ia de cabea baixa, balbuciando:
   - Logo eu... logo eu...
   O companheiro deu-lhe uma palmada rpida no joelho e tratou de consol-lo.
   - Se voc no tivesse atirado nele, a esta hora estaramos todos liquidados, com o bucho cheio de chumbo... E morreria muita gente mais. Na hora em que ele levantou 
a ala de mira da metralhadora, passavam pela rua homens e mulheres a p e em bicicletas... Ia ser um morticnio danado.
   - Mas porque tinha de ser eu... logo eu? No v que ele  da minha raa? - Seus lbios tremeram, lgrimas lhe brotaram dos olhos e lhe escorreram pelas faces 
pardas.
   Havia j clareado o dia quando o coronel-comandante entrou no hospital em companhia do major. Foram ambos levados para a pequena sala onde se encontrava o corpo 
do tenente, estendido numa cama de ferro e coberto at  cabea por um lenol.
   O major descobriu-lhe o rosto, cuja pele as tintas da morte haviam deixado mais clara. O coronel fitou-o longamente e depois murmurou:
   - Era um fraco, um neurtico. No sei como mandam gente assim para c. Nunca fiz muita f nesses testes psicolgicos... Esse homem quase matou quatro excelentes 
soldados, isso sem contar os civis que poderiam ter sido atingidos pelas balas perdidas de sua metralhadora...
   O major reflectiu melancolicamente que as almas perdidas o preocupavam muito mais que as balas perdidas. Olhando tambm para o cadver, disse:
   - Coitado! Tinha terminado seu tempo de servio. Amanh de manh poderia estar em casa...
   E ento uma mulher de ambos desconhecida, e que ali chegara sem que nenhum deles tivesse percebido, pousou com profunda ternura os seus olhos cor de violeta no 
rosto do morto e sussurrou:
   - Ele j est em casa.        
   O Sol apontava por trs das montanhas quando o velho que, ao entardecer do dia anterior, havia apanhado uma pomba-rola com sua armadilha de bambu, saiu de sua 
choa e ps-se a acender um fogo de gravetos para esquentar a gua do ch matinal.
   Fumando o seu cachimbo de barro, acocorou-se junto da chaleira de ferro e contemplou satisfeito a gaiola onde a ave, imvel, parecia olhar para ele. Ia armar 
de novo a sua arapuca, usaria a pombinha como engodo e esperaria que outros pombos cassem na armadilha. Poderia esperar todo aquele dia. E muitos outros dias. Tinha 
muito tempo pela frente ou no tinha nenhum, o que dava no mesmo. Pensou nos dois netos que haviam sido mortos durante a noite, mas sem muita tristeza. Um dia haveria 
de reencontr-los, em algum lugar, de alguma maneira. Lembrou-se de que quando um deles era menino ele lhe havia dado de presente uma pomba-rola. Sua boca desdentada 
pregueou-se num sorriso evocativo, entre nostlgico e divertido. Depois quedou-se a devanear. Imaginou-se a caminho do mercado, com uma canastra cheia de pombos...
   Ouvindo um ronco que vinha do cu e sentindo um sopro que sacudia os arrozais e lhes encrespava as guas, ergueu a cabea e, sempre sorrindo, ficou a contemplar 
os helicpteros militares que, como um bando de gordos patos selvagens de plumagem verde, seguiam numa revoada rumo da cordilheira.
   
           FIM
